Discos para descobrir em casa – ‘Só nós’, Paula Toller, 2007


Capa do álbum ‘Só nós’, de Paula Toller
Christian Gaul
♪ DISCOS PARA DESCOBRIR EM CASA – Só nós, Paula Toller, 2007
♪ No alvorecer de 2007, a banda Kid Abelha anunciou recesso e Paula Toller – a bela loura platinada que ganhara respeito como vocalista e compositora do grupo carioca revelado em 1983 – começou a trabalhar no segundo álbum de carreira solo iniciada em 1998.
Elegantemente produzido por Paul Ralphes e lançado em junho daquele ano de 2007, o álbum Só nós – de título estilizado como SóNós na grafia da capa classuda – se revelou mais coeso e ambicioso do que o antecessor Paula Toller, fluente disco dominado por regravações de sambas e canções norte-americanas.
Só nós foi disco pautado por baladas refinadas, algumas imersas em ambiência pop folk. Foi álbum que esboçou densidade bissexta na discografia da abelha rainha e a flagrou às voltas com outras colmeias, com direito a conexões internacionais da artista carioca com o cantor-surfista californiano Donavon Frankenreiter, o compositor norte-americano Jesse Harris e Kevin Johansen, então desconhecido cantor e compositor nascido no Alaska e residente na Argentina.
O álbum Só nós atingiu a perfeição pop na melodiosa canção À noite sonhei contigo – versão em português (escrita por Paula) de Anoche soñe contigo (2007), música na época recente de Kevin Johansen – e roçou tal perfeição em Meu amor se mudou para a lua, composição então inédita de Nenung (mentor do grupo gaúcho Os The Darma Lóvers) que a gravadora Warner Music estrategicamente escolheu para promover o disco nas rádios.
Pela fluência pop, essas duas faixas poderiam figurar em qualquer álbum do Kid Abelha. Contudo, Paula Toller foi muito além das questões juvenis do Kid nas letras do cancioneiro do álbum Só nós. Então com 44 anos, a cantora e compositora pôs em pauta questões existenciais adultas em repertório que abriu com as reflexões de ? (O Q é Q eu sou), música inédita composta por Erasmo Carlos para Paula.
“Eu nublo, abafo, enlouqueço / … / Descarnavalesço total”, admitiu a artista nos versos confessionais de Pane de maravilha, parceria de Paula com Dado Villa-Lobos e Fausto Fawcett. “Vê se se toca que amanhã é 23 / Meu Deus, olha o que você me fez / E olha o que me aconteceu / Tudo se perdeu / Tudo desandou”, inventariou a cantora, pesando ainda mais o clima na espessa Tudo se perdeu, versão em português – assinada por Paula Toller – de Vicious world (2003), música do cantor e compositor canadense Rufus Wainwright.
Sim, Paula Toller cresceu e mostrou a amplitude no álbum Só nós. Tanto que citou em verso de Tudo se perdeu a canção Amanhã é 23 (George Israel e Paula Toller, 1987), primeiro sucesso do Kid Abelha após a saída ruidosa de Leoni, então parceiro de Paula na vida e na feitura de canções de ótimo acabamento pop. Essa canção aludiu no título ao fato de a artista fazer aniversário em um dia 23 – no caso, de agosto.
Em 2007, Paula já era mãe de filho adolescente, Gabriel, nascido em dezembro de 1989. Na letra de Barcelona 16, escrita por Paula para música assinada com o pianista Caio Fonseca e com o produtor Paul Ralphes (também parceiros da artista na canção Um primeiro beijo), a compositora expôs as dores de um segundo parto ao ver o filho de 16 anos partir para viagem (tão existencial quanto geográfica) com mochila e sem o cordão umbilical. Gabriel já não era o menino de oito anos que fazia perguntas tipicamente infantis, relacionadas na letra de Oito anos (Paula Toller e Dunga, 1998), sucesso do primeiro álbum solo da mãe popstar.
Em Só nós, havia melancolia cool entranhada nas gravações de baladas como Vc me ganhou de presente – parceria de Paula com Coringa e com Paul Ralphes – e a suave canção Rústica, composição da artista com Dado Villa-Lobos. A delicada moldura de Rústica evidenciou a afinação e a elegância do canto de Paula Toller, exemplo de intérprete que soube burilar a voz, nitidamente imatura no primeiro álbum do Kid Abelha.
Esse progresso vocal resistiu inclusive à proeza de cantar em inglês quatro das 14 músicas do álbum Só nós. Duas – If I won’t e Long way from home – eram da lavra do cantor e compositor norte-americano Jesse Harris e ambas foram lançadas pelo autor no álbum The secret sun (2003). All over, faixa mais trivial do disco, foi gravada por Paula com o autor, o já mencionado Donavon Frankenreiter.
Em contrapartida, no fecho do álbum, havia a triste e bela canção Glass (I’m so brazilian), gravada por Paula com o compositor Kevin Johansen em arranjo de vozes e piano, o de Caio Fonseca. Glass pôs em foco a maturidade de Paula Toller, infelizmente diluída pela artista no terceiro álbum solo, Transbordada (2014), de repertório mais banal.
Ponto culminante da discografia solo de Paula Toller, o álbum Só nós merece ser descoberto, até para lembrar que a cantora e compositora deve outro disco solo à altura da importância que, ao vencer os preconceitos machistas do rock, adquiriu no universo pop brasileiro por méritos próprios.