Crise financeira, falta de internet, problemas emocionais: na pandemia, alunos de baixa renda desistem do Enem e abandonam cursinhos populares


Instituições de ensino chegaram a perder mais da metade dos estudantes. Eles alegam que, sem computador e com renda reduzida, não conseguem acompanhar aulas virtuais. Círculo pedagógico no cursinho popular Marielle Franco, em Natal (RN). Após a pandemia, mais de 150 alunos abandonaram as turmas.
Divulgação/Guilherme Prado/Umbu Comunicação
Cursinhos populares, que preparam jovens de baixa renda para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), registraram uma queda significativa no número de alunos durante a pandemia do novo coronavírus. Desde março, com a suspensão das atividades presenciais e a adoção de aulas on-line, cada vez mais estudantes têm abandonado as instituições de ensino.
O G1 ouviu coordenadores e alunos de dez cursinhos populares, em São Paulo, Minas Gerais, Ceará, Rio Grande do Norte, Amazonas e Rio Grande do Sul. São projetos formados por professores voluntários, que oferecem aulas, em geral, gratuitas (alguns cobram uma mensalidade simbólica, para pagamento de despesas, sem lucro).
Entre os motivos que levaram os jovens a desistir dos estudos para o Enem, estão:
falta de computadores e de acesso à internet;
ausência de um ambiente adequado para o estudo, em casa;
problemas financeiros, que os fazem trabalhar mais, para ajudar a família;
instabilidade emocional.
No cursinho Florestan Fernandes, em São Paulo, havia 800 alunos no início de 2020 – três meses depois, restam apenas 40. “A evasão é normal, mas não nessa proporção. Nossos estudantes não têm um acesso de qualidade à internet. Mais de 60% deles só usam celular, com pacote de dados bem limitado”, afirma o coordenador Bruno Sampaio, de 23 anos.
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“Essa situação gera também uma fragilidade emocional. Os alunos têm demonstrado ansiedade e preocupação. Eles são da periferia, precisam ajudar em casa, cuidam dos irmãos, vão trabalhar. Não conseguem mais estudar”, completa.
Cursinho popular Florestan Fernandes, em São Paulo, começou o ano com 800 alunos – agora, restam 40.
Arquivo pessoal
O cursinho é gratuito e funciona aos sábados, em parceria com a faculdade de história da Universidade de São Paulo (USP). Como a instituição está fechada, as aulas passaram a ocorrer de forma virtual – os 50 professores, todos voluntários, montam slides com a matéria, organizam encontros por uma plataforma on-line e dão aulas gravadas ou ao vivo.
Aqueles que estão conseguindo participar das atividades remotas enfrentam dificuldades. Lucas Fernandes, de 20 anos, aluno do Florestan, divide o notebook com seus cinco irmãos em casa – todos eles têm aulas virtuais e precisam do equipamento. “Não consigo dedicar muito tempo aos estudos. Tento usar o celular, mas a tela é pequena e os aplicativos de atividade são muito instáveis. Preciso ficar em um ponto específico da casa, para ter sinal de internet”, diz.
“Mas não sou só eu: a maioria dos jovens periféricos convive com esses problemas. Meus amigos precisam trabalhar, é isso ou passam fome. Nossa esperança de conseguir uma vaga na universidade pública fica menor. A gente já matava um leão por dia, agora são dez”, afirma Lucas.
Também em São Paulo, o cursinho popular da Acepusp perdeu 400 alunos desde o início da pandemia – de 600 estudantes, restaram 200. Segundo a coordenadora Ingrid Peixoto, de 24 anos, as principais justificativas para a desistência são a falta de computador, de local para estudar e de apoio emocional. “O fato de o Enem nem ter data ainda gera uma desmotivação. A gente tem apoio de psicólogos, mas está muito difícil segurar os jovens aqui”, diz.
No Projeto 6 de Março, em Maracanaú (CE), a primeira semana de aula de 2020 foi presencial.
Arquivo pessoal
Em Maracanaú, no Ceará, o Projeto Seis de Março tinha 60 alunos; agora, cerca de 15 participam das atividades virtuais. Kathleen Barros, de 24 anos, é coordenadora e professora de português no cursinho. Segundo ela, os adolescentes não conseguem se adaptar ao formato on-line, seja por dificuldade de acesso a tecnologias ou por falta de concentração.
