Discos para descobrir em casa – ‘Piaf’, Bibi Ferreira, 1983


Capa do álbum ‘Piaf’, de Bibi Ferreira
Josemar Ferrari
♪ DISCOS PARA DESCOBRIR EM CASA – Piaf, Bibi Ferreira, 1983
♪ Uma das maiores intérpretes do mundo, Bibi Ferreira muitas vezes se agigantou em cena ao unir o poder do teatro à força da música. Duas formas de arte que Bibi amalgamou com dramaticidade inebriante. Tanto que chegava a ser redutor caracterizar a luminosa artista carioca Abigail Izquierdo Ferreira (1º de junho de 1922 – 13 de fevereiro de 2019) somente como atriz.
Em gloriosa trajetória vivida nos palcos ao longo de 76 anos, precisamente de 1941 a 2017, ano do último e retrospectivo show Por toda a minha vida – La dernière tournée, Bibi Ferreira contribuiu decisivamente para implantar na cena brasileira o modelo norte-americano de musical de teatro, com toque brasileiro e com sagaz senso rítmico da artista na interpretação de músicas de cancioneiros estrangeiros.
Sim, além de monumental atriz, Bibi foi grande cantora, dona do dom e de voz afinada, perpetuada em discografia poliglota que totalizou 18 títulos, entre singles e álbuns, a maioria com registros de espetáculos encenados pela artista.
Dessa discografia iniciada em 1941, à qual ainda será acrescentado título póstumo com a edição da gravação do show Por toda a minha vida (2017), vale mencionar o pioneirismo dos álbuns Minha querida lady (1964) – LP editado pela gravadora CBS com a trilha sonora da primeira montagem brasileira do musical My fair lady, estrelada em 1962 por Bibi com o ator Paulo Autran (1922 – 2007) – e Alô, Dolly (1966), LP que trouxe a trilha sonora do musical Hello, Dolly, também protagonizado no Brasil por Bibi em encenação que estreou em 1965.
Nunca editados em CD, esses dois álbuns são desconhecidos por muitos seguidores de Bibi. Dentro da obra fonográfica da artista, outros dois álbuns sobressaíram mais ao longo dos anos por perpetuarem números musicais e breves textos de dois marcantes (e mais recentes) espetáculos da carreira de Bibi.
Um foi o álbum Gota d’água, editado em LP em 1977 pela gravadora RCA com registros do antológico musical Gota d’água, estreado em 1975 com a união da dramaturgia de Paulo Pontes (1940 – 1976) com o cancioneiro teatral de Chico Buarque.
O outro foi o álbum ao vivo Piaf, lançado em 1983 pela gravadora Som Livre com 10 números musicais extraídos da gravação do espetáculo Piaf – A vida de uma estrela da canção (1983), encenação do texto da dramaturga inglesa Pam Gems (1925 – 2011) – traduzido para o português por Millôr Fernandes (1923 – 2012) – sob a direção de Flávio Rangel (1934 – 1988).
Na foto da capa do álbum Piaf, tirada por Josemar Ferrari e reproduzida na capa da edição em CD lançada em 1994 pela gravadora Som Livre dentro da série Cast, Bibi apareceu em cena no espetáculo que arrastou multidões para o teatro.
Oito anos após impactar o Brasil como Joana, a Medeia da favela carioca erguida no texto de Paulo Pontes e Chico Buarque, Bibi tornou a fazer história na cena nacional ao dar voz e vida à cantora francesa Edith Piaf (19 de dezembro de 1915 – 13 de outubro de 1963).
Além de ter dirigido cantoras como Clara Nunes (1942 – 1983) e Maria Bethânia em shows antológicos como Clara mestiça (1981) e Nossos momentos (1982), respectivamente, Bibi encarnou em cena cantoras da dimensão de Piaf e da portuguesa Amália Rodrigues (1920 – 1999), estrela máxima do fado revivida pela artista carioca em show de 2001 com perfeito sotaque português.
O repertório de Piaf jamais saiu da discografia de Bibi a partir de 1983 – ano em que a morte da diva francesa completou 20 anos – e rendeu dois discos. Além do álbum Piaf, a artista lançou em 2004, em edição da gravadora Biscoito Fino, o CD e DVD Bibi canta Piaf com o registro do show estreado pela cantora em 1992 com base no espetáculo original de 1983.
