Em ‘Tempo’, M. Night Shyamalan atrapalha uma boa história com seus maneirismos; G1 já viu


Adaptação de trama intrigante de HQ chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (29) com bons momentos, mas exageros do diretor destoam. Ao longo de sua carreira, o diretor M. Night Shyamalan (“O sexto sentido”) passou por altos e baixos com crítica e público. Em seu mais novo filme, “Tempo”, o cineasta enfrenta mais um momento complicado – e a culpa não é de ninguém além dele mesmo.
O filme que estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (29) parte da interessante premissa da HQ “Castelo de Areia”, de Pierre Oscar Lévy e Frederik Peeters, para discutir a natureza humana com suspense e tensão.
Infelizmente, em “Tempo”, Shyamalan se perde em seus próprios maneirismos e exageros, e atrapalha uma história que merecia um olhar mais sensível e paciente no comando.
Assista ao trailer do filme “Tempo”, de M. Night Shyamalan
O tempo voa
A produção acompanha a viagem de um casal à beira do fim do casamento com seus dois filhos a um hotel de luxo. Na região, decidem ir a uma praia isolada, onde encontram outros turistas.
Porém logo fica claro que as coisas ali não são normais e um corpo flutuando no mar se torna o menor dos problemas quando as crianças começam a envelhecer rapidamente com o passar dos minutos.
Com uma força invisível que os impede de deixar o local, eles são forçados a encarar seus próprios demônios e decidir se continuam concentrados em busca de uma saída naqueles que podem ser seus últimos momentos de vida.
Vicky Krieps, Thomasin McKenzie, Luca Faustino Rodriguez e Gael García Bernal em cena de ‘Tempo’
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Até relógio parado acerta duas vezes
A base da história do filme parece muito com a da HQ por um bom tempo. Enquanto explora o turbilhão de emoções dos personagens atônitos diante de uma situação tão bizarra, o roteiro de Shyamalan consegue os melhores momentos.
Em especial, graças às atuações competentes do conjunto do elenco, encabeçado por Gael García Bernal (“Wasp network: Rede de espiões”) e Vicky Krieps (“Trama fantasma”), os pais desesperados, e Alex Wolff (“Hereditário”) e Thomasin McKenzie (“Jojo Rabbit”), as crianças envelhecidas.
Porém Shyamalan cede aos próprios impulsos, que tinha conseguido controlar de forma admirável em “Vidro” (2019), e exagera no suspense em sequências que mereciam silêncio ou reflexão.
As circunstâncias são extraordinárias, com certeza, mas público e protagonistas mal conseguem refletir, obrigados a desviar de cenas grotescas até para o alguns dos filmes mais sombrios do cineasta.
Abbey Lee, Nikki Amuka-Bird, Ken Leung, Thomasin McKenzie, Rufus Sewell, Aaron Pierre e Vicky Krieps em cena de ‘Tempo’
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A coisa piora quanto mais ele se afasta do original. A história sem explicações ou motivações da HQ permitia à obra uma exploração direta e crua do lado mais primitivo do ser humano.
Em “Tempo”, a pseudociência apresentada até convence. O que complica são as forças por trás do fenômeno. Previsíveis e singelas, não conseguem justificar sua existência, quebram o ritmo de um final que encontrava novamente alguma beleza e deixam um gosto amargo após os créditos.
Shyamalan passou por altos e baixos em sua carreira. Com sorte, seu próximo filme recupere a sua melhor forma.
Thomasin McKenzie e Alex Wolff em cena de ‘Tempo’
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