Diogo Nogueira retrocede em álbum ao vivo em que volta a soar como mero crooner


Cantor aborda sucessos de Martinho da Vila, Zeca Pagodinho e Jorge Aragão em gravação de show em Porto Alegre. Capa do álbum ‘Diogo Nogueira ao vivo em Porto Alegre’
Reprodução
Resenha de álbum
Título: Diogo Nogueira ao vivo em Porto Alegre
Artista: Diogo Nogueira
Gravadora: Edição independente do artista
Cotação: * * 1/2
♪ Diogo Nogueira oscila desde que se lançou oficialmente como cantor em 2007. Dividido entre honrar a dinastia e atender as demandas do mercado e da própria geração, o filho de João Nogueira (1941 – 2000) vem construindo discografia irregular.
Lançado nesta sexta-feira, 6 de março de 2020, o álbum Diogo Nogueira ao vivo em Porto Alegre simboliza retrocesso em obra fonográfica que alcançou picos de excelência em álbuns mais ambiciosos como Bossa negra (2014) – gravado e assinado com o bandolinista Hamilton de Holanda – e o autoral MunduÊ (2017).
Nesta gravação ao vivo de show, Diogo volta a personificar o cantor de barzinho que dá voz a sucessos alheios para entreter plateias menos exigentes, erro que já havia cometido no registro de show perpetuado no DVD e álbum ao vivo Alma brasileira (2016).
Justiça seja feita: Diogo Nogueira está cantando bem e já se situa bem acima da média dos crooners. E não é de hoje que os progressos do intérprete são nítidos. Pena que a tarimba vocal, adquirida em 13 anos de estrada, seja posta neste disco ao vivo a serviço de repertório preguiçoso.
Neste álbum (bem) captado em show em Porto Alegre (RS), Diogo Nogueira dá voz a sucessos de Jorge Aragão, Martinho da Vila e Zeca Pagodinho, lançando mão de medleys e pot-pourris (no caso de Martinho) para agrupar dois ou mais hits de cada compositor em um único número.
Ocupando toda uma faixa, a abordagem de Disritmia (1974) – sucesso de Martinho da Vila, saudado em cena por Diogo com epítetos como “Rei de Angola“, “Rei do Brasil“ e “Rei do partido alto” – abre espaço para solos de Bira do Trombone e do violonista Rafael dos Anjos, músicos nominados pelo eficiente crooner, orgulhoso da boa banda que o acompanha nessas viagens por obras alheias.
Adornado com cordas (aparentemente sintetizadas), o registro de Um homem também chora (Guerreiro menino) (Gonzaguinha, 1983) esboça pompa amplificada em Força estranha (Caetano Veloso, 1978), canção entoada por Diogo sobre base de samba.
Como se pintasse a própria aquarela brasileira desenhada por Emílio Santiago (1946 – 2013) a partir de 1988, Diogo Nogueira persegue até o passo do Frevo mulher (Zé Ramalho, 1979) após emular clima forrozeiro para transitar no ritmo ágil de Feira de mangaio (Sivuca e Glória Gadelha, 1977). São pisadas (titubeantes) em territórios musicais alheios que soam estranhas na voz de sambista que vem amealhando bom repertório próprio nos últimos anos.
Na variada palheta de cores do álbum Diogo Nogueira ao vivo em Porto Alegre, um samba lançado pelo cantor há dois anos em single avulso, Tá faltando o quê? (Xande de Pilares, Marcelo Batista e Diney, 2018), acaba ficando meio perdido em roteiro pautado por sucessos óbvios.
É pena, pois Diogo Nogueira já mostrou que pode (muito) mais e, como o artista já constrói a própria discografia por vias independentes, é por vontade própria que se apresenta novamente como mero crooner neste dispensável álbum gravado ao vivo em Porto Alegre.