Efeito hipster: por que grupos são iguais uns aos os outros?

Já falamos bastante aqui sobre o efeito manada, a tendência das pessoas a seguirem a maioria, seja no consumo, nos gostos pessoais ou de várias outras maneiras. Existe também seu contrário, a tendência a rejeitar o que é popular e buscar ser mais autêntico.
Escolher um visual é uma das formas mais emblemáticas de consumo. O visual é uma espécie de declaração. Metaleiros, os fãs de heavy metal, por exemplo, são fáceis de ser reconhecer – não faltam cabeleiras compridas e camisetas, geralmente pretas, com o nome das bandas favoritas. Muitos músicos e fãs do sertanejo gostam de usar chapéu e assim por diante.
Mas isso chega a níveis excêntricos entre os hipsters, um grupo alternativo com seguidores principalmente entre os mais jovens. Muitos usam camisas estampadas, outros têm uma horta dentro de casa e, além de mais hábitos em comum, quase todos capricham nos detalhes como longos bigodes, barbas, toucas etc.
Mas mesmo para eles o resultado é que acabam parecidos com outros milhões de pessoas que, tentando parecer diferentes, acabam iguais.É o que o matemático Jonathan Touboul, da Brandeis University, chama de “efeito hipster”.
A área de estudo de Touboul é sobre como uma informação circula na sociedade, mas em um artigo, ainda em revisão, ele se focou especificamente no que chama de não conformistas, pessoas que rejeitam os gostos e hábitos da maioria.
O modelo estatístico criado pelo matemático primeiro usou várias teorias, como a evolução estocástica e o conjunto de variáveis de Bernoulli, para demonstrar como as pessoas agem de acordo com maioria e quando não.
Cada consumidor segue a mesma dinâmica, detectando as mudanças na moda e então aderindo ou rejeitando a novidade. Mas no fim, sugere o trabalho, os gostos das pessoas se tornam sincronizados com o do novo grupo, que rejeita a maioria. Isto é, querendo ser originais, muitos acabam seguindo outra multidão.
Ao negar o padrão, consumidores alternativos no começo até são originais. O modelo mostra que numa fase mais inicial surgem quase infinitos modos de se comportar e de se vestir. Isso satisfaz o desejo dessas pessoas de se destacar ao não querer fazer parte da maioria.
Mas aos poucos, conforme aprendem mais sobre os códigos dos grupos, elas sintonizam seu gosto com os gostos de outros hipsters. Basta você pensar em quantos longos bigodes e densas barbas compridas viu só na última semana para ter uma ideia.
O estudo, claro, é uma provocação a esse grupo, que desperta amor e ódio na sociedade, e poderia ser aplicado a qualquer outra comunidade alternativa ou mesmo em geral. Mas o desfecho dessa história fornece uma divertida conclusão de que o matemático está certo.
Em março, depois de publicar sobre o trabalho de Touboul na revista do Massachusetts Institute of Technology, a MIT Magazine, o editor Gideon Lichfield recebeu um e-mail enfurecido de um leitor reclamando que sua imagem havia sido usada sem autorização.
A foto que ilustrava o texto era de um homem barbudo, de camisa estampada e usando uma touca. A roupa, a barba, alegava o leitor, eram iguais às suas e ele era o homem fotografado.
O editor decidiu questionar a Getty Images, a agência que vendeu a foto. Descobriu que havia sido contratado um modelo para aparecer na imagem. E que o leitor e o modelo eram pessoas diferentes. Mas, com o visual hipster típico, provavelmente eram mesmo iguais.