Discos para descobrir em casa – ‘Agora’, Doris Monteiro, 1976


Capa do álbum ‘Agora’, de Doris Monteiro
Wilton Montenegro
♪ DISCOS PARA DESCOBRIR EM CASA – Agora, Doris Monteiro, 1976
♪ Os ouvidos mais antenados do Brasil nunca resistiram ao charme do canto macio de Doris Monteiro – sobretudo na fase em que, contratada pela gravadora Odeon, a cantora carioca atingiu o auge artístico com 13 álbuns editados entre 1966 e 1978.
Agora, álbum lançado em 1976, foi o penúltimo disco dessa fase encerrada dois anos depois com LP dividido por Doris com Lúcio Alves (1927 – 1993), cantor carioca com a qual a artista sempre se afinou pela bossa entranhada na voz de ambos. Mas, de certa forma, Agora fechou ciclo na discografia da artista por ter sido o último álbum solo de Doris Monteiro na Odeon.
Nascida em 21 de outubro de 1934, Adelina Doris Monteiro fez nome e história na música do Brasil com canto sem vibratos e com muita bossa. O timbre aconchegante da cantora se fez ouvir em disco a partir de 1951, década dominada por expansivas rainhas da era do rádio como Angela Maria (1929 – 2018) e Dalva de Oliveira (1917 – 1972), das quais Doris se revelou interessante contraponto com as gravações de sucessos como Se você se importasse (Peter Pan, 1951) e Dó ré mi (Fernando César, 1955).
Essa fase inicial da discografia da cantora totalizou 21 discos de 78 rotações editados pelas gravadoras Todamérica (de 1951 a 1954), Continental (de 1954 a 1957) e Columbia (de 1957 a 1960). Contratada em 1961 pela Philips, gravadora na qual permaneceu até 1965, Doris começou a fazer álbuns mais modernos e arejados, no embalo da revolução da bossa nova, já mostrando maturidade que afloraria com maior intensidade na discografia feita na Odeon.
Produzido por Renato Corrêa sob a benção de Milton Miranda, então diretor artístico da Odeon e avalista da permanência da cantora na gravadora, o álbum Agora se impôs como um dos mais inspirados e coesos títulos da discografia de Doris na Odeon ao ser lançado em 1976 com capa que retratou a cantora em foto de Wilton Montenegro.
Com arranjos do violonista Geraldo Gaspar e do tecladista Ricardo Junior, o álbum Agora foi gravado com músicos do porte do violonista Helio Delmiro, do trompetista Marcio Montarroyos (1948 – 2007), do acordeonista Sivuca (1930 – 2006), do pianista Gilson Peranzzetta, do violonista João de Aquino – creditado como produtor executivo do álbum na ficha técnica do LP de 1976 – e do baixista Luizão Maia (1949 – 2005), entre outros virtuoses.
Esses músicos geniais prepararam a cama macia para que Doris deitasse e rolasse com leveza por repertório irretocável que incluiu Maitá (1973), samba da então emergente cantora e compositora Giovana que Doris abordou com suingue irresistível e com leve alteração em verso da letra original (“Só não pega quem não quer” em vez de “Só não chupa quem não quer”).
Na sequência, a intérprete deu voz a choro-canção de tom seresteiro, Flauta de lata (1976), parceria de Sueli Costa com o poeta Cacaso (1944 – 1987) lançada por Doris neste disco e nunca mais regravada desde então.
Já a abordagem do tristonho samba-canção Partida (João de Aquino e Paulo César Pinheiro, 1976) exemplificou a habilidade de Doris para depurar emoções sem cair em drama que jamais sustentaria com a suavidade da voz.
Essa maciez caiu bem nos alvoroçados sambas Dia de feira (João de Aquino e Jésus Rocha, 1976) e Eu, hein, Rosa! (João Nogueira e Paulo César Pinheiro, 1974), este lançado dois anos antes pelo compositor João Nogueira (1941 – 2000) e regravado três anos depois por Elis Regina (1945 – 1982).
Entre um samba e outro, Doris deu voz a Lugar comum (João Donato e Gilberto Gil, 1975), com toque jazzy de piano no arranjo, sem cair no lugar comum das gravações dessa música então bem recente.
Em clima mais denso, Choro de nada (Eduardo Souto Neto e Geraldo Carneiro, 1975) externou, na cadência íntima do samba-canção, o cansaço e a melancolia que invadiam mentes conscientes de tudo que se passava nos porões do Brasil dos anos 1970.
Cantora que sempre teve faro aguçado para selecionar repertório, Doris Monteiro também caiu serelepe em samba de Carlos Dafé, cantor que ficaria mais associado ao soul a partir de 1977. Parceria de Dafé com Vanderberg, Pra não padecer (1976) foi lançado pela cantora no álbum Agora, dois anos antes de ser gravado pelo autor.
Dois sambas lançados na década de 1950 – Lamento no morro (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1956) e A banca do distinto (Billy Blanco, 1959) – reiteraram a modernidade atemporal do canto de Doris Monteiro. O frescor das onze gravações da cantora irmanou, no álbum de 1976, músicas de antes e as composições daquele ano, já que a maior parte do repertório fez jus ao título do LP Agora.
Música sem letra composta por Ricardo Junior em tributo à cantora, mas gravada com vocais da artista em arranjo orquestral, Tema de Doris fechou o álbum Agora em atmosfera lírica, meio vintage, com a sofisticação que pautou esse último grande disco solo de Doris Monteiro.
Com a saída da cantora da gravadora Odeon em 1978, ano em que Milton Miranda deixou a direção artística da companhia, a carreira fonográfica de Doris Monteiro se desintegrou. A cantora fez um álbum na Continental em 1981 e outro na Sony Music em 1992, sendo o segundo dentro da série temática Academia brasileira de música.
Mesmo ignorada pela indústria fonográfica desde então, a cantora continuou em cena dentro das possibilidades do mercado e, em março deste ano de 2020, voltou ao disco, lançando o álbum ao vivo As divas do sambalanço, registro do homônimo show que Doris vinha fazendo desde 2019 ao lado de Claudette Soares e Eliana Pittman.
A caminho dos 86 anos, Doris Monteiro marcou época na música brasileira por ser, como ratificou o álbum Agora, cantora cheia de charme.