Discos para descobrir em casa – ‘Clementina de Jesus’, Clementina de Jesus, 1966


Capa do álbum ‘Clementina de Jesus’, de Clementina de Jesus
Reprodução
♪ DISCOS PARA DESCOBRIR EM CASA – Clementina de Jesus, Clementina de Jesus, 1966
♪ Na noite de 7 de dezembro de 1964, o Brasil se conectou com a África através da voz rústica de Clementina de Jesus da Silva (7 de fevereiro de 1901 – 19 de julho de 1987).
Naquela noite histórica, ao ser formalmente apresentada por Hermínio Bello de Carvalho na segunda parte do recital O menestrel, essa artista fluminense se iniciou profissionalmente, aos 63 anos, no ofício de cantora, deixando para trás um passado honroso como empregada doméstica.
Essa improvável mudança de rota começou a se delinear em 15 de agosto de 1963, data em que Clementina foi notada por Hermínio como partideira em domingo festivo na Taberna da Glória.
Treinada pelo pesquisador para estrear nos palcos, Clementina de Jesus levou para o palco e depois para o disco a habilidade para cantar curimas, jongos, sambas e partidos altos, apre(e)ndidos por ela pela tradição oral que disseminou de geração para geração a cultura afro-brasileira dos negros escravizados.
Da consagradora estreia no show O menestrel, Clementina teve a visibilidade ampliada com a participação no espetáculo coletivo Rosa de ouro (1965), idealizado por Hermínio e perpetuado em disco pela gravadora Odeon.
Atenta à ovação de Clementina, transformada em espécie de embaixatriz da África no Brasil pelo fato de a cantora atuar intuitivamente como propagadora de memórias ancestrais, a companhia fonográfica bancou a gravação do primeiro álbum solo da artista, Clementina de Jesus, lançado em 1966 com contracapa inteiramente preenchida por longo texto de Hermínio Bello de Carvalho.
Nesse texto, Hermínio detalhou a origem da artista – nascida em Valença (RJ) e diplomada informalmente na cidade do Rio de Janeiro (RJ) em blocos carnavalescos, festas religiosas, rituais de candomblé e reuniões festivas das muitas tias que plantaram em solo carioca as raízes dos ritmos africanos que geraram o samba – e relatou curiosidades e características das 10 músicas que compuseram o repertório do disco.
Gravado sob direção musical de Nelson Martins dos Santos (1927 – 1996), o maestro Nelsinho, o álbum Clementina de Jesus ganhou forma no estúdio com alguns dos melhores músicos do Brasil.
Foram arregimentados, entre outros, virtuoses como Waldiro Frederico Tramontano (1908 – 1987), o Canhoto (no cavaquinho); Jayme Thomás Florence (1909 – 1982), o Meira (no violão); Horondino José da Silva (1918 – 2006), o Dino Sete Cordas (no violão); Elton Medeiros (1930 – 2019) no pandeiro, Jorge Arena (nos atabaques, na caixa e no bombo) e Nilton Delfino Marçal (1930 – 1994), o Mestre Marçal (na percussão).
Detalhe: uma das vozes do coro do disco foi a de Paulinho da Viola, então debutante no universo do samba, com meros dois anos de carreira.
Sem se intimidar com esse luxuoso acompanhamento, Clementina de Jesus se mostrou a dona do terreiro nas dez faixas do disco.
O álbum Clementina de Jesus foi aberto com Piedade, partido alto de autoria desconhecida. O ritmo desse tema tradicional foi marcado em clima de batucada pelas palmas do cantor e compositor carioca João Rodrigues de Souza, bamba pioneiro do partido alto e da escola de samba Portela conhecido como João da Gente, falecido no início dos anos 1970.
Com mais destaque, João da Gente reapareceu no disco na terceira faixa, improvisando versos com Clementina no partido alto Barracão é seu. Foram nada menos do que 16 improvisos que renderam seis minutos e 37 segundos de gravação.
Entre os partidos altos Piedade e Barracão é seu, Clementina registrou o jongo Cangoma me chamou, outro tema tradicional até então perpetuado somente pela tradição oral.
Espécie de toada mineira aprendida por Clementina com o pai, Tava “durmindo” foi entoada pela cantora a capella antes de a faixa ser costurada com o bordado do violão de Meira.
Em outro elo com a Portela, além das conexões com João da Gente, Clementina de Jesus regravou samba do compositor Paulo Benjamim de Oliveira (1901 – 1949), conhecido como Paulo da Portela por ter sido um dos fundadores e mentores da agremiação carnavalesca carioca Portela.
Reapresentado por Clementina no LP com o nome de Orgulho, hipocrisia, o samba tinha sido lançado em 1932 na voz de Mário Reis (1907 – 1981) com o título de Quem espera sempre alcança. Sem ter ciência desse registro original, Hermínio escreveu versos complementares para o samba sem reivindicar a coautoria da composição.
Também da lavra de Paulo da Portela, o samba Coleção de passarinhos – tributo a bambas pioneiros até então sem registro em disco – exemplificou a matriz africana da voz da intérprete. Também inédito em disco, o samba Garças pardas era de autoria do compositor carioca José Gonçalves (1908 – 1954), o Zé da Zilda.
A pedido de Hermínio, Cartola (1908 – 1980) compôs a segunda parte do samba e, com esse complemento, a música ganhou o primeiro e único registro fonográfico neste álbum de Clementina de Jesus.
Já o samba Esta melodia (Bubu da Portela, 1959) tinha sido apresentado em disco há sete anos pelo cantor Jamelão (1913 – 2008) quando ganhou a voz primitiva de Clementina em gravação feita 28 anos antes de Marisa Monte popularizar Esta melodia em gravação feita para o álbum Verde, anil, amarelo e cor-de-rosa e carvão (1994).
No mesmo clima de terreiro, Tute de madame resultou em aliciante batucada sustentada pelos percussionistas do disco. A voz de João da Gente ecoou na faixa para incentivar o batuque.
No arremate do álbum Clementina de Jesus, o tradicional canto de pastorinhas Vinde, vinde companheiros – entoado em andamento próximo de marcha-rancho – foi lembrança dos tempos em que a cantora dava voz a esse e a outros temas do gênero em pagodes e Folias de Reis organizadas por vizinho conhecido como João da Cartolinha.
Após esse primeiro LP solo, Clementina de Jesus gravou mais oito álbuns, entre discos individuais e registros coletivos que constituíram discografia formada por dez títulos lançados entre 1965 e 1982.
Voz da ancestralidade, a cantora se conectou com ícones da MPB e do samba ao longo dos anos 1970, mas a carreira fonográfica perdeu impulso na década de 1980.
De toda forma, nessa época, a artista já estava definitivamente consagrada como um dos mais ricos patrimônios culturais da música do Brasil em trajetória que, a partir da histórica noite de 7 de dezembro de 1964, fez jus ao talento inestimável de Clementina de Jesus da Silva.