Discos para descobrir em casa – ‘Ivete Sangalo’, Ivete Sangalo, 1999


Capa do álbum ‘Ivete Sangalo’, de Ivete Sangalo
Walter Carvalho
♪ DISCOS PARA DESCOBRIR EM CASA – Ivete Sangalo, Ivete Sangalo, 1999
♪ Lançado em julho de 1999, o primeiro álbum solo de Ivete Sangalo demorou quase um ano para cumprir a alta expectativa com que foi concebido para solidificar a trajetória luminosa dessa cantora e compositora baiana nascida em maio de 1972 em Juazeiro (BA), cidade natal de João Gilberto (1931 – 2019).
Após seis bem-sucedidos álbuns como vocalista da Banda Eva, lançados entre 1993 e 1998, Ivete Maria Dias de Sangalo era a grande aposta da gravadora Universal Music no segmento milionário da axé music naquele ano de 1999.
Para evitar erros nesse disco decisivo para a carreira da artista, que vendera milhões de CDs na banda com a qual tinha sido eleita a revelação de 1992 no circuito de Salvador (BA), a companhia fonográfica escalou o tarimbado produtor musical Marco Mazzola para dar forma no estúdio ao som que seria apresentado pela cantora no álbum intitulado Ivete Sangalo e gravado de abril a junho de 1999, entre estúdios da cidade do Rio de Janeiro (RJ) e de Salvador (BA).
Esse som era a mistura percussiva da música afro-pop-baiana que triturava ritmos caribenhos em coquetel apimentado com o samba e com a batida do samba-reggae sintetizada pelo músico Antônio Luís Alves de Souza (1955 – 2009), o Neguinho do Samba, em Salvador (BA) – cidade onde Ivete iniciara a carreira de cantora, aos 17 anos, com shows apresentados em bares do bairro nobre de Ondina no fim dos anos 1980, antes de ser descoberta pelo empresário da Banda Eva.
“Vou correndo atrás do trio / Sou gerador da folia / Em qualquer canto que eu for / Tem Carnaval, meu amor”, gabou-se Ivete ao afirmar a vocação de cantora de trio elétrico em versos de Música pra pular brasileira (Davi Salles), faixa que sintetizou o espírito folião do repertório da cantora no álbum Ivete Sangalo com direito à citação da marchinha carnavalesca Índio quer apito (Haroldo Lobo e Milton de Oliveira, 1960). Música pra pular brasileira se nutriu da cadência elétrica do frevo baiano.
Dona de voz e carisma notáveis, Ivete Sangalo se valeu da vocação para animar folias quando gravou Canibal, música de autoria da própria Ivete que garantiu sucesso para a cantora nos Carnavais fora de época na região nordeste antes de o disco emplacar, já no ano 2000, um sucesso realmente nacional.
Parceria de Carlinhos Brown com Luiz Caldas, 100 o seu amor reafirmou a baianidade pop nagô do som de Ivete com arranjo de espírito timbaleiro.
Em Tá tudo bem (Alexandre Peixe), música que atravessou gerações e avenidas, Ivete deu voz à canção romântica turbinada com a batida do samba-reggae. Esse romantismo ganhou acento soul na gravação de Medo de amar, balada composta por Ivete e cantada pela autora em dueto com Ed Motta, cantor que, então contratado pela mesma gravadora Universal Music, vivia fase pop de grande popularidade na carreira.
Já Monsieur samba (Gal Sales e Jamoliva) soou como pagode embalado para gringo, com o toque carioca do cavaquinho de Alceu Maia.
Samba-reggae de tonalidade romântica, Eternamente (Davi Salles) trouxe o álbum Ivete Sangalo de volta para o universo pop baiano em que também se situaram o agitado axé Tô na rua (Gal Sales e Xexéu II) – faixa pautada pela swingueira dos metais – e Chuva de flor (Marquinho Carvalho), além da regravação de Bota pra ferver (Durval Lelys, 1994), sucesso da banda Asa de Águia.
Já Tenho dito representou flerte de Ivete com o universo da MPB de acento mais latino, embora a faixa tenha remetido ao frenesi dos axés na abordagem da cantora. Composição de João Bosco, lançada pelo autor dez anos antes no álbum Bosco (1989), Tenho dito mostrou o apurado senso rítmico desta cantora em gravação com toque de jazz latino que valorizou música menos sedutora do cancioneiro de Bosco.
Exemplo de que o repertório do álbum poderia ter sido selecionado com maior rigor, Destino (Gal Sales e Jamoliva) resultou em faixa digna de nota somente pelo toque da guitarra baiana de Armandinho.
Duas regravações – ambas feitas com arranjos do pianista César Camargo Mariano – projetaram o álbum Ivete Sangalo de forma negativa e positiva.
A lembrança de Sá Marina (Antonio Adolfo e Tibério Gaspar, 1968), música lançada pelo cantor carioca Wilson Simonal (1938 – 2000) há mais de 30 anos, provocou polêmica porque Elza Soares – então em fase de menor sucesso – também tinha gravado Sá Marina no álbum Elza ao vivo – Carioca da gema (1999), sem autorização para o registro fonográfico, e se viu pressionada pela gravadora a retirar a faixa do disco porque a composição teria sido cedida com exclusividade para Ivete.
Diante da repercussão negativa do caso na imprensa, prejudicial à imagem de Ivete, a gravadora Universal Music acabou autorizando a permanência de Sá Marina no disco independente de Elza.
De todo modo, Sá Marina passou despercebida com Ivete entre as 14 faixas do disco, também arranjado por músicos da Banda do Bem, integrada na época por Radamés Venâncio nos teclados e Letieres Leite no saxofone. Radamés se tornaria maestro de Ivete no futuro. Já Letieres seria aclamado como maestro da inovadora Orquestra Rumpilezz.
Em contrapartida ao ostracismo à que ficou relegada a gravação de Sá Marina, a belíssima canção Se eu não te amasse tanto assim – obra-prima da parceria de Herbert Vianna com Paulo Sérgio Valle, escrita com lirismo romântico e arranjada com maestria por César Camargo Mariano – se tornou o maior sucesso do álbum Ivete Sangalo e um dos maiores hits da carreira da cantora ao ser propagada na trilha sonora da novela Uga uga (TV Globo, 2000 / 2001) a partir de maio de 2000, ainda em tempo de fazer com que o álbum Ivete Sangalo se tornasse, enfim, o grande sucesso esperado tanto pela gravadora quanto pela artista.
Enquanto Se eu não te amasse tanto assim continuava estourada nas rádios e na novela, Ivete Sangalo já lançava o álbum Beat beleza (2000), segundo título de discografia solo que rendeu álbuns com hits ainda mais massivos como Festa (2001) e Clube Carnavalesco Inocentes em Progresso (2003), título mais diferenciado da irregular obra fonográfica da artista.
Embora nunca tenha feito um grande disco à altura da voz, talvez porque tenha escorado a carreira no carisma com que costuma turbinar shows incendiários próprios para animar micaretas e trios elétricos, Ivete Sangalo sempre teve axé e fez história no universo da música para pular brasileira em trajetória bem-sucedida desde a Eva e, fora da banda, pavimentada com o mesmo êxito a partir deste bom disco solo de 1999.