Daft Punk: como a mecânica dos robôs transformou a música eletrônica


Dupla francesa que terminou após 28 anos fez samples de forma original, resgatou a memória da música eletrônica, impôs sua identidade e foi criteriosa; ouça análise de DJs em podcast. O duo francês Daft Punk, que anunciou seu fim após 28 anos, trabalhou com samples de forma original, teve respeito com a memória da música eletrônica, impôs sua identidade até em vocais robóticos e foi criterioso em um universo de DJs “arroz de festa”.
No novo episódio do podcast G1 Ouviu, o DJ e jornalista do site “Nexo” Camilo Rocha e o produtor Péricles Martins, o Boss In Drama, explicam o que o Daft Punk teve de especial. Ouça acima.
Veja abaixo os principais tópicos que os dois explicaram:
Samples originais e sem preguiça
O Daft Punk criou “música eletrônica que fez sucesso e mesmo assim conseguiu inovar”, define Camilo. “A gente vê muito DJ e produtor bombado por aí, brasileiros também, escolhem os caminhos mais óbvios possíveis”, ele diz.
“Na hora de fazer um remix, é em cima de um som manjado. Ou uma batida embaixo de uma música não tem nada a ver”, ele reclama.
Péricles tem a mesma queixa: “Ultimamente tenho visto como as pessoas usam sample, de uma maneira muito preguiçosa. A pessoa simplesmente pega o sample inteiro, joga uma batida e lança como ‘new disco'”
Mas o Daft Punk faz o oposto. Nos últimos dias, circulou pelo Twitter (inclusive do próprio Boss in Drama), um exemplo de como o duo francês sampleou de maneira totalmente original na produção de “One more time”.
Initial plugin text
“Você vê que eles refizeram, e queriam um timbre. Poderiam ter pegado o sample inteiro e botado uma batida de 128 bpm, e seria um house disco. Mas não seria tão bom quanto ‘One more time'”, diz Péricles.
Memória eletrônica
Camilo ressalta outro legado do duo: “Ter em mente as referências antigas da dance music, que são super ricas.”
“O Daft Punk tem uma música do primeiro álbum que se chama ‘Teachers’, que homenageia os produtores de house de Chicago dos anos 80 e 90”, ele exemplifica.
O DJ também cita a homenagem a Giorgio Moroder no álbum “Random Access Memories” (2013), e a participação de Nile Rodgers no mesmo disco, “mostrando que eles têm um super respeito pela história, pelo que veio antes. Sampleando criativamente e trazendo os caras para participarem.”
Daft Punk, em foto de abril de 2006
Karl Walter/Getty Images North America/AFP/Arquivo
Identidade preservada
O Daft Punk preservou sua identidade – não só usando os capacetes que tiravam o foco da vida de Guy-Manuel de Homem-Christo e Thomas Bangalter e mantinha a atenção na sua música.
Péricles fala sobre a “voz robótica”, que não era novidade na música eletrônica, mas que o Daft Punk incorporou como marca de seu som. A questão foi “saber usar essa ferramenta de modo artístico”, ele diz.
“Você escuta a música do The Weeknd com o Daft Punk (“I feel it coming”), ouve o Talk Box e o Vocoder (ferramentas de alteração de voz). É uma voz descaracterizada, não humana, mas você sabe que são eles”, ele diz.
Sem oba-oba e com critério
“Eles nunca foram ‘arroz de festa’, como certos produtores e DJs que pegam de tudo para remixar. Eles escolhiam meio a dedo para quem iam fazer”, conta Camilo. Um exemplo de trabalho escolhido com critério é o remix de “Life is sweet”, dos Chemical Brothers.
“Mas o projeto paralelo mais bem-sucedido foi o Stardust (trio do qual Thomas fazia parte), com ‘Music Sounds Better With You’.” O single já tinha elementos que mostravam, antes de o Daft Punk fazer um sucesso mais pop, que eles tinham um potencial de ir além das pistas de dança, ele diz.
Vídeos – Entenda assuntos do mundo cultural no Semana Pop: