É preciso reconhecer e respeitar o luto de idosos e crianças


Especialista alerta para os riscos de tentar poupar entes queridos da dor Erika Pallotinno diz que crianças e idosos devem participar do processo
A psicóloga Erika Pallottino é coordenadora do Instituto Entrelaços, o primeiro especializado em luto no Rio de Janeiro. Criado em 2012, tem inclusive um braço voltado para o atendimento de emergência a empresas: por exemplo, em casos de acidentes ou suicídios. Erika também coordena a pós-graduação em psico-oncologia da PUC-Rio e sua dissertação de mestrado diz tudo sobre sua área de atuação: “Discursos do silêncio: crianças doentes falam sobre a dor, a morte e a vida”. Aproveitei essa larga experiência para tratar do delicado (e recorrente) tema que é a decisão de “poupar” idosos e crianças de notícias duras sobre a doença e a morte de entes queridos.
“Na verdade, quando pensamos que estamos poupando as crianças e os velhos, acabamos não reconhecendo seu luto. Os teóricos batizaram essa situação de enlutamento não autorizado”, explica Erika, que acrescenta: “a realidade se apresenta de algum modo, porque a percepção de que algo mudou é concreta. É o que chamo de discursos do silêncio, porque as crianças sabem o que está acontecendo, inclusive quando estão gravemente doentes”.
A psicóloga Erika Pallottino, coordenadora do Instituto Entrelaços, especializado em luto
Mariza Tavares
A professora diz que sempre é possível preparar os mais frágeis para notícias ruins e que a pior alternativa é quando o silêncio se torna um protagonista: “para a criança, o que parece ser uma boa ação tem reflexos no futuro. Interfere em seu desenvolvimento cognitivo, na construção de laços de confiança, na autoestima. Para os pequenos e os mais velhos, tratar do assunto significa dizer que aquela pessoa tem a capacidade de entender, de lidar com aquilo, de dar conta da situação. Não se deve retirar a possibilidade da despedida, que é um facilitador do processo”.
Um contingente em expansão é o de idosos que perdem filhos adultos: “esses pais estão na casa dos 80, às vezes dos 90 anos, e carregam a culpa de continuarem vivos”, afirma a psicóloga. Para a pesquisadora americana Katherine Shear, especialista em complicações no luto, esse é um grupo de risco, como detalha Erika Pallottino: “o enlutado grave não consegue elaborar o processo, há um prolongamento daquela resposta aguda que pode se estender por anos. Trata-se de uma disfuncionalidade relevante, porque a pessoa não consegue lidar com o trabalho, cuidar dos filhos, ela se isola completamente”.
Ela enfatiza que a morte, súbita ou anunciada, é igualmente devastadora e cada família tem a sua própria história. Por isso os rituais de despedida são tão importantes, como desfazer a mesa de trabalho do ente querido que partiu, ou guardar lembranças para os filhos. “Há duas palavras que não se aplicam ao luto: já e ainda. É comum ouvir julgamentos do tipo: ‘fulano já está indo a festas, se divertindo?’. Ou ‘ela ainda não consegue sair de casa?’. Cada trajetória é única e deve ser respeitada, não há uma narrativa ‘correta’. A expressão do luto fala da história do encontro, do vínculo, do amor. Para cada vínculo rompido, há uma dor que precisa ser elaborada. Isso leva tempo e é absolutamente individual”, conclui.