Discos para descobrir em casa – ‘Um som’, Arnaldo Antunes, 1998


Capa do álbum ‘Um som’, de Arnaldo Antunes
Bob Wolfenson com arte de Barrão e Fernanda Villa-Lobos
♪ DISCOS PARA DESCOBRIR EM CASA – Um som, Arnaldo Antunes, 1998
♪ Primeiro integrante da formação clássica do grupo Titãs a deixar a banda, em saída negociada de forma amistosa em 1992, Arnaldo Antunes assinou contrato com a gravadora BMG na sequência e iniciou carreira solo com álbum, Nome (1993), lançado no ano seguinte com alta dose de experimentação com a poesia concreta.
Dono de obra que sempre conectou a música com outras formas de expressão artística, sobretudo a poesia e as artes plásticas, o cantor, compositor e músico Arnaldo Augusto Nora Antunes Filho – paulistano nascido em 2 de setembro de 1960 – foi depurando o som e burilando a palavra a partir dos dois álbuns seguintes, Ninguém (1995) e O silêncio (1996).
Contudo, foi somente a partir do quarto álbum solo do cantor, Um som, produzido por Chico Neves e lançado em 1998, que a discografia individual do artista começou a atingir ponto de equilíbrio, sem abrir mão da inventividade no manuseio da palavra – e, nessa seara poética, a obra dos Titãs perdeu muito com a saída do compositor poeta em 1992 – mas tampouco sem menosprezar o fato de que uma música, por mais inovadora que seja, precisa fluir bem (mesmo fora do padronizado molde pop do mercado) para que a experiência sonora seja minimamente agradável aos ouvidos.
“Eu te dou / O que você quer de mim / … / Eu descomplico / Eu correspondo às expectativas”, situou o artista na letra do rock Na ativa, uma das três músicas do álbum Um som assinadas somente por Arnaldo Antunes.
Composição de vibe roqueira que abriu o álbum Um som, Música para ouvir – parceria de Arnaldo com Edgard Scandurra, companheiro de geração pop – pareceu sintetizar o conceito mais digerível (mas nunca banal) deste disco gravado pelo artista com banda-base formada por Edgard Scandurra (guitarra), Paulo Tatit (baixo), Pedro Tito (bateria e percussão) e Zaba Moreau (teclados), além do produtor musical Chico Neves nas programações.
Músicos então emergentes da cena musical carioca, mas ainda pouco badalados, também foram arregimentados por Arnaldo Antunes e Chico Neves. Foi o caso de Moreno Veloso, que percutiu prato e faca com discrição no baioque Quase tudo, arretada parceria de Arnaldo com Péricles Cavalcanti que deslocou o álbum Um som para o universo musical nordestino, com direito ao toque do acordeom de Toninho Ferragutti.
Foi também o caso de Pedro Sá, que tocou guitarra e violão em As árvores e Dinheiro, duas composições do ex-titã com Jorge Ben Jor que ampliaram parceria apresentada nove anos antes com a gravação do funk Cabelo (1989).
E por falar em funk, Arnaldo Antunes nunca se mostrou óbvio nas incursões por repertório alheios. Basta lembrar a releitura heavy de Judiaria (Lupicínio Rodrigues, 1971) do álbum Ninguém (1995). Em Um som, o cantor deu voz a uma música do lendário soulman Cassiano, Cinzas (1973), com um toque de samba e outro de rock, sem reeditar o brilho da abordagem feita por Sandra de Sá há então oito anos no álbum Sandra! (1990).
Entre tantos sentimentos, o vazio existencial de Socorro – parceria de Arnaldo com Alice Ruiz lançada em 1994 na voz de Cássia Eller (1962 – 2001) – serviu bem ao repertório do álbum Um som.
“Pra que é que quero quem chora / Se estou tão bem assim / E o vazio que cai lá fora / Cai macio dentro de mim?”, (se) questionou Arnaldo em versos de Além alma, música feita a partir de poema de Paulo Leminski (1944 – 1989) e gravada com o toque árido da viola de Fábio Tagliaferri.
A viola de Tagliaferri também se revelou importante para evidenciar o brilho de O sol, poética canção da parceria de Arnaldo Antunes com Scandurra.
Composição assinada somente por Arnaldo, Engrenagem mostrou que a poesia salta aos ouvidos na construção da música desse artista multimídia, mesmo quando essa poesia vem envolvida em aura roqueira, como na gravação de Se no meio do que você tá fazendo você para.
Essa parceria de Arnaldo com o então titã Nando Reis – que sairia da banda em 2002, sem o tom conciliador que amenizara há dez anos a debandada de Arnaldo – foi entrecortada na gravação do álbum Um som com o toque incisivo da guitarra de Edgard Scandurra, sobressalente no arranjo.
Com Scandurra, o artista assinou Decida, rock de aura punk que evocou os primórdios dos parceiros nas respectivas bandas paulistanas que integraram nos anos 1980, ainda que Titãs e Ira! sejam grupos formados fora do universo punk da cidade. Da parceria com o amigo Paulo Miklos, então na banda Titãs (da qual sairia somente em 2016), Arnaldo gravou Fim do dia em Um som.
Doce do mar, parceria com Carlinhos Brown, mostrou o cantor e compositor imerso em onda mais cool, íntima, levantando maré que subiria ainda mais nos álbuns lançados por Arnaldo Antunes a partir dos anos 2000, década de discos como Saiba (2004) e Qualquer (2006).
Álbum longo, de 17 faixas formatadas entre abril e junho de 1998 em estúdios do Rio de Janeiro e São Paulo, Um som revelou a visão do autor de Volte para o seu lar (2001), música de Arnaldo que Marisa Monte apresentara dez anos antes no álbum Mais (1991) com pegada similar à da regravação funkeada de Arnaldo, mas em tom mais radiante.
Em outra amostra do faro para garimpar repertório alheio, o artista verteu para o português do reggae Stop the crime (1984), sucesso autoral do cantor e compositor jamaicano Junior Murvin (1946 – 2013). Versão reverente, Pare o crime foi apresentada no disco com a marcação da bateria de João Barone, entusiasta do reggae.
Com a voz da cantora turca Saadet Türköz (também ouvida na já mencionada faixa Além alma) e o toque do berimbau de Marcos Suzano, a música-título Um som (de Arnaldo com Paulo Tatit) reverberou a poesia do artista multimídia no arremate de álbum que preparou o clima para voos mais altos como o do álbum seguinte Paradeiro (2001).
Ao formar o trio Tribalistas com os parceiros amigos Carlinhos Brown e Marisa Monte, em 2002, Arnaldo Antunes ganharia mais público e visibilidade. Curiosamente, essa amplitude jamais se refletiu na carreira solo.
Alternando álbuns vigorosos como Iê iê iê (2009) e eventuais discos anêmicos como Já é (2015), o poeta do rock – já a caminho dos 60 anos – se manteve na ativa, fiel a si próprio e com um público também fiel, como provaram os recentes álbuns RSTUVXZ (2018) e O real resiste (2020).
E, nessa trajetória coerente, o álbum Um som teve atuação decisiva por apontar caminho calcado no ponto de equilíbrio entre a experimentação e a expectativa.
Como traduziu a imagem da capa do disco, criada por Barrão e Fernanda Villa-Lobos a partir de foto de Bob Wolfenson, Arnaldo Antunes queria ouvir e ser ouvido com Um som. Queria, em síntese, fazer música para ouvir.