Discos para descobrir em casa – ‘Equilíbrio distante’, Renato Russo, 1995


Capa do álbum ‘Equilíbrio distante’, de Renato Russo
Desenhos de Giuliano Manfredini
♪ DISCOS PARA DESCOBRIR EM CASA – Equilíbrio distante, Renato Russo, 1995
♪ Renato Manfredini Junior (27 de março de 1960 – 11 de outubro de 1996) sentiu correr nas veias o sangue italiano dos antepassados do artista quando, em 1994, decidiu fazer um segundo álbum solo com canções italianas.
Para se inspirar na gestação do disco que se chamaria Equilíbrio distante e que seria lançado pela gravadora EMI no último trimestre de 1995, Renato partiu para Sesto Cremonese, município italiano da região da Lombardia de onde se origina a família Manfredini.
Quando viajou para essa região e também para as cidades de Roma e Milão, em busca de climas e de ideias para o repertório, Manfredini já se chamava há 16 anos Renato Russo, nome artístico que adotara em 1978.
O sobrenome Russo fora escolhido como tripla homenagem ao pensador britânico Bertrand Russel (1872–1970), ao pintor francês Henri Rousseau (1844–1910) e ao pensador também francês Jean-Jacques Rousseau (1712 – 1778) quando começou a concretizar a ideia de ser, também ele, um pensador, só que do universo pop brasileiro.
Renato Manfredini Junior veio ao mundo na cidade do Rio de Janeiro (RJ) há 60 anos, em 1960, um mês antes da inauguração de Brasília (DF). Já Renato Russo nasceu 18 anos depois na ebulição punk dessa mesma Brasília (DF), cidade onde foi morar com a família em 1973 após alternar temporadas no Rio, em Curitiba (PR) e em Nova York (EUA) por conta do ofício itinerante do pai.
Como Renato Russo, Manfredini entrou em cena em 1978, na capital federal, como vocalista e compositor da banda punk Aborto Elétrico (1978 – 1982). Após a dissolução do grupo, Russo encarnou O trovador solitário por breve período da carreira individual até se tornar a voz, o cérebro e a alma da Legião Urbana, banda brasiliense de rock que angariou fervorosos seguidores pelo Brasil, dando fama e glória ao cantor, compositor e músico.
Com a Legião, Renato Russo deu voz e versos a cancioneiro singular – em grande parte composto com o guitarrista Dado Villa-Lobos e com o baterista Marcelo Bonfá, membros fundadores da banda – que foi da fúria punk ao lirismo existencialista em trajetória iniciada em 1982 e encerrada (com Russo à frente) em 1996, ano em que o poeta pensador saiu de cena aos breves 36 anos, em decorrência de complicações da infecção pelo vírus da Aids.
Russo então se tornou imortal pela qualidade da obra autoral e pela emoção embutida no canto que evocava o timbre de Jerry Adriani (1947 – 2017), ídolo do movimento pop brasileiro dos anos 1960 intitulado Jovem Guarda.
Se Jerry cantou músicas italianas no começo da carreira até começar a gravar em português, sem abandonar o idioma anterior (a ponto de lançar em 1999 um álbum, Forza sempre, com versões em italiano de sucessos da Legião Urbana), o trovador fez o caminho inverso na fase final da vida e da obra.
Produzido e arranjado pelo tecladista Carlos Trilha com o próprio Renato Russo, o álbum Equilíbrio distante expôs na capa quatro desenhos feitos pelo filho do cantor, Giuliano Manfredini, então com seis anos em 1995. As imagens do estádio carioca Maracanã, do Coliseu de Roma, do Pão de Açúcar e da Torre de Pisa (ludicamente grafada como Torre de Pizza) simbolizaram a ponte Rio-Itália em que o disco foi concebido e formatado.
A gravação em si aconteceu em estúdio da cidade do Rio de Janeiro (RJ), ao longo de 1995, com os toques de músicos como Arthur Maia (1962 – 2018) (baixo), Bruno Araújo (baixo), Claudio Jorge (violão), Eduardo Constant (bateria), Jota Moraes (piano) e Ricardo Palmeira (violão), além de Carlos Trilha (teclados e programações) e do próprio Renato Russo (no violão, baixo e piano, entre outros instrumentos).
Tal como o primeiro álbum solo de Renato Russo, The Stonewall celebration concert (1994), inventário da canções afetivas envolvidas em aura gay, o disco Equilíbrio distante apresentou recorte pessoal do cancioneiro italiano sob o viés emotivo do intérprete.
Mesmo sem saber falar italiano, Russo deu voz extremamente fluente a 13 canções que versaram sobre amor e desamor, por vezes no tom triste que pautou parte do repertório autoral do artista.
