Dadi mistura tons de bossa, pop e groove para chegar à cor do som do disco solo ‘Todo vento’


Artista apresenta parcerias com Arnaldo Antunes, Fausto Nilo, Rita Lee e Ronaldo Bastos em repertório autoral. Capa do álbum ‘Todo vento’, de Dadi
Leo Aversa com arte de Batman Zavarese
Resenha de álbum
Título: Todo vento
Artista: Dadi
Edição: Dadi’s Records
Cotação: * * * 1/2
♪ É natural que o primeiro som ouvido em Todo vento – disco autoral lançado por Dadi nesta quinta-feira, 16 de setembro, com repertório inédito – seja o toque largo e funkeado de um baixo. Por mais que também seja compositor, eventual cantor e habilidoso multi-instrumentista, Eduardo Magalhães de Carvalho é artista primordialmente associado ao toque do baixo.
É o baixo que aponta o groove que pauta Um pouco pro santo (Dadi, Arnaldo Antunes e Marisa Monte), a primeira das sete músicas que compõem a safra autoral de Todo vento, disco produzido pelo próprio Dadi.
Um pouco pro santo evolui sem perder o groove e caminha para a levada de um blues, em diálogo com a segunda música, Os aromas da floresta (Dadi e Arnaldo Antunes), de suingue similar.
Contudo, Dadi Carvalho – como também é conhecido este jovial senhor carioca de 69 anos completados em 16 de agosto, há exatamente um mês – vai além do groove em Todo vento, disco situado na tênue fronteira entre álbum e EP.
Dadi também usa tons de bossa e pop para chegar à cor do som desse disco de tonalidade variada, bem traduzida pela capa que expõe arte criada por Batman Zavarese a partir de foto de Leo Aversa.
Pilotando baixo, guitarra, teclados e violões, Dadi tira som azeitado que por vezes ofusca a opacidade da voz do artista, músico excepcional que sempre se mostrou sem vocação para o canto em discografia solo que contabiliza quatro títulos, sendo que o sucessor de Todo vento, Bem aqui (2008), foi lançado no Japão há 13 anos, tendo chegado ao Brasil em 2010.
Dadi Carvalho reúne sete músicas autorais no disco ‘Todo vento’
Leo Aversa / Divulgação
Disco que aposta na diversidade, Todo vento sintetiza os caminhos desse artista que, há 50 anos, tem o nome incluído nos verbetes mais importantes da história da música brasileira.
Além de integrado a comunidade do grupo Novos Baianos de 1971 a 1975, Dadi fez parte da banda de Jorge Ben Jor nos anos 1970 (década luminosa na trajetória de Ben), é músico fundamental da banda A Cor do Som – uma das mais perfeitas traduções de pop brasileiro antes de o mercado fonográfico nacional abrir as portas para o rock – e foi baixista do grupo Barão Vermelho antes de ser arregimentado para tocar com Caetano Veloso e de trabalhar regularmente com Marisa Monte, sendo colaborador importante da tribo tribalista.
Veículo para a exposição (sem exibicionismo) do virtuosismo de Dadi no toque da guitarra, a canção-título do álbum, Todo vento, é parceria de Dadi com Arnaldo Antunes, coautor de três das sete músicas do disco. Detalhe: o baixo da faixa é o de Jesse Harris, músico recorrente na ficha técnica do disco ao lado do baterista Paulo Braga e da vocalista Maria Paz.
Declaração de amor ao Rio de Janeiro (RJ), cidade natal do Leãozinho, Pela praia ou pela lagoa honra o título da composição – parceria de Dadi com o poeta cearense Fausto Nilo – e soa como canção à beira-mar, engolfada pela bossa carioca, em tons sutis traduzidos pela marcação da percussão de Pretinho da Serrinha.
Na sequência, o disco Todo vento bafeja a atmosfera vintage da apaixonada canção Os olhos dela, composta por Dadi com letra de outro poeta, Ronaldo Bastos, fluminense de Niterói (BA). Gravada com o toque do trio italiano InventaRio, a balada Os olhos dela se impõe como a música mais inspirada do disco.
Contudo, Lady girl – parceria de Dadi com ninguém menos do que Rita Lee – há de seduzir muitos ouvintes pela batida pop e pela verve dos versos poliglotas de Rita.
Por fim, o tema instrumental Sol fecha o disco Todo vento, ecoando A Cor do Som e emanando as boas energias que sempre iluminaram o cancioneiro e os caminhos de Dadi Carvalho, rara unanimidade no universo pop brasileiro.