Discos para descobrir em casa – ‘Apresentamos nosso Cassiano’, Cassiano, 1973


Capa do álbum ‘Apresentamos nosso Cassiano’, de Cassiano
Reprodução
♪ DISCOS PARA DESCOBRIR EM CASA – Apresentamos nosso Cassiano, Cassiano, 1973
♪ Apresentamos nosso Cassiano. O título do segundo álbum solo do cantor, compositor, violonista e guitarrista Genival Cassiano dos Santos fez supor que se tratava do disco de estreia deste fino estilista do soul brasileiro. Não era.
Lançado em 1973 pela gravadora Odeon, o LP tinha sido antecedido dois anos antes pelo real primeiro álbum solo de Cassiano, Imagem e som, editado em 1971 via RCA. Só que o título Apresentamos nosso Cassiano fazia certo sentido porque, em 1973, o cantor permanecia desconhecido do público.
Somente ouvidos mais atentos e antenados sabiam que o artista paraibano – nascido em 16 de janeiro de 1943 em Campina Grande (PB), mas residente na cidade do Rio de Janeiro (RJ) desde o fim dos anos 1940 – era um dos compositores, em parceria com Silvio Roachel, da balada-soul Primavera (Vai chuva), primeiro sucesso do cantor Tim Maia (1942 – 1998).
Gravada por Tim Maia em 1969, ano em que Cassiano integrava o conjunto carioca de funk, samba e soul Os Diagonais, a canção Primavera foi lançada no início de 1970 em single que abriu caminho para que Tim fizesse o primeiro LP.
Esse álbum de estreia do cantor carioca saiu naquele ano de 1970 com outra poderosa balada de autoria de Cassiano com Roachel, Eu amo você, no repertório.
Se Tim foi catapultado ao estrelato com o LP, Cassiano permaneceu desconhecido, mas reverenciado entre compositores e instrumentistas pela musicalidade refinada que começou a exercitar aos 21 anos, em 1964, ano em que fundou o Bossa Trio.
Cassiano era o violonista desse trio de samba-soul-jazz, cuja bossa negra foi o embrião do grupo Os Diagonais. Além de Cassiano, a formação original dos Diagonais incluía Camarão (irmão de Cassiano) e Hyldon, soulman de origem baiana que, assim como o colega paraibano, também batalhava pela carreira na efervescente cidade do Rio de Janeiro (RJ).
Com esses músicos, Cassiano gravou o primeiro dos dois únicos álbuns desse seminal grupo que misturava samba e funk de forma pioneira no Brasil, Os Diagonais, LP editado em 1969. Quando o conjunto gravou e lançou em 1971 o derradeiro disco, Cada um na sua, Cassiano já estava fora, pavimentando carreira fonográfica solo iniciada naquele mesmo ano de 1971 com a edição do citado álbum Imagem e som.
Neste disco, Cassiano deu voz à canção Primavera e apresentou oito inéditas canções autorais, sendo seis (É isso aí, Já, Minister, Não fique triste, Uma lágrima e Eu, meu filho e você) de autoria solitária do compositor e duas, Ela mandou esperar e Tenho dito, em parceria com Tim Maia.
O álbum Imagem e som apresentou Cassiano como compositor de harmonias requintadas, dono de obra influente, mas de absorção por vezes difícil como o temperamento deste artista genial e genioso.
Esse requinte foi burilado dois anos depois com o tom orquestral e o tempero psicodélico do segundo álbum solo do cantor, Apresentamos nosso Cassiano, produzido pelo guitarrista Pedrinho da Luz (1945 – 2013) – na época, integrante do grupo The Fevers – e arranjado por Carlos Alberto Girio, o pianista conhecido pelo nome artístico de Dom Charles.
O disco foi gravado por músicos identificados com a linguagem da black music, caso do então novato Robson Jorge (1954 – 1992), que tocou baixo na gravação do LP, e do próprio Dom Charles ao piano.
Aberto com O vale, uma das baladas mais belas e obscuras do cancioneiro do compositor, o álbum Apresentamos nosso Cassiano alinhou 10 músicas então inéditas no repertório inteiramente autoral.
Sete vieram assinadas somente por Cassiano. Me chame atenção foi parceria do artista com Renato Britto. Já Calçada e a música que fechou o LP, Cedo ou tarde, foram creditadas na contracapa a Cassiano e a uma compositora identificada somente como Suzana – na realidade, a cantora e compositora mineira Suzana Tostes.
Da lavra solitária do compositor, A casa de pedra foi erguida no disco com arquitetura esboçada com traços do rock progressivo então em evidência no universo pop.
O repertório do álbum Apresentamos nosso Cassiano apresentou os funks Slogan e Cinzas (de espírito folião), duas pérolas pescadas por Nelson Motta e Sandra de Sá – discípula carioca do mestre paraibano – para o álbum Sandra! (1990), produzido por Motta.
De melodias sinuosas, as baladas Melissa (composta para a filha do artista e gravado com arranjo que destacou o violão de Cassiano) e Castiçal sinalizaram que, neste disco de 1973, Cassiano estava distante do formato mais palatável da canção.
Já o soul Chuva de cristal caiu no álbum com ecos do som produzido pelo arranjador norte-americano Charles Stepney (1931 – 1976), músico associado a grupos como Earth, Wind & Fire. Esse link de Cassiano com Stepney foi devidamente apontado por Ed Motta em texto escrito para o encarte da caprichada compilação Coleção, produzida por Ed para a gravadora Dubas e editada em 2000.
A coletânea rebobinou evidentemente os dois maiores sucessos de Cassiano como intérprete, A lua e eu (1975) e Coleção (1976), baladas compostas pelo estilista em parceria com Paulo Zdanowski.
Ambas integraram o repertório do terceiro álbum solo de Cassiano, Cuban soul – 18 Kilates, editado em 1976, mas A lua e eu foi iluminada no ano anterior por ter sido apresentada na trilha sonora da novela O grito (TV Globo, 1975 / 1976). Já Coleção virou sucesso nacional ao ser propagada em 1977 na trilha de outra novela da TV Globo, Locomotivas.
Em que pese esse duplo sucesso popular, a carreira de Cassiano implodiu a partir de 1978, ano em que o cantor chegou a fazer na gravadora CBS um quarto álbum solo com arranjos do pianista Dom Charles para músicas então inéditas como Soul divinal e Viver de amor.
Só que a gravadora, sem a mínima sensibilidade, abortou a edição do álbum com a alegação de que a produção estava ficando demasiadamente cara para disco de retorno comercial previsivelmente baixo. E esse álbum de 1978 ficou perdido no tempo.
Com problemas de saúde, Cassiano saiu temporariamente de cena e somente voltou ao disco em 1984 com a gravação de single editado sem a repercussão que seria obtida, sete ano depois, pelo quarto e por ora último álbum de Cassiano, Cedo ou tarde (1991), disco produzido por Líber Gadelha com mix de músicas inéditas e regravações de sucessos com as participações de discípulos como Claudio Zoli, Ed Motta e Sandra de Sá, além de Djavan Marisa Monte.
Em 2001, Cassiano expressou em entrevista o descontentamento com esse disco de dez anos atrás – feito sem o controle artístico do cantor – e anunciou o plano de lançar um quinto álbum solo.
Esse disco inédito nunca veio ao mundo e Cassiano, supostamente recluso em apartamento na cidade do Rio de Janeiro (RJ), virou lenda do soul brasileiro. Um mestre que precisa ser apresentado às novas gerações por conta de discos antológicos como este álbum de soul progressivo e psicodélico Apresentamos nosso Cassiano.