Discos para descobrir em casa – ‘Ronda noturna’, Guilherme Arantes, 1977


Capa do álbum ‘Ronda noturna’, de Guilherme Arantes
Lula Lindenberg
♪ DISCOS PARA DESCOBRIR EM CASA – Ronda noturna, Guilherme Arantes, 1977
♪ Guilherme Arantes tinha imaturos 24 anos quando, no inverno de 1977, entrou nos estúdios da gravadora Som Livre, na cidade do Rio de Janeiro (RJ), para gravar o segundo álbum solo, Ronda noturna.
Embora tenha apresentado uma das mais emblemáticas canções de Arantes, Amanhã, o álbum Ronda noturna se tornaria disco maldito na luminosa trajetória do artista paulistano, a ponto de ter virado “tabu”, como admitiu o artista em texto escrito para a monumental caixa Guilherme Arantes 1976 – 2016, lançada há quatro anos com caprichadas edições em CD de 21 dos 26 álbuns da obra fonográfica solo desse cantor, compositor e pianista que se tornaria a partir dos anos 1980 um dos maiores arquitetos do pop do Brasil. Tanto que, dos 26 discos da caixa de 2016, Ronda noturna era até então o único álbum do artista nunca lançado no formato de CD.
Produzido por Márcio Antonucci (1945 – 2014), Ronda noturna foi álbum de gestação tumultuada, inclusive pela expectativa de o disco originar sucesso massivo como a balada Meu mundo e nada mais, faixa que, propagada na trilha sonora da novela Anjo mau (TV Globo, 1976), impulsionara no ano anterior o primeiro álbum do artista, Guilherme Arantes (1976), sete anos após a canção ter sido composta em 1969.
Com este primeiro disco solo, Arantes se tornou promessa de popstar nacional, um Elton John brasileiro, como a gravadora sonhou sem entender que, mesmo sendo pianista e vocacionado para compor baladas como o astro inglês, o então jovem paulistano – nascido em 28 de julho de 1953 – tinha acabado de desembarcar da viagem progressiva feita a reboque do grupo Moto Perpétuo, do qual saíra em 1975 com a ideia de se tornar cantor popular, mas deixando no currículo um álbum com a banda, Moto Perpétuo, lançado em 1974.
Nessa fase inicial da carreira, Arantes era adulto que levava a música a sério como atividade profissional, já distante da aventura adolescente de bandas efêmeras que integrara no fim dos anos 1960, como a Polissonante.
Contudo, a inabilidade de Arantes para lidar com os egos e as leis da indústria do disco trouxeram problemas durante a gravação e edição do álbum Ronda noturna. Para gravar o álbum, Arantes arregimentou os três músicos – José Carlos Prandini (guitarra, viola e flauta), Luiz Guido Carli (bateria e percussão) e Paulo Rosas Soveral (baixo) – que convidara para acompanhá-lo nos primeiros shows da carreira solo.
No texto manuscrito feito por Arantes para o libreto da caixa retrospectiva de 2016, Arantes relatou desajustes com a banda no estúdio – problemas que, na visão do artista, colaboraram para tornar Ronda noturna um disco “confuso” que refletiu a angústia do cantor, naquele momento às voltas com questões que já imaginara superadas.
Analisado em perspectiva em 2020, 43 anos após a edição original em LP, Ronda noturna pode não se impor como um dos melhores álbuns de Arantes, mas tem bons momentos e jamais depõe contra a obra do artista.
Dentre as 10 músicas que formaram a safra inteiramente autoral (composta por Arantes sem parceiros) e então inédita do álbum Ronda noturna, há baladas como Oh, meu amor, Feliz aniversário e Cinza industrial que merecem ser (re)descobertas.
Amanhã – a obra-prima do repertório do disco, popularizada na trilha sonora da novela Dancin’ days (TV Globo, 1978) – ecoou o gosto do artista pelo rock progressivo, em especial pelo som de bandas britânicas como Genesis e Emerson, Lake & Palmer, mas também pela música progressiva do artista grego Vangelis. Faixa com mais de sete minutos de duração, Amanhã ganhou tratamento de peça progressiva, de estrutura dramática, realçada inclusive pelo toques dos violoncelos de Jaques Morelenbaum e Marcio Mallard.
Outra balada, Baile de máscaras, também reverberou em tom épico a influência do som progressivo na arquitetura da obra pop de Arantes, mas teve menos sorte do que Amanhã. Embora tenha entrado na trilha sonora da novela Espelho mágico (TV Globo, 1977), Baile de máscaras jamais caiu no gosto popular como Amanhã, balada desde então cantada por Arantes em shows, para embevecimento do público do artista.
Com faixa datada, caso do roquinho em clima de disco music Fuzarca na discoteca, escrito com crítica ácida à face down do high society, o álbum Ronda noturna enfrentou problemas extra-musicais. É que, seduzido por proposta do executivo André Midani (1932 – 2019), Arantes optou por integrar o elenco da WEA, gravadora então recém-instalada no Brasil, em vez de renovar com a Som Livre, para explicitada irritação do diretor dessa companhia, João Araújo (1935 – 2013), com quem o cantor trocou ofensas.
O x da questão é que Arantes assinou com a WEA antes de concluir o lançamento do álbum Ronda noturna na Som Livre. No texto da caixa de 2016, Arantes relatou atraso na efetiva distribuição do disco nas lojas, consequência dessa briga, o que fez com que Ronda noturna disputasse mercado com o primeiro álbum feito por Arantes na WEA, A cara e a coragem (1978).
Questões industriais à parte, Ronda noturna merece reavaliação. Nem que seja para constatar a influência de Elton John no pop rock Made in U.S.A. e a atmosfera clássica da balada Vento da manhã. Ou mesmo a curiosa pisada do baião detectada em algumas viradas rítmicas do pop A cor da aflição, música que encerrou disco em que, sim, Guilherme Arantes expôs angústias, evidenciadas sobretudo nos versos da música-título Ronda noturna.
Mal sabia o compositor que o melhor ainda ia começar quando, a partir de 1981, Arantes criou radiante cancioneiro pop que ombreou a luminosidade da obra do amigo contemporâneo Lulu Santos ao longo da década de 1980.
Incensado no altar efêmero do sucesso por conta de álbuns como Despertar (1985) e Calor (1986), destaques da discografia construída pelo cantor na gravadora CBS nesses áureos anos 1980, o artista driblaria os preconceitos do mercado a partir da década de 1990 com álbuns nem sempre reconhecidos como deveriam ter sido.
Por vezes carimbado injustamente com o rótulo de “cafona”, por dominar a fórmula da perfeita canção pop romântica, Guilherme Arantes teve direito a um “amanhã”. Já com “ódios aplacados” na indústria do disco e no tribunal por vezes implacável dos críticos musicais, o artista passou a ser reavaliado e eventualmente até (com razão) glorificado a partir do álbum Condição humana (2013).
A caminho dos 45 anos de carreira solo, a serem festejados em 2021, o artista permanece entronizado como um dos reis vitalícios do pop do Brasil, tendo tido coroada a trajetória pavimentada com discos cintilantes e também com álbuns mais sombrios como Ronda noturna.