Discos para descobrir em casa – ‘A vida me fez assim’, Teresa Cristina e Grupo Semente, 2004


Capa do álbum ‘A vida me fez assim’, de Teresa Cristina e Grupo Semente
Adriana Pittigliani
♪ DISCOS PARA DESCOBRIR EM CASA – A vida me fez assim, Teresa Cristina e Grupo Semente, 2004
♪ Boa parte do público que, de casa, vem se aglomerando de madrugada nas concorridas lives de Teresa Cristina talvez desconheça que, em 2020, essa cantora e compositora carioca já completa 25 anos em cena. A partir de 1995, a artista pavimentou caminho que ganhou o primeiro impulso em 1998 quando Teresa passou a cantar samba no Bar Semente, na Lapa, polo da boemia carioca.
Projetada do Semente para o circuito carioca de samba, Teresa foi convidada por João Augusto – diretor da gravadora Deck – para debutar em disco com gravação de álbum duplo dedicado ao cancioneiro do compositor Paulinho da Viola.
Convite aceito, Teresa deixou boa impressão ao lançar em 2002 o reverente tributo A música de Paulinho da Viola, gravado com o Grupo Semente, boa companhia da cantora nas apresentações no bar da Lapa. Mas foi com o álbum seguinte, A vida me fez assim (2004), produzido por Paulão Sete Cordas e também gravado pela cantora com o Grupo Semente, que Teresa começou a delinear uma assinatura artística mais singular. Até porque foi neste disco, também editado pela Deck com capa em que se via ao fundo os Arcos da Lapa, que a cantora se apresentou como promissora compositora na própria discografia.
Samba desde então lembrado nas rodas e redes, Candeeiro (Teresa Cristina, 2002) foi reacendido pela autora no álbum A vida me fez assim dois anos após ter sido iluminado no álbum coletivo O samba é minha nobreza (2002) em gravação feita por Teresa com o percussionista Marcos Esculeba.
Outro destaque da safra inicial da compositora, Acalanto (Teresa Cristina) já sinalizou, na abertura do álbum A vida me fez assim, a devoção da artista às velhas guardas do samba carioca – em especial, aos bambas da Portela, escola de samba do coração de Teresa.
Tanto afeto azul e branco deu a Teresa a honra de compor com Argemiro Patrocínio (1923 – 2003), parceiro da artista no então inédito samba-título A vida me fez assim, emendado na 13ª faixa do disco com o fluente samba Na água do rio (Silas de Oliveira e Manoel Ferreira, 1970), solo vocal de Pedro Miranda, vocalista do Grupo Semente.
Por ter sido alocado como faixa de abertura no disco, o já mencionado samba Acalanto soou como saudação a Paulinho da Viola, fazendo a ponte marítima entre A vida me fez assim e o álbum de estreia da cantora.
Na sequência, a regravação do então esquecido samba Viver (1970) – samba em que o compositor portelense Candeia (1935 – 1978) exaltou a alegria, a vida e o próprio samba – reiterou a ótima impressão deixada pela artista na abertura desse disco em que Teresa também fez jorrar Quantas lágrimas (Manacéa, 1970) com a melancolia também entranhada na interpretação dolente de Lavoura (Teresa Cristina e Pedro Amorim), mais uma prova irrefutável de que a compositora era do ramo.
Com o acompanhamento firme do Grupo Semente, Teresa Cristina voou em segurança no tom seresteiro de A borboleta e o passarinho (Teresa Cristina) e pisou com firmeza no terreiro para revolver raízes do samba com o tempero rural de Pedro e Tereza (Teresa Cristina), faixa que embutiu citação de canto do Terreiro Pai Mujongo da Bahia. A Bahia que Teresa também pôs na roda do disco com medley de sambas à moda do Recôncavo.
Na identidade do álbum A vida me fez assim, Teresa era um só, mas Pedro podia ser tanto Pedro Amorim (bandolinista do Semente) como Pedro Miranda, cantor com quem Teresa remoeu Um calo de estimação (Zé da Zilda e José Thadeu, 1944), pérola pescada pela artista no baú da esquecida dupla Zé e Zilda.
A propósito, com belas surpresas como Sorri (Zé Kétti e Elton Medeiros, 1965) e Peito sangrando (Wilson Moreira e Nei Lopes, 1991), a seleção do repertório do álbum A vida me fez assim evidenciou naquele ano de 2004 a prodigiosa memória de Teresa Cristina – memória aguçada que vem contribuindo em 2020 para atrair espectadores para as lives noturnas dessa cantora que conhece bem a história da música brasileira, sobretudo as joias do samba.
O fecho do álbum com o samba-exaltação Portela (Teresa Cristina e Pedro Miranda) – gravado simbolicamente por Teresa com a velha guarda da escola e com Cristina Buarque, pioneira garimpeira do ouro do samba carioca que popularizara Quantas lágrimas em gravação de 1974 – soou coerente com a dedicação da gravação do majestoso samba O passar dos anos (Teresa Cristina e João Callado) ao bamba portelense Casquinha (1922 – 2018).
Após o álbum A vida me fez assim, Teresa Cristina evoluiu (sobretudo no palco, ganhando presença cênica) e se transformou em outras, chegando a lançar disco em 2012 com o repertório de Roberto Carlos, abordado com o toque do grupo indie carioca Os Outros.
Contudo, de certa forma, quase todos os caminhos seguidos desde então pela cantora e compositora já tinham sido apontados no definidor álbum A vida me fez assim.