Sem se escorar nos clássicos da canção italiana dos anos 1960, como sempre fizeram intérpretes do Brasil ao gravarem songbooks do cancioneiro da Itália, o cantor montou painel da produção musical contemporânea daquele país com base na pesquisa de repertório feita na viagem à Itália em 1994.
Das 13 músicas que compuseram o repertório sentimental do álbum Equilíbrio distante, nada menos do que quatro vinham da discografia da cantora italiana Laura Pausini, então em grande evidência no universo pop.
Gente (Angelo Valsiglio, Cheope e Marco Marati, 1994), Strani amori (Angelo Valsiglio, Roberto Buti, Cheope, Marco Marati e Francesco Tanini, 1994) – balada sobre fim de um amor que sobressaiu no disco pelo registro melancólico de Russo – e Lettera (Angelo Valsiglio, Giovanni Salvatori, Cheope e Marco Marati, 1994) tinham sido apresentadas no ano anterior por Pausini no segundo álbum da artista, Laura (1994). La solitudine (Angelo Valsiglio, Pietro Cremonesi e Federico Cavalli, 1993) tinha sido o single blockbuster do álbum de estreia da cantora, Laura Pausini (1993).
Já I venti del cuore (Piero Fabrizi e Massimo Bubola, 1992) – canção sobre nostalgia amorosa que evocou a sonoridade da Legião Urbana no arranjo – vinha do repertório da cantora Fiorella Mannoia.
Sucesso do repertório autoral do cantor e compositor Nino Buonocore, Scrivimi (1990) mostrou que, em italiano ou em qualquer idioma, a língua do amor e da saudade é a mesma em todo o universo pop.
Cantada em tons serenos por Russo, em arranjo de clima folk que ganhou intensidade (sem perder a ternura) na longa passagem instrumental da faixa de quase oito minutos, Dolcissima Maria (Mauro Pagani, Flavio Premoli e Franco Mussida, 1974) soou como oração cheia de esperança, colhida no repertório da Premiata Forneria Marconi, banda de rock progressivo dos anos 1970.
Balada então recente, Passerà (Aleandro Baldi, Giancarlo Bigazzi e Marco Falagiani, 1994) evidenciou a sintonia do sentimento da canção italiana com a alma musical de Renato Russo. Destaque do disco ao lado de Strani amori, Passerà era sucesso do quarto álbum do cantor e compositor italiano Aleandro Baldi, Te chiedo onestà (1994).
Deste disco de Baldi, Russo também regravou Il mondo degli altri (Aleandro Baldi e Francesco Palmieri, 1994) e a música-título Ti chiedo onestà (Aleandro Baldi, Giancarlo Bigazzi e Marco Falagiani, 1994), faixas limadas da seleção final do álbum Equilíbrio distante, mas apresentadas, dois anos depois, no álbum póstumo O último solo (1997), composto por sobras da discografia individual de Renato Russo.
Versão em italiano (de Massimiliano de Tomassi), do brasileiríssimo bolero de clima havaiano Como uma onda (Lulu Santos e Nelson Motta, 1983), Come fa un’onda emergiu no álbum Equilíbrio distante em clima de bossa nova, em faixa entremeada com passagens instrumentais de Wave (Antonio Carlos Jobim, 1967).
Sucesso do cantor italiano Paolo Vallesi, La forza della vitta (1992) era parceria de Vallesi com Beppe Dati que, em 1993, ganhara versão em português intitulada O preço de uma vida e gravada de forma mais arrebatada pela cantora Selma Reis (1960 – 2015).
Sucesso do cantor Raf em 1993, a canção Due (Raffaele Riefoli e Alfredo Rapetti) – faixa de pegada pop e de arranjo evocativo da sonoridade da Legião Urbana – reiterou a intenção de Russo de abordar cancioneiro recente da Itália, a maioria lançado na primeira metade daquela década de 1990.
Hit dos anos 1980, a balada Piú o meno (Renato Zero, 1987) foi envolvida em aura mais clássica, com cordas no arranjo, sem diluir a contemporaneidade do álbum Equilíbrio distante.
No arremate do disco, La vita è adesso (1985) – de Claudio Baglioni, cantor e compositor de cujo repertório Renato Russo também gravou (mas não incluiu no disco) E tu come stai? (1978), faixa que seria lançada no já mencionado disco póstumo O último solo – culminou com citação de Vá, pensiero (Giuseppe Verdi, 1842), tema do coro da ópera Nabuco (1842).
Foi como se, no fim de Equilíbrio distante, o trovador ítalo-carioca voltasse ao século XIX, mais especificamente para Sesto Cremonese, de onde os bisavós do artista partiram em 1878, cem anos antes de Renato Manfredini Junior virar Renato Russo e se transformar, de 1982 a 1996, em grande pensador do pop brasileiro.