Demorei 21 anos para assistir a Cowboy Bebop e sou grato por isso

Passaram-se 21 anos desde a primeira exibição oficial de Cowboy Bebop na TV e, finalmente, posso concluir que o fato do anime ser tão aclamado pela crítica e pelo público não é à toa. Isso porque demorei exatamente esse período de tempo para assisti-lo, e não me arrependo disso. Nem um pouco.

A produção do diretor Shinichirō Watanabe gentilmente mistura elementos dos gêneros faroeste espacial e neo-noir, que exigem certa maturidade para que sejam totalmente compreendidos. Todas essas categorias têm algo subjetivo além do visual ou ambientação. O faroeste por si só retrata problemas de colonização mal organizada e a ocupação de espaço alheio com poucas restrições, aumentando a liberdade a um ponto criminoso. O neo-noir, subgênero do noir, aborda a ambiguidade das escolhas, a vingança, paranoia, e a linha tênue entre o bem e mal e o certo e errado.

Além dos pré-estabelecidos que dominam a obra, Bebop flerta com outros gêneros cinematográficos, como comédia, terror, suspense e ação. Tudo isso é possível por meio da estrutura narrativa episódica, que consegue contar uma história linear sem necessariamente atrelar um episódio a outro. Tal decisão de roteiro permite que o anime explore diversos universos sem perder a própria essência.

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Também tenho de aplaudir a trilha sonora e visual do anime, que em nada deixam a desejar. Com um gosto musical mais maduro, é possível sentir que o jazz produzido para a obra pela genial Yoko Kanno é feito para destoar um pouco da essência sombria e letargia emocional da série animada. Como espectador, ver emocionantes e belíssimas batalhas de naves espaciais com faixas essencialmente compostas por saxofones, baixos elétricosm e um delicado toque de bateria junto ao piano, beira a perfeição.

A trilha sonora basicamente molda o universo de Cowboy Bebop, dando vida à morte e emoção à melancolia. Ela está presente em todos os momentos possíveis do anime, quase destacando-se como uma personagem em si.

O coração (amargurado) de Cowboy Bebop

Mas não para por aí. Cowboy Bebop é sobre vivência. É sobre crescer, viver e, mais importante, sentir. O anime trata de temas que eu não compreenderia caso eu fosse mais jovem, nem mesmo se desenhassem para facilitar meu entendimento.

É impossível explicar a uma criança, ou a um jovem adulto, no auge da faculdade, que ser adulto é um verdadeiro porre. Que o passado vai nos assombrar, independentemente dos nossos esforços. Que pagar e preparar sua própria comida pode ser um saco. Que, ocasionalmente, ter de lidar com outras pessoas é um esforço descomunal. Que há um tédio opressor em simplesmente existir. Você aprende essas coisas vivendo.

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A linha de pensamento filosófica existencialista pesa, e muito. Você não precisa ser adepto do movimento para se questionar sobre as motivações que levam às suas ações, ou a razão pela qual respira e sente o que sente da forma que sente. Sem resposta palpável, o tédio envolvido ao longo dos dias nos devora.

Fazer algo no qual você é bom não vai ser empolgante, salvas raras exceções: Spike é um piloto genial e um caçador de recompensas superior, mas o desinteresse dele em realizar essas atividades é evidente. Mesmo pilotando naves pelo universo afora, que nos parece empolgante — especialmente por ser algo fora do nosso alcance — não tem graça. É um esforço. É rotineiro. Isso é algo com o qual podemos nos identificar.

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O passado conturbado e o presente apático

Um detalhe que preciso destacar em Cowboy Bebop é a abordagem do tema “amizade”. A maioria dos personagens, em especial Spike, deixa evidente que o ceticismo reina quando trata-se de relacionamentos humanos. Certamente, isso acontece por causa de experiências passadas — a relação conturbada dele com Vicious e o interesse romântico e impossível com Julia.

Ao longo do tempo, aprendemos muito sobre o assunto e, infelizmente, os aspectos negativos de amizades e relacionamentos (em especial, as falhas), são as que sobressaem. Nem todas funcionarão. Algumas podem simplesmente sumir, enquanto outras fazem questão de tornar-se uma lâmina afiada apontada para seu rosto. E nosso querido Spiegel passa por isso.

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O que ele não percebe é que a muralha construída por ele devido às circunstâncias anteriores impede que ele reconheça que as pessoas próximas à ele, de fato, são amigos e importam-se com o bem-estar dele. Acreditando estar sozinho no universo, ele parece cegar-se às inúmeras vezes que é resgatado por Jet ou Faye, e não se atenta ao que a forma como eles existem na vida dele representa.

Há um certo orgulho envolvido na falta de expressividade em relação ao apreço pela companhia um do outro. Spike, Jet e Faye tentam disfarçar a preocupação um com o outro, talvez como uma forma de blindar-se de eventuais decepções, mas também acabam por bloquear a possibilidade de um relacionamento efetivamente construtivo e positivo. Não é fácil perceber que é preciso cair para levantar, e mesmo que isso esteja claro, não é fácil estar disposto a eventualmente cair de novo. Insistência nesse tipo de pensamento nos leva a crer que somos seres incapazes de uma verdadeira socialização e que não podemos contar com ninguém quando, na realidade, não é assim.

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No entanto, em meio a tristeza, solidão, cansaço, preguiça e traumas, Cowboy Bebop ensina que isso não precisa ser encarado de forma negativa. O anime reconhece os sentimentos ruins e os retrata com bom-humor ao longo da produção. Há um exemplo claro da aceitação do pessimismo com a ambiguidade com a qual as personalidades similares de Faye e Spike são retratadas ao fim da obra.

Embora passem por situações que levam a consequências e formas de viver e agir semelhantes, Spike decide encarar seu passado — mas não é com coragem na cara e o coração decidido a resolver os problemas causados à sociedade. Não, Spike toma a decisão pensando justamente na oportunidade de acabar com si mesmo e, por fim, aliviar-se de toda a dor e angústia acumulada, que ele não consegue externar ou aliviar. Faye, que implora que ele aja de forma contrária, tem outra perspectiva. Com a necessidade de encarar o passado conturbado e a dor de encontrar-se com as tragédias de outrora, a caçadora de recompensas decide dar mais uma chance, tendo em vista uma nova oportunidade de construir bons momentos. Spike fazia parte desse futuro conjunto. Ele foi egoísta e desnecessariamente escatológico.

Como se não bastasse o amargo fim da obra, despedir-me de Cowboy Bebop também fora, de certa forma, melancólico. Assim como me foi ensinado pelos sutis toques do anime, lembro que o passado têm de ficar no passado. A saudade desse complexo universo é tão imensa quanto o universo em que os personagens vivem, mas aprendi a guardar as coisas boas com carinho no coração, e deixar o que me atormenta para trás. Só se vive uma vez. Spike errou.

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