Discos para descobrir em casa – ‘Piano e viola’, Taiguara, 1972


Capa do álbum ‘Piano e viola’, de Taiguara
Reprodução
♪ DISCOS PARA DESCOBRIR EM CASA – Piano e viola, Taiguara, 1972
♪ Guerrilheiro da canção, o uruguaio Taiguara Chalar da Silva (9 de outubro de 1945 – 14 de fevereiro de 1996) foi um dos cantores e compositores militantes que se alistaram no exército musical brasileiro dos anos 1960 e 1970 para combater com acordes e versos a repressão do regime ditatorial instaurado no Brasil em 1964.
Alvo da fúria insana dos censores, Taiguara teve a obra mutilada, mas, pelas frestas do sistema e dos festivais, deu o recado em álbuns politizados como Hoje (1969) e Viagem (1970), títulos da fase áurea da carreira do artista.
Sexto álbum solo do cantor, cuja obra fonográfica inclui disco editado em 1966 com Claudette Soares e o Jongo Trio, Piano e viola flagrou Taiguara já melancólico, ciente de que o sonho acabara, como sentenciara John Lennon (1940 – 1980), mas com esperança de dias mais ensolarados.
Essa esperança consciente foi explicitada já no título e na letra de Teu sonho não acabou, canção que abriu com ornamento orquestral o disco editado pela gravadora Odeon em 1972 com arranjos divididos pelo próprio Taiguara com os maestros Eduardo Souto Neto e Lindolpho Gaya (1921 – 1987). Pela beleza melódica, Teu sonho não acabou sobressaiu entre as 12 músicas do então inédito repertório autoral, inteiramente composto por Taiguara sem parceiros para o disco.
Outras composições menos ouvidas confirmaram a inspiração de Taiguara, sobretudo a melancólica Manhã de Londres, bela canção que ficaria esquecida até ser maravilhosamente interpretada por Verônica Ferriani no tributo feminino ao compositor, A voz da mulher na obra de Taiguara, idealizado e produzido por Thiago Marques Luiz para a gravadora Joia Moderna, do DJ Zé Pedro, e editado em 2011 quando o universo pop parecia já ter esquecido o cancioneiro ardoroso de Taiguara.
Nascido em Montevidéu, capital do Uruguai, Taiguara se exilou em Londres em 1973 após ter vivido no Brasil entre as cidades de Rio de Janeiro (RJ) e São Paulo (SP), período em que militou nos festivais das canção entre 1966 e 1970.
O álbum Piano e viola reverberou em 12 canções a paixão e a ideologia que moveram o artista na construção de obra resistente que, nesse disco de 1972, legou para a posteridade a grande composição Mudou, canção sobre a eterna transitoriedade das emoções, magistralmente revivida pela cantora Célia (1947 – 2017) em gravação feita para o já mencionado tributo feminino de 2011.
Batizado com o nome da canção Piano e viola, alocada na abertura do lado B do LP, o álbum se situou no terreno urbano em que Taiguara assentou grande parte do cancioneiro engajado do artista, ao contrário do que fizeram supor a foto da capa e o próprio título Piano e viola.
O piano, a propósito, foi tocado pelo próprio Taiguara, instrumentista polivalente. Já a viola (assim como o violão) era a do músico Zé Menezes, integrante da banda arregimentada para o disco e também integrada por Chiquito Braga (guitarra) Lula Nascimento (bateria) e Oswaldo Damião (baixo).
A viola deu o tom regionalista de O troco sem diluir a urbanidade de álbum em que Taiguara, como de hábito, deu voz a um humanismo que escasseava na selva das cidades em que animais racionais se aniquilam, como o cantor poetizou nos versos crus da balada Luzes, gravada por Angela Maria (1929 – 2018) naquele mesmo ano de 1972.
O álbum Piano e viola reverberou essa posição humanista de um artista que usava a canção para defender ideais de um mundo melhor. Na canção Pro filhos do Zé, o guerrilheiro partiu em defesa das crianças, mostrando que elas deveriam ser vistas fora da ótica racional dos adultos da selva urbana.
Em Rua dos ingleses, faixa que exemplificou a opulência dos arranjos orquestrais do disco, o cantor discutiu o conceito de Deus, livre de dogmas religiosos e de qualquer traço de ódio.
“Quem não fere vive tranquilo”, sentenciou e sintetizou o cantor em verso da canção-título Piano e viola, orquestrada com a harmonização dos instrumentos que lhe deram o nome.
A esperança foi o mote de canções como Pra Laetitia, música esquecida neste álbum cuja espessa moldura orquestral nem sempre evidenciou a força da voz de Taiguara.
Essa voz tinha alcance e alma para credenciar o cantor a seguir carreira somente de intérprete, como já mostrara o álbum Taiguara (1968), lançado antes da explosão de canções autorais como Universo no teu corpo (1970) na plataforma dos festivais, com abordagens de músicas de compositores como Antonio Adolfo e Chico Buarque.
Com o tema instrumental A flor na areia no repertório, o álbum Piano e viola apresentou músicas que ficariam obscuras com o decorrer do tempo, caso do samba Eronita e eu.
Encerrado com O homem, canção endereçada de forma cifrada ao apresentador de TV Silvio Santos e a rigor um título de menor estatura dentro da obra do artista, o disco de 1972 mostrou Taiguara fiel à ideologia que vinha propagando com coerência e inflexibilidade.
Exilado na Inglaterra a partir de 1973, ano que lançou o álbum Fotografias, Taiguara voltou ao Brasil três anos depois para lançar o álbum Imyra, Tayra, Ipi, Taiguara (1976), disco censurado que acabou contribuindo para que o cantor fosse expelido para a margem independente do mercado fonográfico.
Desde então, o cantor lançou somente dois álbuns, Canções de amor e liberdade (1984) e Brasil afri (1994), sem repercussão.
Falecido em 1996 na cidade de São Paulo (SP), o resistente Taiguara ficou imortalizado como uma das mais perfeitas traduções da militância musical brasileira pelo engajamento reavivado quando a canção Hoje (1969) reverberou no filme nacional Aquarius (2016), prova de que, como o guerrilheiro já sentenciara na canção que abriu este consistente álbum de 1972, o sonho não acabou.