“Tentamos montar grupos menores, com tutores, para o contato dos professores ser mais direto. Mas não tem jeito, não estamos conseguindo fazer um trabalho mais efetivo. O jeito é esperar a vacina”, diz.
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Acesso às tecnologias
Gleicy Souza, de 18 anos, está no ensino médio de uma escola pública em São Paulo (SP) e, aos sábados, estuda no cursinho popular Mafalda. Ela usava apenas o celular para se preparar para o Enem.
“A conexão do wi-fi caía a toda momento, era impossível ter um dia normal de aula. A tela é pequena, então fico com os olhos cansados, e não dá para ler os slides dos professores. Também não consigo usar algumas funções que eu teria no computador, como editar um arquivo”, conta.
Além de Gleicy, outros vinte alunos do Mafalda também não tinham notebooks ou computadores de mesa em casa. Para solucionar o problema, o cursinho organizou uma campanha de doação de equipamentos.
“Já conseguimos quinze máquinas. A ideia é emprestá-las para os alunos durante a pandemia e, depois, deixá-las na sede, para atividades internas”, conta Talita Amaro, coordenadora do Mafalda.
Aula presencial, antes da pandemia, no cursinho Pró-ExaCta, em Fortaleza (CE).
Arquivo pessoal
Em Fortaleza, o cursinho popular Pró-ExaCta também observou uma queda grande no número de alunos, por causa da dificuldade de acesso a tecnologias. De 280 matriculados no início do ano, apenas 40 continuam estudando. O coordenador Gerson Oliveira, de 19 anos, conta que a equipe está adaptando as estratégias de ensino, para tentar frear a evasão.
“Começamos com aulas gravadas, mas elas exigem um acesso estável à internet. Agora, damos aulões semanais e colocamos no Youtube. Estamos também alimentando grupos de whatsapp com materiais de estudo e resumos”, diz.
Como muitas operadoras de telefonia têm planos de dados com acesso ilimitado ao aplicativo de conversas, ele acaba sendo uma opção mais viável para os jovens de baixa renda.
Já as aulas ao vivo, por consumirem mais dados de internet, são frequentemente descartadas. É o que conta Veridiana Santana, de 23 anos, diretora institucional do cursinho da Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP). De 170 estudantes da instituição, 20 afirmaram não ter acesso à internet e 37 não responderam o questionário.
“Perdemos esse grupo. E os que continuaram até têm wi-fi, mas de qualidade ruim. É mais democrático gravar as aulas em vídeos curtos e enviá-las por whatsapp”, diz.
Veridiana Santana, de 23 anos, é diretora institucional do cursinho popular da Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP).
Divulgação
Dificuldades financeiras
Tatiane Ribeiro, de 31 anos, é coordenadora do cursinho Marielle Franco, em Natal (RN). Segundo ela, as dificuldades financeiras motivaram a desistência de mais de 150 alunos.
“Nossa preocupação central sempre foi a evasão. Agora, está ainda mais difícil. As dúvidas sobre a matéria do Enem foram substituídas por perguntas de como conseguir o auxílio-emergencial. Eles precisam ajudar no sustento, então não têm cabeça para focar nos estudos”, diz.
O cursinho continua enviando material pedagógico por whatsapp, mas o foco também passou a ser o amparo social dos alunos. Segundo Tatiane, estão sendo organizadas campanhas de arrecadação de alimentos, de produtos de limpeza e de remédios. “É do que eles mais reclamam”, diz.
Naomi Neves, de 17 anos, procurou o cursinho popular Mafalda para compensar a baixa qualidade de ensino da escola pública onde estuda, em São Paulo. “A gente não aprende muita coisa, ainda mais para o vestibular. Eu não teria condições de passar em um vestibular assim. Queria me dedicar ao cursinho, mas estou sem cabeça. Meu pai é pintor e está desempregado; estamos sem o Bolsa Família. Eu trabalho, mas nossa renda é baixa”, diz.
A preocupação com a crise financeira levou Roberta Martins, de 36 anos, a desistir do Enem. Ela é uma mulher transexual, que sonha, desde 2003, em entrar na faculdade. Neste ano, descobriu um cursinho popular gratuito – o Conceição Evaristo, em Belo Horizonte (MG).
