Dora Morelenbaum encontra a própria turma no EP ‘Vento de beirada’


Cantora e compositora carioca começa a delinear uma assinatura artística pessoal entre ecos da obra de Milton Nascimento. Capa do EP ‘Vento de beirada’, de Dora Morelenbaum
Elisa Maciel com arte de Caio Paiva
Resenha de EP
Título: Vento de beirada
Artista: Dora Morelenbaum
Edição: Alá / Altafonte
Cotação: * * * *
♪ Em setembro, ao anunciar o lançamento do primeiro single, Dó a dó (2020), Dora Morelenbaum disse em entrevista que a música composta com Tom Veloso integraria o EP Vento de beirada, então previsto para janeiro.
Lançada em outubro, a gravação de Dó a dó expôs demasiadamente a marca sonora do pai de Dora, o violoncelista, arranjador e maestro Jaques Morelenbaum, ofuscando a identidade da cantora e compositora debutante.
Talvez por isso, Dó a dó tem ficado fora do repertório do disco – efetivamente editado na quinta-feira, 15 de outubro, com três músicas e capa criada por Caio Paiva – em decisão acertada, já que o EP Vento de beirada é o real cartão de visitas da artista.
Gravadas com produção musical orquestrada pela própria Dora com Ana Frango Elétrico, Guilherme Lírio e Lucas Nunes, as três músicas do EP Vento de beirada são suficientes para vislumbrar futuro para a ex-futura arquiteta no campus da música brasileira.
Elencada no texto de apresentação do disco como uma das principais referências da música de Dora, a obra de Milton Nascimento de fato ecoa na audição do disco, sobretudo nas cores vivas de Avermelhar, composição da artista, sem anular a assinatura que Dora começa a delinear com o EP Vento de beirada.
Previamente apresentada em single editado em 25 de março, a música Japão – também de autoria solitária de Dora, assim como Avermelhar – já tinha sinalizado o nascimento de compositora promissora, hábil na construção das “paisagens sonoras improváveis” alardeadas pelo texto.
Como cantora, filha de outra cantora (Paula Morelenbaum), a afinada Dora percorre agudas regiões emocionais dessas paisagens, com segurança, mostrando inclusive talento como intérprete de canção alheia. Terceira faixa do EP, a música-título Vento de beirada é composição de Zé Ibarra, Lucas Nunes e Victor Vasconcellos que se ambienta em clima de bela estranheza.
Enfim, sem renegar a bagagem geracional, nem que seja pela sutil arregimentação do ritmista Marcelo Costa (colega do pai, Jaques, n’A Barca do Sol que ancorou no Brasil dos anos 1970) para tocar no disco, Dora Morelenbaum já parece encontrar a própria turma neste coeso EP Vento de beirada.
E essa busca da própria turma – e da própria identidade artística, descolada dos pais – é sempre um ótimo começo para quem ostenta sobrenome famoso e tem talento.