Edgar plana no álbum ‘Ultraleve’ com discurso mais focado


Projetado há três anos em disco de Elza Soares, rapper paulista repete a parceria com o produtor musical Pupillo. Capa do álbum ‘Ultraleve’, de Edgar
Evandro Gotaa
Resenha de álbum
Título: Ultraleve
Artista: Edgar
Edição: Deck
Cotação: * * * *
♪ “Quebra o azulejo / Deixa a terra entrar / Sobe o som / Sobe o som…”, brada Edgar, sobre os hipnóticos tambores percutidos por Thomas Harres na gravação de Manifesto do azulejo (Edgar, Pupillo Oliveira e Maurício Fleury).
Manifesto do azulejo é a primeira das nove músicas na disposição do repertório de Ultraleve, álbum que o cantor e compositor paulista – nascido Edgar Pereira da Silva, em Guarulhos (SP), em outubro de 1993 – lança na sexta-feira, 28 de maio, pela gravadora Deck.
Rapper que ganhou projeção além do circuito do hip hop ao ser convidado por Elza Soares para participar do álbum Deus é mulher (2018), na faixa Exu nas escolas (Kiko Dinucci e Edgar), Edgar aproveitou a exposição e lançou na sequência o álbum Ultrassom (2018).
Neste disco de discurso difuso, gravado com produção musical de Pupillo Oliveira, Edgar se apresentou como o profeta do apocalipse. No álbum Ultraleve, produzido pelo mesmo Pupillo, Edgar foca mais o discurso, apresentado em era de calamidade pública, sem corroer o tom incisivo das letras.
Em Também quero diversão! (Edgar e Pupillo Oliveira), o rapper atualiza a reivindicação feita pelos Titãs em Comida (Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Sergio Brito, 1987). Edgar ressalta que, além de diversão, quer diversidade de gênero.
Coerente com esse discurso, Edgar aposta na diversidade de sotaques no álbum Ultraleve. Ativista inuíte, voz desse povo que forma nação indígena esquimó habitante no Canadá, a cantora Elisapie fala a língua nativa ao seguir Edgar em A procissão dos clones (Edgar, Pupillo Oliveira, Maurício Fleruy e Elisapie), estando creditada como coautora da música.
Já Kunumi MC rima em guarani na faixa final Que a natureza nos conduza, tendo se tornado parceiro de Edgar e Pupillo na criação da composição, espécie de rap indígena.
Edgar apresenta nove músicas autorais, em parceria com Pupillo Oliveira, no álbum ‘Ultraleve’
Luiz Garrido / Divulgação
“Ultraleve é uma maniçoba poética, demora mais de cinco dias no fogo da vaidade, com a panela cheia de água e empatia, cozinhando todos os sentimentos atravessados por um corpo negro em uma sociedade programada para o excluir e o matar”, resume Edgar ao conceituar o disco pontuado por beats e sintetizadores programados pelo produtor e parceiro Pupillo.
Se computadores fazem arte em músicas como Saia da máquina (Edgar e Pupillo Oliveira), Sem medo esboça aproximação com a canção mais melódica dentro da moldura sintética em que o álbum Ultraleve está enquadrado.
Essa arquitetura sintética é alicerçada em Mentes mirabolantes (Edgar e Pupillo Okiveira) pelo uso do vocoder de Chiquinho Moreira. Sempre com o verbo na ponta da língua afiada, Edgar reflete sobre a institucionalização e a espetacularização da brutalidade humana em A teologia da violência, faixa aditivada com os sintetizadores de Carlos Trilha, parceiro do rapper e de Pupillo na composição.
Com a mesma acidez no discurso, O último peixe do mundo faz o ouvinte pegar a visão da corrosão de sistema social que tem historicamente oprimido o povo preto, mas joga no ar, ao fim da faixa, forte sopro de esperança. “Tudo vai dar certo / Estamos cada dia melhor”, apregoa o coro encorpado pelas vozes de Cleyde Jane, Janeh Magalhães e Rômulo Nascimento.
Em sintonia com a ideologia e a arquitetura do álbum anterior Ultrassom, Edgar plana em Ultraleve com discurso mais focado. Sobe o som para pegar a visão de Edgar!