COP26 é oportunidade para o Acre mostrar bons exemplos que já desenvolve na Amazônia, avaliam especialistas


Acre foi pioneiro na criação de uma legislação que regulamenta a captação de recursos para o mercado de carbono. Com menos de 6% do seu território alterado, terra indígena no AC pode se tornar geradora de créditos de carbono em potencial
Eufran Amaral/Arquivo pessoal
Pioneiro na criação de uma legislação que regulamenta a captação de recursos para o mercado de carbono ainda em 2010, o Acre tem a oportunidade de mostrar durante a COP26, a conferência global do clima, os bons exemplos que já desenvolve na Amazônia, segundo avaliação de especialistas.
De olho na crise climática, o mundo busca medidas para reduzir a emissão de gases poluentes e uma opção é justamente a regulamentação do mercado de créditos de carbono.
As regras para esse mercado vão ser debatidas na COP26, em Glasgow, na Escócia, que começa no fim do mês. Em um documento, 115 grandes empresas brasileiras pedem que o país seja protagonista dessa negociação.
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Potencial em terra indígena
Com o trabalho voltado para redução do desmatamento, reaproveitando áreas já alteradas, a terra indígena Puyanawa, na cidade de Mâncio Lima, no interior do Acre, apresenta potencial para gerar créditos de carbono. Com uma área de mais de 24 mil hectares, apenas 5,8% desse território foi alterado.
O mercado de carbono funciona da seguinte forma: uma organização que emite os gases paga outra que gera créditos para neutralizá-los. Assim, o carbono emitido é compensado. A cada uma tonelada métrica de CO2 não emitida é gerado um crédito. As regras desse mercado, entretanto, dependem da gestão de cada país.
“Os indígenas protegem a floresta, evitam desmatar e fazer a emissão de gases que contribuem com o aquecimento global, a gente mede quanto que eles deixaram de emitir e essa quantidade que deixaram de emitir a gente transforma em créditos de carbono para empresas e governos que têm passivos, ou seja, emitem muito. Então, hoje é um mercado em franca ascensão e que pode ajudar principalmente comunidades vulneráveis como os indígenas”, explicou o pesquisador da Embrapa, Eufran Ferreira do Amaral.
O comércio de carbono deve movimentar 167 bilhões de dólares por ano em 2030. E o Brasil poderia tirar proveito das florestas e da agricultura para receber uma boa parte desses investimentos.
Estima-se que o Brasil tenha, pelo menos, 30 a 40% desse mercado. Então, o país poderia, em 2030, já negociar de 30 a 70 bilhões de dólares. Na COP26, a expectativa é que seja criada uma regulamentação internacional para o crédito de carbono.
“O estado do Acre, por não ter essa regulamentação internacional, há dez anos criou o seu próprio sistema e hoje ainda é inovador e tem um potencial tamanho para pequenos, médios e grandes produtores captarem recursos para produzirem ainda melhor e continuar conservando as florestas e garantir que o Acre contribua efetivamente para amenizar essa questão das mudanças climáticas”, informou Amaral.
A foto mostra um Sistema Agroflorestal dentro da reserva Chico Mendes, no estado do Acre, e, ao fundo, uma floresta
Flávio Forner/Divulgação
Desafios
Mesmo já tendo bons exemplos que podem ser apresentados na conferência, a pesquisadora da Universidade Federal do Acre, Sonaira Souza da Silva, disse que o estado também enfrenta desafios, como encontrar formas de extrair as riquezas que a floresta oferece de forma sustentável.
“É preciso conciliar e encontrar formas de desenvolvimento que não sejam mais os padrões visualizados na Amazônia como a pecuária extensiva, monocultivos, mas que a gente pense em um desenvolvimento mais diversificado que possa, de fato, entender as potencialidades da floresta em pé, no seu extrativismo, na sua produção de madeira, mas com sistemas agrícolas que sejam mais sustentáveis”, afirmou a Sonaira.
Para a pesquisadora, o Acre pode levar para a COP26 exemplos de diversificação produtiva do estado que se baseiam na economia florestal, na preservação do patrimônio natural e integração de cadeias produtivas extrativistas.
“O estado do Acre pode levar para COP uma trajetória de longo prazo de modelos mais sustentáveis que visem cadeias produtivas da borracha, da seringa e potencializar cadeias como a do açaí, de sementes florestais. Nós temos recursos para fazer mudanças nesses modelos de desenvolvimento, temos políticas públicas e instituições que podem fomentar isso, temos pesquisadores e universidades fortes que podem contribuir”, acrescentou.
Acre tem agendas marcadas na COP26, diz governador
O governador do Acre, Gladson Cameli, diz que o estado já tem agendas marcadas e que vai levar a realidade do estado para os outros países. Para ele, é importante encontrar alternativas para conciliar o agronegócio com a sustentabilidade.
“Estou muito otimista, todos os governadores irão. Vamos mostrar que cada vez mais cumprimos com o nosso dever, valorizar e cuidar do meio ambiente, mas ao mesmo tempo gerar emprego com o agronegócio porque não precisa desmatar para fazer um agronegócio sustentável”, pontuou Cameli.
Longe das discussões dos líderes mundiais, o aposentado Davi Elias Abugosh sonha em ter a Amazônia preservada para as gerações futuras. Ele levou a neta para conhecer o horto florestal, parque urbano em Rio Branco, um lugar onde é possível respirar o ar puro, repleto de árvores e mostrar a importância da sustentabilidade.
“Agora a gente sabe que quem faz isso é o próprio ser humano que precisa de dois hectares para um roçado e desmata 100. Então a gente vai pagar no futuro né? Nossos dirigentes precisam pensar que temos a Amazônia, mas outros países não têm e precisam dela. Então precisamos preservar para os nossos filhos terem no futuro”, disse o aposentado.
A missionária Núbia Torres também falou sobre a importância da preservação. “É por isso que está vindo essas secas, não é outra coisa, é o desmatamento. As árvores preservam nossos rios. É proteger, não derrubar essas árvores que deixam o nosso ar puro.”
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