Discos para descobrir em casa – ‘Tubarões voadores’, Arrigo Barnabé, 1984


Capa do álbum ‘Tubarões voadores’, de Arrigo Barnabé
Ilustração de Luiz Gê
♪ DISCOS PARA DESCOBRIR EM CASA – Tubarões voadores, Arrigo Barnabé, 1984
♪ Embora nascido em Londrina (PR) em 14 de setembro de 1951, o paranaense Arrigo Barnabé é nome primordialmente associado à música de São Paulo (SP), cidade para onde migrou em 1970 para estudar arquitetura e urbanismo.
Ao lado de Itamar Assumpção (1949 – 2003), artista de trajetória tão distinta quanto paralela, Arrigo encabeçou em 1980 o movimento musical conhecido como Vanguarda Paulista.
Pedra fundamental desse movimento, o primeiro álbum do artista, Clara Crocodilo, causou impacto na cena nacional ao ser apresentado em 1980 com som pautado pelo atonalismo e pelo serialismo dodecafônico em narrativa que incorporava elementos do rock, do canto falado e da estética dos quadrinhos.
Clara Crocodilo foi o resultado de cinco anos de estudo na Escola de Comunicações e Artes (ECA), frequentada por Arrigo de 1974 a 1979, na Universidade de São Paulo (USP). Já o segundo álbum de Arrigo Barnabé, Tubarões voadores, foi lançado em 1984 como desdobramento do disco vanguardista de 1980.
Embora com narrativa própria, criada a partir da música criada por Arrigo com inspiração em história em quadrinhos escrita pelo ilustrador paulistano Luiz Gê, o álbum Tubarões voadores se nutriu dos mesmos elementos de Clara Crocodilo, mas com estética ligeiramente mais pop. Só que, no caso de Arrigo, o termo pop jamais deve ser entendido como popular.
Espécie de trilha sonora da HQ criada por Luiz Gê, o álbum Tubarões voadores soou tão hermético e experimental quanto o disco antecessor. A diferença é que, se Clara Crocodilo veio ao mundo por heroicas vias independentes, o LP Tubarões voadores foi içado ao mercado fonográfico pelo selo Barclay, da Ariola, gravadora que contratara Arrigo Barnabé com sinal verde para a produção de disco que resultou dispendioso por ter sido orquestrado pelo produtor musical Robinson Borba com cordas, coros e metais.
Inicialmente o álbum se chamaria Crotalus terrificus, nome da improvável parceria de Arrigo com Paulinho da Viola – autor da letra, na primeira incursão do artista carioca pelo universo da vanguarda após a ousada canção Sinal fechado, de 1969 – gravada com a voz aguda de Vânia Bastos, uma das vocalistas da banda de Arrigo.
Só que Arrigo sugeriu a Luiz Gê a criação de narrativa inspirada pelos Tigres Voadores, nome dado aos pilotos da força aérea e da marinha norte-americanas. Como os esquadrões aéreos desses pilotos tinham a forma de tubarão, Gê criou os Tubarões Voadores e centrou a ação na cidade de São Paulo (SP) com mix de terror e humor.
Parceria de Arrigo com Luiz Gê, a música-título Tubarões voadores abriu o álbum em tom teatral, narrativo, sinalizando a estética desse disco gravado com músicos como o tecladista Bozzo Barretti, o baterista Duda Neves, o baixista Otávio Fialho (1993 – 1960), o percussionista Paulo Barnabé e o guitarrista Tonho Penhasco na banda-base, complementada com Arrigo ao piano.
O canto falado de músicas como Kid supérfluo, o consumidor implacável (Arrigo Barnabé e Ricardo Porto) – faixa gravada com a participação de Rita Lee, ilustre habitante de Sampa – expôs a sintonia entre o som de Arrigo e os trabalhos de Itamar Assumpção e do grupo Rumo, ainda que as linguagens dos três fossem distintas.
Essa conexão foi reforçada em Neide manicure pedicure (Arrigo Barnabé e Paulo Barnabé), faixa que sintonizou fictício programa de rádio em que o locutor contava história melodramática ao som do prefixo instrumental de Moonlight serenade (Glenn Miller, 1939).
Solista de Mística (Arrigo Barnabé e Roberto Riberti) e de Mirante (Arrigo Barnabé e Carlos Rennó), música que fechou o disco em viajante clima espacial, Vânia Bastos teve os vocais destacados em todo o álbum, também sustentando a narrativa da Canção do astronauta perdido, única música assinada somente por Arrigo Barnabé.
Vânia Bastos conseguiu sobressair até mesmo no samba A Europa curvou-se ante o Brasil (Arrigo Barnabé, Bozzo Barretti e Carlos Rennó), gravado com a nobreza do canto de Paulinho da Viola, artista que reforçou o esquadrão de Arrigo Barnabé para ajudar o artista a contar a história do pioneiro aviador Santos Dumont (1873 – 1972) no samba deste álbum experimental.
Então futuro tecladista da banda Capital Inicial, na qual permaneceria de 1987 a 1992, Bozzo Barretti foi parceiro de Arrigo em Papai não gostou. Lenda (Arrigo Barnabé, Eduardo Gudin, Hermelino Neder e Roberto Riberti) completou o repertório de Tubarões voadores, disco em que Arrigo Barnabé fez crítica aos medos urbanos enfrentados pelos moradores das selvas das grandes cidades.
Para reforçar a origem visual do repertório, o encarte da edição original do LP Tubarões voadores trouxe a história em quadrinhos de Luiz Gê que inspirou a criação das dez músicas inéditas desse álbum que, ao lado de Clara Crocodilo, permaneceu como simbolo do auge criativo da carreira fonográfica de Arrigo Barnabé.
Sempre trabalhando a partir de imagens e de narrativas, o artista faria a trilha sonora do filme Cidade oculta (1986), gravaria outros álbuns – Suspeito (1987) e Façanhas (1992), entre eles – e faria shows com os repertórios de Lupicínio Rodrigues (1914 – 1974) e Roberto Carlos sem jamais se dissociar dos dois voos iniciais feitos na primeira metade dos anos 1980 com o esquadrão vanguardista da cidade de São Paulo (SP).