Elton John, Cynthia Erivo e os primos pobres


Elton John durante apresentação da música ‘(I’m Gonna) Love Me Again’ no Oscar 2020
Mario Anzuoni/Reuters
Desconfio que meu assunto de hoje não vá interessar a mais do que meia dúzia de pessoas das que ainda leem sobre os resultados do Oscar. Refiro-me ao que já chamei de primos pobres da premiação: as categorias que tratam de música.
Meia dúzia de pessoas… pelo alto, já que não vi, entre críticos, analistas, apresentadores, fãs e curiosos nenhuma referência menos superficial às duas das categorias que a Academia de Ciências e Artes Cinematográficas criou em 1934, quase oito anos depois de instituir a premiação.
Conheça e ouça as músicas indicadas a Melhor Canção Original
Não que a música do cinema tenha perdido a importância. Acredito que, em Hollywood, como nos principais cinemas europeus, ela tenha hoje quase a mesma relevância com que foi aceita nas duas primeiras décadas de filme falado. Digo quase porque, nos anos 30 e 40, praticamente todo compositor “clássico” escreveu para o cinema. Alguns, refugiados do nazismo, exclusivamente para o cinema. Foi uma época em que se ouvia nas trilhas sonoras a grande música que, por várias razões, já não eram tão presentes nas salas de concerto.
Hildur Guonadottir recebe o Oscar de melhor trilha original por ‘Coringa’
Chris Pizzello/AP
Depois, principalmente com o fim da segunda Guerra Mundial, a música do cinema continuou prestigiada no mundo todo, Estados Unidos, Itália, França, Inglaterra, países da Europa Central, Japão e, mais para cá, China. E a Academia reconheceu isso, premiando trilhas e canções, e garantindo para elas lugar na festa de entrega. Aliás, como se viu no domingo, música a toda hora e para vários gostos.
Como não se falou nisso por aqui, como não houve nos rescaldos da festa referência à música, permiti-me calcular em meia dúzia o número de interessados no assunto.
Gostaria de ter sido informado, por exemplo, sobre Hildur Guönadóttir, a islandesa de nome impronunciável que levou a estatueta de melhor trilha sonora original. Quem é ela e como foi parar em Hollywood, aos 37 anos, vivendo há tempos na Alemanha? E quais qualidades os acadêmicos descobriram na música de “Coringa” (e não “curinga”, como prefere quem sabe) para superar a de veteranos como John Williams, Alexander Desplat e os representantes da família Newman?
Não estou questionando aqui a justiça da premiação ou o merecimento de Hildur. O que se esperava é informação sobre mais uma que vem reforçar o time feminino da música cinema, onde Rachel Portman ainda reina absoluta.
Elton John e Bernie Taupin recebem o Oscar de melhor canção original por ‘(I’m gonna) love me again’, do filme ‘Rocketman’
Chris Pizzello/AP
Justiça e merecimento têm mais a ver com o Oscar de canção. Os que sabem como a Academia costuma tratar esta categoria não tinham dúvidas de que o vencedor seria Elton John, em parceria com seu fiel escudeiro, Bernie Taupin. Não importava que “(I’m gonna) love me again” não estivesse à altura de prêmio algum – ou não estivesse à altura do próprio Elton John. Era carta historicamente marcada.
De fato, é histórico que, sempre que um nome de muito peso se destaca entre os concorrentes, os eleitores não perdem tempo em saber se é ou não o melhor. Votam nele de olhos (e ouvidos) fechados. Foi assim com Stephen Sondheim em 1990, com Andrew Lloyd Webber em 1996 e com Bob Dylan em 2000. Suas canções premiadas também não estavam à altura deles.
É claro que Elton John sempre merece a curtição de todos nós que gostamos de música. Independentemente de Oscar. Mas foi uma pena ver preterida a talentosa Cynthia Erivo, letrista e voz para a música de Joshuah Brian Campbell em “Stand up”. Nenhum problema ela não ficar com o Oscar que, ninguém duvidava, era mesmo de Renée Zelwegger. Mas é lamentável que a força da canção, sua e de Campbell, para o filme sobre a vida da grande ativista negra Harriet Tubman, não tenha sensibilizado quem preferiu o Rocketman.
Cynthia Erivo canta a música ‘Stand Up’ no Oscar 2020
Chris Pizzello/AP