Elba Ramalho oferece outro balaio de xotes românticos no conforto familiar do álbum ‘Eu e vocês’


Produzido com competência pelo filho da cantora, Luã Yvys, o disco inclui tributo a Moraes Moreira entre músicas de Dominguinhos, Dorgival Dantas e Mestrinho. Capa do álbum ‘Eu e vocês’, de Elba Ramalho
Lucas Menezes
Resenha de álbum
Título: Eu e vocês
Artista: Elba Ramalho
Edição: Acauã Produções
Cotação: * * * 1/2
♪ Nas entrevistas que vem dando para promover o álbum Eu e vocês, Elba Ramalho associa o disco – lançado na sexta-feira, 20 de novembro, somente em edição digital – a Balaio de amor (2009), álbum de xotes românticos editado pela cantora há 11 anos.
O link é pertinente. Disco coerente com a trajetória da artista paraibana de 69 anos, Eu e vocês expõe Elba no conforto desse universo musical nordestino em repertório que apresenta quatro músicas inéditas em 12 faixas.
Eu e vocês é o 39ª título da discografia da cantora – se incluído na conta o registro ao vivo de show Raízes e antenas (2008), editado somente no formato de DVD – e soa sedutor, sobretudo para quem se identifica com o tom do CD Balaio de amor.
Mesmo sem a ambição artística do estupendo álbum anterior da cantora, O ouro do pó da estrada (2018), produzido na pressão por Yuri Queiroga e Tostão Queiroga com mix de sanfonas e guitarras, Eu e vocês é disco formatado com competência por Luã Yvys no estúdio mantido por Elba na casa da artista, na cidade do Rio de Janeiro (RJ).
Com os toques de músicos do Rio e do Recife (PE), arregimentados e captados remotamente, o álbum Eu e vocês foi antecedido por quatro singles lançados por Elba ao longo dos últimos dois meses.
No primeiro single, apresentado em 4 de setembro, Elba moldou Maçã do rosto (Djavan, 1976) de forma arretada em arranjo que combina sanfona (a de Meninão), guitarra (a do produtor musical Luã Yvys) e zabumba (a de Durval Ferreira). Maçã do rosto – cabe lembrar – é a música de sintaxe mais nordestina do primeiro álbum de Djavan, disco em que o então debutante compositor alagoano foi induzido a cair preferencialmente no samba.
Filho de Elba, Luã Yvys surpreende positivamente como compositor da inédita canção De onde eu vim, toada que reverencia origens sertanejas do povo nordestino em arranjo que harmoniza viola (de Rodrigo Garcia), violoncelos (de Federico Puppi) e violões (de Luã, Marcos Arcanjo – nas cordas de aço – e Rodrigo Garcia).
Tanto Maçã do rosto como De onde eu vim se desviam da cadência dominante no álbum Eu e vocês. Esse é o único problema do disco. Por estar povoado de xotes românticos, o álbum chega a soar repetitivo na temática e na rítmica quando chega na 10ª faixa, Já com saudade (Cezzinha e Clodo Ferreira, 2013), xote doido de amor.
Dentro do gênero xote romântico, Elba pesca duas pérolas do repertório de Flávio José, cantor paraibano de fama circunscrita às fronteiras nordestinas. Seu olhar não mente (Ilmar Cavalcante e Nanado Alves, 2000) é faixa em que, no conjunto do disco Eu e vocês, soa tão forte quanto o refrão de Pra você voltar pra mim (2006), xote do compositor potiguar Dorgival Dantas lançado há 14 anos na voz de Flávio José.
Do cancioneiro de Dominguinhos (1941 – 2013), compositor referencial na discografia de Elba, a cantora dá voz a duas parcerias do sanfoneiro com o compositor Climério Ferreira. Ter você é ter razão (1997) é xote nostálgico do amor que se foi, tendo sido lançado em disco há 23 anos nas vozes de Tim Maia (1942 – 1998) e do grupo Os Cariocas no álbum Amigo do rei (1997).
Já O inverno é você (2017) acalenta a esperança do calor vindo com a chegada do ser amado. Cantado por Elba com padre Fábio de Melo, esse xote foi lançado há apenas três anos na voz do cantor e sanfoneiro Mestrinho em gravação feita para álbum É tempo pra viver (2017) em dueto com o coautor Climério.
Elba Ramalho lança o álbum ‘Eu e vocês’, batizado com o nome de música de Juliano Holanda e Zélia Duncan
Lucas Menezes / Divulgação
Mestrinho, a propósito, é o compositor e o cantor convidado de Eu vou chegar chegando, a faixa mais forrozeira do álbum Eu e e vocês. Inédito, o baião Eu vou chegar chegando tem o chamado aliciante da sanfona choradeira do próprio Mestrinho em gravação que evoca a energia arretada de Elba nos anos 1980, década em que a cantora de fato chegou chegando nas paradas e alcançou projeção nacional como a voz mais pop do Nordeste em solo brasileiro, após três álbuns iniciais de tom mais denso.
A música de Mestrinho eleva a temperatura de álbum de disco de climas amenos, já sinalizados pelos singles com os xotes Ainda tenho asas – composição inédita, assinada pela própria Elba com o filho Luã Yvys em voo autoral de menor alcance no confronto com outras músicas do gênero – e Felicidade (Marcelo Jeneci e Chico César, 2010).
Na voz de Elba, esse sucesso do primeiro álbum de Jeneci conserva a leveza, emanando boas vibrações e tendendo para o xote no balanço da sanfona, com direito ao toque celestial da kalimba de Luã Yvys na introdução da faixa.
Homenagem da cantora a Moraes Moreira (1947 – 2020), compositor recorrente na discografia de Elba Ramalho, a abordagem da radiofônica canção Sintonia (Moraes Moreira, Fred Góes e Zeca Barreto, 1986) corrobora a sensação de Eu e vocês ser álbum pautado pelo conforto.
A impressão é alicerçada ao fim do disco com a gravação da inédita balada-título Eu e vocês, parceria de Juliano Holanda com Zélia Duncan, que cedeu para Elba a canção presente no (já pronto) próximo álbum de Zélia, inteiramente dedicado à parceria da artista com Holanda.
Na faixa, Elba Ramalho junta as três filhas – Maria Clara (no ukelele), Maria Esperança e Maria Paula (ambas no canto) – com Luã Yvys em registro de fraterna comunhão familiar que traduz bem o conceito aconchegante do álbum Eu e vocês.