Duda Beat abre o leque rítmico no segundo álbum, ‘Te amo lá fora’, mas a evolução é da dupla de produtores musicais Lux & Tróia


Capa do álbum ‘Te amo lá fora’, de Duda Beat
Fernando Thomaz
Resenha de álbum
Título: Te amo lá fora
Artista: Duda Beat
Edição: Românticah Records / Altafonte
Cotação: * * * 1/2
♪ Quando um artista apresenta o segundo disco, após ter sido extremamente bem-sucedido no primeiro álbum, o discurso nas entrevistas promocionais costuma recorrer ao conceito-clichê da “maturidade” para vender evolução que, não raro, encobre inseguranças geradas pela pressão externa e interna de bisar o êxito do disco anterior.
Disponibilizado na noite de ontem, 27 de abril de 2021, exatos três anos após a edição do antecessor Sinto muito (2018), o segundo álbum de Duda Beat, Te amo lá fora, vem sendo divulgado com todos os clichês possíveis na abordagem de um esperado segundo disco.
Como sinalizou em 14 de março Meu pisêro, luminoso single que citou a pisadinha ao apresentar composição de Duda Beat em parceria com os produtores musicais Lux Ferreira e Tomás Tróia, se há a alardeada evolução em Te amo lá fora – e, sim, há – o progresso é da dupla Lux & Tróia.
Aos 33 anos, a pernambucana Eduarda Bittencourt Simões apresenta no álbum uma safra razoável de composições valorizadas pela produção musical e pelos arranjos dos multi-instrumentistas Lux Ferreira e Tomás Tróia.
Parece faltar em Te amo lá fora a espontaneidade de Sinto muito, mas é inegável que as 11 músicas do repertório inteiramente inédito e autoral são apresentadas com excelente acabamento instrumental que encobre, por vezes, as limitações da compositora.
Leia a entrevista de Duda Beat ao G1 sobre o álbum: ‘Sempre vou escrever sobre sofrência’
Duda Beat com Luz Ferreira e Tomás Tróia, produtores musicais do álbum ‘Te amo lá fora’
Reprodução / Instagram de Duda Beat
No álbum Te amo lá fora, Duda Beat burila a fusão de brega com o universo da música eletrônica, mas abre o leque rítmico para seguir tendências do mercado fonográfico.
Se Meu pisêro reprocessa a pisadinha, subgênero da nação forrozeira que conquistou a face mais popular do Brasil, Nem um pouquinho (Duda Beat, Lux Ferreira, Tomás Tróia e Trevo) mixa o pagodão baiano com a pegada do trap em gravação aditivada com o rap do cantor e compositor baiano Trevo.
Mistura por mistura, a fusão de coco de roda com maracatu – base de Tu e eu (Duda Beat, Lux Ferreira, Tomás Tróia, Gabriel Bittencourt e Cila do Coco) – se justifica pela origem da artista nascida no Recife (PE) em 8 de dezembro de 1987.
Tu e eu abre o álbum com a voz da octogenária Cecília Maria de Oliveira, a Cila do Coco, uma das matriarcas da música popular de Pernambuco pela habilidade com o samba de coco. Dona Cila participa da faixa em que Duda sampleia duas gravações da cantora, Coração de papel e Lá vem ela chorando.
Duda Beat reúne Cila do Coco e o rapper baiano Trevo no álbum ‘Te Amo Lá Fora’
Fernando Thomaz / Divulgação
Em muitos momentos, o álbum Te amo lá fora se descola da matriz do antecessor Sinto muito, mas evidentemente há interseções entre os discos, e não somente pelo fato de Duda Beat continuar apegada à sofrência, mote de músicas como Mais ninguém (Duda Beat, Lux Ferreira e Tomás Tróia) cuja letra ecoa chavões amorosos no refrão composto pelos versos “Eu só queria te ter / E se não for você / Não quero mais ninguém”.
Melô de ilusão (Duda Beat, Lux Ferreira e Tomás Tróia), por exemplo, reverbera a melancolia que dominava Sinto muito e que reaparece em Te amo lá fora dissipada pela marca mais proeminente dos produtores musicais neste segundo álbum.
Em Melô de ilusão, Lux & Tróia se juntaram com o baterista Patrick Laplan para dar forma à faixa. A colaboração se repete em Decisão de te amar (Duda Beat, Lux Ferreira e Tomás Tróia), instante de harmonia no enredo afetivo. A faixa transita com maciez entre as cadências do reggae e do xote.
Ritmo presente na levada de Bixinho (Duda Beat, 2018), um dos maiores hits do primeiro álbum da artista, o reggae também se insinua a partir da segunda estrofe da letra de 50 meninas (Duda Beat, Lux Ferreira e Tomás Tróia) em outra conexão entre os dois discos.
Já Meu coração (Duda Beat, Lux Ferreira e Tomás Tróia) – faixa alocada após ≈ (♡ω♡) (Duda Beat, Lux Ferreira e Tomás Tróia), vinheta de 49 segundos – se diferencia de tudo o que Duda Beat fez até o momento e, talvez por isso, sobressaia tanto no disco.
Com clima meio etéreo que roça a atmosfera da new age, Meu coração é balada adornada com cordas e efeitos e resulta na faixa mais orgânica do álbum. Um instante de beleza, potencializada pelo verso “Meu coração vive de imaginação”.
Na contramão, Game (Duda Beat e Tomás Tróia) tem arcabouço eletrônico – adornado por Lux & Tróia com a adesão de Pedro Sterling, que pilota programações e toca muitos instrumentos na faixa – que se afina com a arquitetura pop sintética de Tocar você (Duda Beat, Lux Ferreira e Tomás Tróia), a faixa final, cujo derradeiro verso “Meu amor ficou só comigo” sintetiza muito do que é cantado por Duda Beat neste álbum em que o luxo da produção musical por vezes abafa as emoções reais, principal matéria-prima do cancioneiro da artista.