Roberta Martins desistiu do Enem depois de ficar sem renda durante pandemia.
Arquivo pessoal
“Estudei só por uma semana, mas precisei parar quando veio a pandemia. Trabalho como freelancer em bares e restaurantes, mas estão todos fechados. Fiquei sem renda nenhuma”, conta.
“Consegui duas cestas básicas de doação. Mas minha situação financeira me preocupa, estou endividada, não dá para ter preocupação com os estudos agora. Não desisti do meu sonho, só adiei”, diz.
Instabilidade emocional
Thaynara Barbosa, de 16 anos, diz que já pensou em desistir tanto da escola, quanto do cursinho popular Florestan Fernandes. “O ensino à distância está sendo uma tortura para mim. Moro na zona periférica, é obra na rua, vizinho com som alto, sinal de internet que cai toda hora. Minha mãe me chama para ajudar em casa, meu irmão quer usar o computador, é uma briga”, conta.
Thaynara Barbosa, de 16 anos, pensou em desistir tanto da escola, quanto do cursinho popular.
Arquivo pessoal
Ela relata que os problemas emocionais dificultam seu preparo para o Enem. “Dá vontade de trancar tudo, mas não posso. A gente vive na incerteza, isso ataca minha ansiedade. Estou esgotada mentalmente, com compulsão alimentar”, afirma. “A sorte é que a empresa onde meu pai trabalha nos dá convênio médico, então faço acompanhamento psicológico.”
A preocupação com a instabilidade emocional dos alunos, inclusive, fez com que cursinhos populares organizassem formas de amparo aos jovens. No Conceição Evaristo, ocorrem encontros virtuais semanais com psicólogos.
Foto da turma de 2019 no cursinho Conceição Evaristo, em Belo Horizonte (MG).
Arquivo pessoal
“Na quarentena, vários se desmotivaram. A gente tentou aulas on-line, mas a adesão era muito pequena. Percebi que a prioridade, agora, não é o conteúdo didático, e sim os cuidados com a saúde mental dos alunos”, afirma Octávio Ribeiro, coordenador e fundador do Conceição Evaristo.
“O cursinho organizou uma espécie de terapia, para escutar o que eles têm a dizer. As dificuldades não esbarram apenas na acessibilidade digital, mas em questões de necessidade básica.”
No Pró-ExaCta, em Fortaleza, os professores também estão recebendo acompanhamento psicológico. “Eles também passam por dificuldades. E nossos alunos ficam nos perguntando se ainda têm alguma chance de passar no Enem. Estão preocupados”, diz Gerson, coordenador.
Falta de costume
Pelo segundo ano seguido, Jonata Pereira, de 19 anos, estuda no cursinho popular da FGV e tenta ser aprovado em história. Ele trabalha como ajudante de pedreiro, mesmo durante a pandemia. “Antes, eu estudava toda hora. Agora, trabalhando, fica mais difícil. Chego em casa muito cansado, não consigo me concentrar”, diz.
Jonata conta que não consegue se adaptar ao formato de ensino remoto. “Eu até tenho notebook, mas não me acostumo. Na aula normal, eu tirava as dúvidas na hora, falava com os professores. No on-line, é tudo diferente”, diz.
Aula presencial no cursinho popular da FGV-SP.
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A falta de engajamento na comunicação com os docentes também é observada por Camila Inara, uma das coordenadoras do projeto PET Cursinho da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Segundo ela, há um canal de interação, mas é pouco usado pelos estudantes. “Eles comentam só com um ‘ok’ ou um ‘obrigado’”, diz.
O fato de as aulas presenciais terem sido interrompidas logo no início do ano letivo também impossibilitou a aproximação entre professores e alunos, diz Alice Maestri, de 26 anos, professora de matemática no cursinho DEDS-UFRGS, em Porto Alegre (RS).
“É importante ver a carinha dos alunos para saber se estão aprendendo. Mas não deu tempo de criar um laço com eles, já que tivemos apenas uma semana de aula”, conta. “Estar longe é muito diferente. A gente percebe a falta de motivação deles, tenta chamá-los de volta, mas é difícil”, completa.
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