Discos para descobrir em casa – ‘Nós’, Johnny Alf, 1974


Capa do álbum ‘Nós’, de Johnny Alf
Reprodução
♪ DISCOS PARA DESCOBRIR EM CASA – Nós, Johnny Alf, 1974
♪ Já virou clichê sentenciar que Johnny Alf foi um dos precursores da bossa nova. E talvez a sentença seja até injusta porque muito músico de talento entende que o cantor, compositor e pianista carioca Alfredo José da Silva (19 de maio de 1929 – 4 de março de 2010), em vez de precursor, foi efetivamente um dos mais importantes criadores da bossa nova.
Apresentada oficialmente em 1958, essa bossa renovou a música brasileira a reboque da batida diferente do violão de João Gilberto (1931 – 2019), mas se desenhara paulatinamente em bares e boates cariocas ao longo da década de 1950. E, nesse desenho, o complexo traço harmônico da música de Johnny Alf apontou caminhos para a arquitetura modernista da bossa.
Discreto como os amores que viveu à meia-luz, Alf nunca levou o devido crédito por tamanha contribuição. Até porque, quando a revolução foi detonada à beira-mar na cidade do Rio de Janeiro (RJ), Alf já estava em São Paulo (SP), deliciando desde 1955 outra turma com a própria bossa, tão sofisticada que Antonio Carlos Jobim (1927 – 1994) volta e meia o chamava de “geniAlf”.
Embora gracioso, o trocadilho gracioso era feito com a seriedade de quem testemunhara a modernidade pioneira do artista ao vê-lo tocar em 1954 no piano-bar do Plaza, hotel situado no bairro carioca do Leme, para onde Alf arrastava involuntariamente os principais nomes da bossa.
Lançado em 1974, 20 anos após a consagração do artista debutante entre a plateia minúscula, mas antenada e influente, do Plaza, o LP Nós foi o quinto dos 11 álbuns lançados por Alf em discografia iniciada em 1953 com single instrumental de 78 rotações que apresentou a primeira música gravada do compositor, Falsete.
Àquela altura, a bossa nova já ganhara o mundo sem que Alf tivesse recebido o devido quinhão pela imensa contribuição que deu ao movimento, em parte pelo temperamento retraído, conveniente na época para artista de homossexualidade nunca assumida.
Alheios à injustiça histórica, ouvidos sagazes já se encantavam há anos com a música arrojada desse compositor e pianista de formação clássica, Tanto que o álbum Nós, de certa forma, representou tributo prestado a Alf por compositores da MPB herdeiros da bossa nova.
Embora de origem pobre, Alf obtivera o aval e os meios financeiros – da família para a qual trabalhara a mãe, empregada doméstica – para aprimorar a musicalidade que se manifestara precoce, ainda na infância. O estudo de piano o pôs em contato com os grandes compositores de música clássica.
Mais tarde, o apego ao jazz e à canção norte-americana fez soar natural a transformação de Alfredo José em Johnny Alf por sugestão de amiga de origem norte-americana. Fazendo bom uso dessas (in)formações ao exercitar o dom de criar música, Alf produziu série de canções que bafejaram ar fresco na música brasileira com a elegância providencialmente discreta do compositor.
Quando o álbum Nós foi lançado pela gravadora EMI-Odeon, três anos após o álbum Ele é Johnny Alf (1971), esse compositor já legara ao mundo maravilhas eternamente contemporâneas como O que é amar (1953), Rapaz de bem (composta na safra de 1953 e lançada em disco em 1956), Ilusão à toa (1961) e Eu e a brisa (1968), entre outras.
Produzido por Simon Khoury sob direção musical de Lindolpho Gaya (1921 – 1987), maestro então habituado a prestar serviços à gravadora Odeon, o álbum Nós se diferenciou por apresentar Alf fora do trilho autoral normalmente percorrido pelo compositor.
Como contou no texto que escreveu para a contracapa do LP, o produtor Simon Khoury teve a ideia de convidar compositores em grande evidência naqueles anos 1970 – ninguém menos do que Gilberto Gil, Milton Nascimento, Ivan Lins, Gonzaguinha (1945 – 1991) e Egberto Gismonti – para fazer músicas para Alf.
Eles não somente fizeram as músicas com entusiasmo, como alguns ainda participaram da gravação das respectivas criações. Dá para identificar o toque percussivo do piano de Ivan Lins (com ecos da obra de Milton), por exemplo, na introdução do samba Um gosto de fim, composição de Ivan com o parceiro Ronaldo Monteiro de Souza.
Egberto Gismonti também mandou um samba, o abre-alas Saudações, composto com letra de Paulo César Pinheiro – na primeira das duas únicas parcerias de Gismonti com o poeta carioca – e arranjado pelo próprio Gismonti, que também orquestrou a regravação de O que é amar (1953), de tom mais expansivo.
Gilberto Gil enviou Músico simples (1974), composição que, como a obra autoral de Alf, exibiu musicalidade sofisticada, sem soar rebuscada. O violão de Gil conduziu a gravação de clima minimalista.
Da lavra de Alf, o álbum Nós apresentou a grande canção-título Nós (1974) – orquestrada por Wagner Tiso com cordas e o sopro do saxofone de Paulo Moura (1932 – 2010) – e o então inédito samba Acorda, Ulysses (1974), arranjado por Egberto Gismonti e gravado com os músicos Luiz Alves (baixo) e Robertinho Silva (bateria), virtuoses arregimentados para este disco também formatado com o flautista Copinha (1910 – 1984) e o pianista Tenório Jr. (1941 – 1976).
Com a autoridade de quem estava associado ao Clube da Esquina, Wagner Tiso também orquestrou Outros povos, a música de Milton Nascimento (com letra de Marcio Borges), gravada com o toque da guitarra de Toninho Horta.
Já Plenilúnio (1968) – música inédita na voz de Alf, mas lançada há seis anos pelo cantor Agostinho dos Santos (1932 – 1973) em festival da canção – ganhou arranjo intrincado do recorrente Egberto Gismonti.
Contribuição de Gonzaguinha para o disco, o buliçoso samba É um cravo e tem espinho (1974) foi formatado com arranjo de Paulo Moura, também orquestrador do samba Um tema pro Simon, faixa instrumental que representou afago de Johnny Alf em Simon Khoury.
Khoury, cabe enfatizar, foi o produtor entusiasmado deste álbum gregário que conectou a modernidade perene do artista com a contemporaneidade de grandes compositores que davam o tom da MPB dos anos 1970 e que, como Tom Jobim, certamente consideravam o dono do disco “geniAlf”.