Nesse desdobramento do musical de 1983, Bibi eliminou a dramaturgia do texto e centrou o roteiro nas canções de Piaf. O espetáculo de 1992 fez sucesso e correu o Brasil até 2014 sem jamais repetir o fenômeno artístico eternizado no álbum resultante do espetáculo original de 1983.
Com versões para o português, escritas pela própria Bibi Ferreira, doze canções captadas ao vivo no espetáculo estreado em 25 de maio de 1983 mostraram, no álbum Piaf, que Bibi igualou o poder de interpretação de Piaf, com densidade raramente ouvida na discografia brasileira, mas em registro vocal menos áspero do que o da artista francesa.
Coordenada pelo produtor musical Guto Graça Mello, a gravação ao vivo conservou o calor da cena no disco bilíngue de repertório cantado em português e/ou em francês. Tanto do ponto de vista musical como sob o prisma dramático, a perfeição da interpretação do cancioneiro de Piaf por Bibi saltou nítida aos ouvidos já na primeira faixa do álbum Piaf, em que a cantora brasileira deu voz ao medley que juntou La belle historie d’amour (Charles Dumont e Edith Piaf, 1960) com Hymme à l’amour (Marguerite Monnot e Edith Piaf, 1950).
Na sequência do disco, a canção L’accordeoniste (Michel Emer, 1940) foi brevemente contextualizada por Bibi em português antes do início da interpretação propriamente dita, feita em francês de fluência impressionante como o talento da artista. A faixa terminou com o canto coletivo do Hino Nacional da França, La Marseillaise / A Marselhesa (Claude Joseph Rouget de Lisle, 1872).
A mesma contextualização em português foi feita pela artista antes do canto de Bravo pour le clown (Louiguy e Henri Contet, 1953), ode à tristeza dos palhaços. Música cantada em francês, La foule (Ángel Cabral e Michel Rivgauhe, 1957) foi número ambientado em clima de cabaré francês, palco para o brilho de Piaf.
Com versos em português e francês, La ville inconnue (Charles Dumont e Michel Vaucaire, 1960) mapeou a trajetória dramática de Piaf de hotel em hotel, de turnê em turnê. Na alternância de andamentos de Millord (Marguerite Monnot e Georges Moustaki, 1959), Bibi reiterou o total domínio do idioma musical francês e da linguagem da dramaturgia, exposta na faixa nas partes faladas em português.
Em interpretação bilíngue, La goualante du pauvre Jean (Marguerite Monnot e Rene Rouzad, 1954) evidenciou a supremacia do acordeom de Irene Mutanen nos arranjos fiéis ao universo musical francês, mérito do maestro e pianista Nelson Melin, diretor musical do espetáculo e integrante do quarteto original que, além de Irene Mutanen e de Melin, foi formado pelo contrabaixista Álvaro Augusto e pelo baterista Paulo Eduardo Mello.
Cantada em dueto por Bibi com o artista grego Théo Sarapo (1926 – 1970), a chanson À quoi ça sert l’amour (Michel Emer, 1962) resultou em momento de leveza ao tentar dimensionar o amor em disco cujo arco dramático também abriu espaço para a doçura apaixonada de La vie en rose (Louis Gugliemi e Edith Piaf, 1945), o maior sucesso de Piaf ao lado de Hymme à l’amour.
Hymme à l’amour foi música reprisada ao fim do álbum após o canto de Non, je non regrette rien (Charles Dummont e Michel Vaucaire, 1956), antecedido na cena do disco e do musical pela notícia, dada em tom impostado, da saída de cena da imortal Edith Piaf, a dois meses de completar 48 anos de vida acidentada, marcada por altos e baixos emocionais.
Bibi Ferreira viveu muito mais do que Piaf. Saiu de cena em 2019, aos 96 anos, coberta de glórias. Como atriz, Bibi deixou emoções imortalizadas nos corações de quem a viu em cena.
Como cantora, Bibi deixou discos que, a exemplo do álbum Piaf, são atestados para a posteridade do talento fenomenal de Abigail Izquierdo Ferreira, um dos maiores nomes da arte do mundo em todos os tempos.