Discos para descobrir em casa – ‘Pérolas aos povos’, Rita Benneditto, 1999


Capa do álbum ‘Rita Ribeiro’, de Rita Benneditto
Gal Oppido
♪ DISCOS PARA DESCOBRIR EM CASA – Pérolas aos povos, Rita Benneditto, 1999
♪ Rita de Cássia Ribeiro – cantora e compositora nascida em 13 de junho de 1966, em São Benedito do Rio de Preto (MA), cidade do interior do Maranhão – ainda era Rita Ribeiro quando lançou em junho de 1999 o segundo álbum, Pérolas aos povos, disco produzido por Mário Manga sob direção artística de Marco Mazzola, cérebro e CEO da gravadora MZA Music. Tanto que a capa do CD original de 1999 expôs com destaque a identidade da artista na foto de Gal Oppido, autor do projeto gráfico do disco.
Em 2012, a artista maranhense decidiu mudar o nome artístico para Rita Benneditto para homenagear tanto a cidade natal como o pai, Fausto Benedito Pinheiro, e sobretudo para evitar pendenga judicial com cantora homônima que registrara o nome Rita Ribeiro e reivindicara o direito ao uso exclusivo do nome.
Mudou o nome artístico da cantora maranhense, mas permaneceu a limpidez da voz de emissão precisa, lapidada em 1986 em estudo de canto erudito no Chile. Na ocasião dessa temporada chilena, Rita já estava em cena há cerca de cinco anos em festivais e em apresentações na noite da cidade de São Luís (MA).
Contudo, o primeiro show solo de caráter mais oficial, Cunhã, chegou à cena somente em 1989 sob direção musical de Zeca Baleiro. Conterrâneo, o maranhense Baleiro avalizou a colega debutante e produziu – juntamente com Mario Manga – o primeiro álbum da cantora, Rita Ribeiro, lançado em 1997 pela gravadora Velas.
Baleiro forneceu as então inéditas canções Lenha (1997), Missiva (1997) e Olhozinho (1997) para o repertório deste disco em que Rita também apresentou Cocada (Antônio Vieira, 1997) e regravou a balada Impossível acreditar que perdi você (Márcio Greyck e Cobel, 1970), sinalizando faro para pescar pérolas no cancioneiro da música brasileira.
No embalo da boa repercussão do álbum Rita Ribeiro, a cantora assinou contrato em 1998 com a MZA Music, gravadora por onde lançou dois álbuns, Pérolas aos povos e Comigo (2001), que fecharam o primeiro ciclo da carreira da artista.
Entre um disco e outro, Rita teve o álbum Pérolas aos povos lançado em 2000 nos Estados Unidos e Canadá pelo selo Putumayo.
Outro ciclo seria aberto na trajetória da artista com a estreia, em 2003, do show Tecnomacumba. Com abordagens calorosas de músicas que evocavam símbolos e divindades de religiões de matriz afro-brasileira, Tecnomacumba se tornou marco na carreira de Rita Benneditto, elevou a cantora a um novo patamar de popularidade, gerou álbum de estúdio em 2006 e ganhou registro audiovisual em DVD editado em 2009.
Por mais que Rita tenha planejado cantar para subir, o show Tecnomacumba jamais saiu de cena, tendo norteado inclusive trabalhos posteriores da artista, como o álbum Encanto (2014), espécie de desdobramento do projeto afro-brasileiro.
A devoção da cantora aos orixás sempre foi sincera e apareceu na discografia da artista desde o primeiro álbum. Em Pérolas aos povos, essa devoção foi reiterada na última das 14 composições do álbum, Na gira, música de acento afro assinada pela própria Rita Benneditto – compositora de produção eventual – e dedicada a Clara Nunes (1942 – 1983) e a Clementina de Jesus (1901 – 1987) na detalhada ficha técnica do encarte do CD.
Inclusive por ter reforçado a conexão da cantora com o produtor musical Mario Manga, o álbum Pérolas aos povos soou como prolongamento do disco de estreia da artista.
Compositor recorrente neste primeiro disco de 1997, Zeca Baleiro marcou tripla presença no repertório de Pérolas aos povos como parceiro de Rita na criação de Tô (1999) – música que abriu o álbum – e como único compositor da balada cool Muzak (1999) e do Mambo da dor (1999), este apresentado por Rita na forma de canção abolerada, diferentemente do que fez supor o título da música.
Autor do já mencionado hit anterior Cocada, o compositor maranhense Antônio Vieira (1920 – 2009) cedeu o manemolente Banho cheiroso (1999) samba associado à festividade, Lelê de São Simão, popular no interior no Maranhão.
Do estado natal, Rita também deu voz ao reggae Filhos da precisão (Erasmo Dibell, 1992), de temática social. Ainda na praia do reggae, ritmo forte em São Luís, a “Jamaica brasileira”, a cantora se banhou na cadência da música-título Pérolas aos povos, tema da compositora Isla Jay, com aguçado senso rítmico. O suingue da artista também valorizou a lembrança de Vendedor de bananas (Jorge Ben Jor, 1970), turbinada com citação de gravação da dupla paulistana de rap Thaíde & DJ Hum.
Composição da paulista Vânia Borges, Há mulheres (1999) enfatizou, na gravação de Rita, um acento moderno de world music que pautou o álbum Pérolas aos povos e que certamente contribuiu para motivar o selo Putumayo (voltado para esse genérico gênero) a editar o disco fora do Brasil.
Dentro ou fora das fronteiras musicais maranhenses, reforçadas no disco Pérolas aos povos com o registro de Mana Chica, aliciante cantiga de bailado de escravos do século XVIII embasada em baticum pressuroso, Rita Benneditto sempre soube cair no suingue com a mesma naturalidade com que costuma dar voz precisa a baladas românticas.
Nessa serra, a cantora apresentou Déjà vu (1999) – composição em português da argentina Natalia Mello – e deu voz a uma das mais apaixonantes baladas de Chico César, Pensar em você, gravada pelo compositor no mesmo ano para o álbum Mama múndi (1999).
O registro de Pensar em você por Rita evidenciou a fricção inusual das cordas no arranjo de Mario Manga, cujo incisivo toque da guitarra iluminou Eclipse em meia-lua (Carlos Careqa, Arrigo Barnabé e Adriano Sátiro, 1998).
Em terreno mais popular, a cantora reapresentou a canção Jamais estive tão segura de mim mesma, composta em 1972 pelo futuro ídolo roqueiro Raul Seixas (1945 – 1989) para a cantora Núbia Lafayette (1937 – 2007) quando era conhecido como Raulzito e atuava na gravadora CBS como produtor musical de intérpretes associados à música dita cafona.
Tão regionalista quanto contemporânea, Rita Benneditto cumpriu o que prometeu no título deste segundo álbum e ofereceu pérolas musicais aos povos dispostos a ouvir a música do mundo, se confirmando como uma das melhores e mais interessantes cantoras brasileiras projetadas na década de 1990.