Corridas compartilhadas em Chicago caem após apps elevarem preços


Tarifas para passageiros que fazem viagens sozinhos permaneceram estáveis, segundo análise feita com informações das companhias, que são obrigadas a compartilhar dados por lei local. Lei de Chicago exige que empresas divulguem dados sobre tarifas em corridas e permitiu uma análise que mostrou aumento no valor das tarifas em corridas compartilhadas.
Mike Blake/Reuters
O valor que as empresas Uber e Lyft cobram dos usuários ao longo do dia é um dos segredos mais bem guardados do Vale do Silício. Mas uma lei em Chicago que exige que as empresas divulguem dados sobre as tarifas mostra como essas empresas estão tentando gerar rentabilidade.
Uma análise feita pela agência Reuters dos dados mostra que as tarifas das corridas compartilhadas na cidade aumentaram significativamente no ano passado, enquanto as tarifas para passageiros que fazem viagens sozinhos permaneceram estáveis.
Os aumentos de preços das corridas compartilhadas afetam predominantemente os bairros de baixa renda de Chicago, que é onde a maioria das corridas do tipo é reservada, segundo a análise. Durante esse período de aumento de tarifas o número de corridas compartilhadas caiu.
Os dados de Chicago não diferenciam as corridas operadas por Uber, Lyft ou pela rival menor, uma empresa chamada Via. Dados da Second Measure, companhia que monitora as despesas com cartões de crédito, mostram que a Uber controla uma participação de mercado de aproximadamente 72% em Chicago. Os dados também não indicam se estratégias semelhantes estão sendo implementadas em outras cidades.
As mudanças nas tarifas em Chicago mostram uma tentativa de reduzir os descontos para os clientes, a fim de ajudar a convencer os investidores de que o transporte urbano por aplicativo pode ser um modelo de negócios lucrativo.
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A análise contou com mais de 1 milhão de viagens em Chicago entre janeiro e setembro de 2019 — os únicos trimestres completos para os quais a cidade atualmente disponibiliza as informações — descobriu que as tarifas por milha aumentaram 13% em corridas compartilhadas. Mas permaneceram inalterados para corridas particulares.
Enquanto isso, as corridas compartilhadas caíram para cerca de um terço de todas as caronas em um grupo de bairros menos ricos de Chicago no terceiro trimestre. No primeiro trimestre, as corridas compartilhadas representavam cerca de metade de todas as viagens neste grupo de bairros.
Apresentadas à análise da Reuters, representantes da cidade afirmaram que interpretam os dados como uma tentativa das companhias de mudarem o comportamento dos usuários de seus aplicativos.
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Mas a mudança traz riscos políticos, já que as cidades desde Chicago até Londres responsabilizam as empresas de aplicativos por congestionamentos, tratamento inadequado de motoristas e violação de direitos dos passageiros. Na segunda-feira, autoridades de Londres retiraram a licença da Uber pela segunda vez em pouco mais de dois anos devido a um “padrão de falhas” de segurança.
O que dizem as empresas?
Depois de revisar as descobertas dos dados de Chicago, a Uber disse que tradicionalmente viu perdas em seu segmento de caronas compartilhadas, chamado Pool. No início deste mês, o presidente-executivo, Dara Khosrowshahi, disse que a Uber estava “perdendo quantias significativas” devido a grandes descontos nessas viagens.
“Queremos que o Pool esteja disponível para o maior número de pessoas e em tantas cidades quanto possível, e para isso deve ser financeiramente sustentável nos próximos anos” através de medidas que incluem preços e algoritmos melhores para encontrar mais usuários para o pool, afirmou um porta-voz da Uber.
A Lyft se recusou a comentar sobre sua estratégia de preços, mas disse que as caronas compartilhadas aumentaram o acesso ao transporte acessível e confiável, principalmente em bairros pouco servidos por transporte público e por táxis.
A Lyft afirmou ainda que, dado que a Uber controla quase dois terços do mercado de Chicago, os dados refletem mais de perto a estratégia da Uber e observou que seus próprios números não mostram uma diminuição nas caronas compartilhadas.
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A Via, que é focada quase que exclusivamente em corridas compartilhadas, não comentou o assunto, mas disse que sua própria interpretação dos dados de Chicago é consistente com a análise.
Empresas contra prefeitura
A prefeita de Chicago, Lori Lightfoot, propôs impostos sobre serviços de transporte para combater o congestionamento, aumentando o imposto para corridas individuais e diminuindo a carga sobre as compartilhadas. Ela também está cobrando uma nova sobretaxa de US$ 1,75 sobre viagens feitas durante a semana no centro da cidade.
Uber e Lyft, que apoiaram impostos sobre o congestionamento em Nova York e em outras cidades, estão lutando contra a proposta de Lightfoot, dizendo que é injusto não incluir serviços regulares de táxi e prejudicar desproporcionalmente os moradores de baixa renda.
As companhias também disseram que a medida de Lightfoot ajuda algumas das partes mais ricas da cidade no norte, dominadas por moradores brancos, enquanto prejudica predominantemente negros e hispânicos no sul e no lado oeste.
Lightfoot, a primeira prefeita afrodescendente de Chicago, rejeitou as alegações e acusou a Uber de provocar tensões raciais em oposição à proposta.
Uber e Lyft apresentaram um plano de tributação alternativo que foi rejeitado pela cidade por fazer muito pouco para aliviar o congestionamento no centro. A Uber disse em um comunicado que desejava que Chicago removesse as taxas das corridas compartilhadas.
A Uber não comentou diretamente as acusações da prefeitura, mas disse que não faz sentido que passageiros em viagens privadas no centro não paguem impostos enquanto os que compartilham viagens longe do centro vão ter de pagar.
Já a Lyft disse que a prefeitura está “tentando criar uma distração em relação a recuos de promessas de campanha e aumentando o custo de transporte em Chicago para as comunidades menos favorecidas”.