Discos para descobrir em casa – ‘Meu lado’, Djavan, 1986


Capa do álbum ‘Meu lado’, lançado por Djavan em 1986
Walter Firmo
♪ DISCOS PARA DESCOBRIR EM CASA – Meu lado, Djavan, 1986
♪ Embora Djavan já cantasse na noite carioca e, desde 1973, fizesse gravações eventuais para trilhas de novelas da TV Globo, o artista alagoano se impôs como a grande revelação do festival Abertura (1975), no qual apresentou o samba Fato consumado, de autoria própria.
Vice-campeão do festival, vencido por Carlinhos Vergueiro, Djavan se tornou espécie de filho temporão da MPB nascida na segunda metade dos anos 1960.
A partir de 1975, ano em que o cantor também ganhou notoriedade ao gravar o samba Alegre menina (Dori Caymmi com letra de Jorge Amado) para a trilha sonora da novela Gabriela (1975), Djavan lançou o primeiro álbum em 1976 via Som Livre (A voz, o violão, a música de Djavan, disco, à revelia do artista, voltado para o samba) e, contratado pela gravadora EMI-Odeon, obteve a chance de apresentar a obra autoral de assinatura personalíssima em série de álbuns lançados entre 1978 e 1981.
Mesmo tendo gerado somente um ou outro sucesso, caso sobretudo da balada Meu bem-querer (1980), esses álbuns de Djavan na EMI-Odeon foram fundamentais para delinear o traço original do cancioneiro de compositor que caía em suingue singular como se filtrasse o samba, os ritmos nordestinos e a MPB pelo blues e pelo jazz das Alagoas.
Ao ser contratado pela CBS, gravadora no qual estreou em 1982 com o esplendoroso álbum Luz, produzido nos Estados Unidos pelo norte-americano Ronnie Foster, Djavan enfim se transformou num artista de massa, com hits nas rádios e shows concorridos.
Meu lado, álbum lançado em 1986, foi o reflexo do desgaste do artista com a fórmula pop massiva da CBS, embora o artista refizesse a bem-sucedida conexão com Ronnie Foster no álbum seguinte, Não é azul, mas é mar (1987), sem reeditar o êxito comercial do disco Luz.
A relação conturbada de Djavan com Erich Bulling – produtor norte-americano escalado há dois anos para produzir o álbum anterior do cantor, Lilás (1984), disco de sotaque eletrônico, promovido pela expansiva música-título e pela canção Esquinas – certamente contribuiu para a decisão do cantor de tomar as rédeas da própria obra fonográfica.
A providência imediata foi gravar o álbum Meu lado no Brasil, com o suingue da banda Sururu de Capote. Gravado de janeiro a março de 1986, com produção musical orquestrada pelo próprio Djavan, o álbum Meu lado interrompeu o fluxo de sucesso comercial de Djavan naquela década (o cantor somente voltaria com força às paradas três anos depois com a gravação da balada Oceano, retumbante hit do álbum Djavan, de 1989).
A sinuosa Asa foi a faixa escolhida pela gravadora CBS para promover o álbum Meu lado nas rádios. Contudo, com o decorrer dos anos, a música mais famosa do álbum Meu lado seria a brilhante balada Topázio.
Asa e Topázio foram duas das oito músicas assinadas somente por Djavan no repertório completado por dois hinos da África, Nkosi sikelel’ l-Afrika (Enoch Sontonga) e So bashiya ba hlala ekhaya (Grupo Cultural do Congresso Nacional Africano), ambos adaptados pelo próprio Djavan para estes registros em dialetos africanos que reconectaram o artista com ancestralidade sempre embutida na obra do compositor. Os coros das duas faixas reforçaram a alta carga emocional dos hinos.
Das oito composições autorais alinhadas no disco Meu lado, sete eram inéditas. A exceção foi Romance (Laranjinha), mix de xote e baião lançado por Gal Costa no ano anterior no álbum Bem bom (1985). De volta ao universo nordestino, Djavan fez Romance com doçura e com a sanfona do paraibano Sivuca (1930 – 2006).
Na inédita safra autoral, Beiral e Lei foram músicas que reiteraram a habilidade do compositor para cair com personalidade única na cadência do samba. Já Segredo foi balada de acento bluesy, arranjada pelo maestro Wagner Tiso, que se impôs como uma das mais bonitas da lavra do artista e, por isso mesmo, é inexplicável que nunca mais tenha sido regravada desde então, nem por Djavan e nem por outro intérprete.
Outras duas composições que permaneceram somente no álbum Meu lado foram Quase de manhã – intrincada canção bafejada pelo sopro frenético do solo do sax do músico norte-americano David Sanborn, destaque do arranjo de metais orquestrados por Luiz Avellar – e o (menos envolvente) samba Muito mais.
No todo, Meu lado pode não ter se configurado o álbum mais sedutor ou popular de Djavan, mas foi disco importante para o artista retomar o controle do próprio caminho artístico, seguido desde então com valente coerência ao longo dos 34 anos que separam 2020 da edição deste (na época) corajoso álbum Meu lado.