Conheça o ‘sertanejo jurídico’ e a advogada que inspirou o hit ‘Liberdade provisória’


Música de Henrique & Juliano está há 3 meses em 1º lugar no Brasil e segue onda de letras sertanejas sobre o mundo das leis. Podcast conta história da composição e analisa hits. Mandados de prisão, operações policiais, contratos de união, divisão de bens, abandono de incapaz, legítima defesa: podia ser assunto de tribunal, mas são temas de vários sucessos sertanejos atuais.
O “sertanejo jurídico” já tem até um hit supremo. “Liberdade provisória”, cantada por Henrique e Juliano, está há três meses em primeiro lugar nas paradas de streaming do Brasil.
O refrão compara as idas e vindas de um casal a um regime de liberdade provisória. Com essa história, chegou ao 1º lugar no Spotify no Brasil em 13 de dezembro. Teve ligeira queda no carnaval, mas logo voltou ao topo.
O podcast G1 Ouviu (ouça acima) descobriu a musa judicial de “Liberdade provisória”: a advogada Thays Brom, namorada do compositor Henrique Casttro.
Ele ouviu Thays falando o termo jurídico e resolveu escrever um sertanejo a partir dele. Mas o processo de autoria foi conturbado: levou mais de um ano e teve uma primeira versão rejeitada.
Os namorados Thays Brom, advogada, e Henrique Casttro, coautor de ‘Liberdade provisória’
Arquivo pessoal
“Liberdade provisória” ainda foi alvo de um drama contratual. Até a última hora, seria gravada pelo outro coautor, Elvis Elan. Dias antes de Henrique & Juliano gravarem um DVD, Elvis foi convencido a assinar o contrato de exclusividade para a dupla.
Assim o hit entrou no rol do “sertanejo jurídico”, que também tem “Regime fechado” (Simone e Simaria), “Contrato” (Jorge e Mateus), “Seu polícia” (Zé Neto e Cristiano), “Abandono de incapaz” (Marília Mendonça) e outras.
O fenômeno dos versos legalistas foi notado nas redes sociais desde antes de “Liberdade provisória”. Mas o comentário que mais viralizou foi feito no Twitter no fim de 2019, já depois de a música sair.
Initial plugin text
Dois Henriques filhos do Tocantins
“Liberdade provisória” foi consagrada na voz de Henrique e Juliano, dupla que saiu do Tocantins e estourou pelo Brasil. Mas ela surgiu de outro cantor e compositor tocantinense chamado Henrique.
Henrique Casttro tem 27 anos, nasceu em Pedro Afonso (TO), mas mora na capital da música sertaneja brasileira. “Cheguei em Goiânia 10 anos atrás com um violão, R$ 30 no bolso e um sonho de viver de música”, ele diz ao G1.
“Quando cheguei , nem sabia que era possível passar uma música para um artista. Eu achava que cada cantor fazia sua própria música. Era muito inocente.”
Ele foi se virando e fazendo amigos, como a dupla do xará conterrâneo Henrique e Juliano. Também conheceu um parceiro de composições, o baiano Elvis Elan. Assim, virou compositor requisitado.
Henrique assinou músicas como “Propaganda”, de Jorge & Mateus, “Na cama que eu paguei”, de Zé Neto & Cristiano e “Aham”, de Lucas Lucco.
Papo legal
“Liberdade Provisória” foi feita durante uma fase difícil no namoro (com um “pézinho na bad”, conta Henrique). Mas hoje a relação com Thays Brom, de 26 anos, tem menos drama que a letra do hit.
Em março de 2017, ela ainda era estagiária de um escritório e estava estudando para a prova da OAB. De longe, Henrique ouviu Thays falando sobre uma petição.
“Eu só ouvi ‘liberdade provisória’ no meio da conversa dela. E eu tava ‘na lua’ né? E aí a gente pensa ‘n’ coisas”, ele explica. Nessa viagem, ele pensou que dava um bom título de música.
‘O que eu vou fazer com essa tal liberdade provisória?’
O título estava definido. Junto com Elvis, ele tentou pela primeira vez fazer “Liberdade provisória”. Mas não foi fácil. Eles terminaram e até levaram a composição para uma audição com músicos de Goiânia, mas ninguém se interessou.
O cantor e compositor Henrique Casttro entre a dupla Henrique & Juliano
Reprodução/Instagram/henriquecasttro
A primeira versão era completamente diferente do futuro hit (no podcast, Henrique lembra um trecho da canção esquecida). Naquela letra, “liberdade provisória” era uma trégua para o pensamento de um cara que não consegue esquecer uma mulher. Era “nada a ver”, admite Henrique.
Durante outro encontro com Elvis para compor, já em 2018, Henrique se lembrou da ideia e resolveu insistir no título. Dessa vez, a “Liberdade provisória” falava sobre o namoro instável. Aí sim, deu certo.
Altos e baixos
A letra deixa em aberto se o casal voltou ou não. Na vida real, está tudo ótimo. Thays ajudou de várias formas o moleque com R$ 30 no bolso a virar compositor requisitado no pop brasileiro.
Ela chegou a pagar o aluguel do Henrique em épocas mais duras do começo do namoro. A namorada até deu orientação jurídica para ele se livrar de “contratos ferrados e empresários oportunistas”, ele diz.
“Nunca duvidei de mim, sempre achei que ia ser o número um como compositor e como artista. Só que tem dias que você amanhece para dominar o mundo e outros em que você fica para baixo. E era nesses dias que ela foi fundamental na minha vida”. diz Henrique.
Musa da ‘Liberdade’ e da ‘Propaganda’
Como se não bastasse “Liberdade provisória”, Thays ainda inspirou o hit “Propaganda”. A música conta a história de um homem que faz propaganda negativa da namorada para que ela não atraia a atenção de outros. “Eu odiei a música”, ela diz. Thays ri do próprio comentário, mas repete: “Muito ódio”.
“Uma vez ela roncou e eu falei ‘opa, isso não tava no contrato’. Aí eu falei: vou fazer uma música falando da mulher que ronca e vai estourar no Brasil inteiro. E não falei nada para ela. Quando o Jorge Mateus gravou, e colocou a música no DVD ela ficou louca”, diz Henrique, também aos risos.
Drama contratual
Henrique e Juliano
Divulgação
Mas por pouco “Liberdade provisória” não foi gravada com outra voz. Logo após a composição, Elvis guardou para ser a faixa principal de um projeto de DVD para lançar sua carreira de cantor.
Nesse meio tempo, os irmãos Henrique e Juliano chamaram os amigos compositores para ajudá-los a escolher o repertório do DVD ao vivo que gravariam no Auditório do Ibirapuera, em São Paulo.
Em um encontro no sítio da dupla, no Tocantins, Elvis mostrou a música que tinha feito para o DVD dele, e convidou Henrique e Juliano para participarem da gravação. Eles adoraram.
“Um dia o [produtor Eduardo] Pepato me ligou. Disse: ‘Elvis, o Henrique e Juliano não vão falar isso com você, eles respeitam sua decisão de gravar. Mas eu te peço para pensar com carinho, porque o repertório deles está bom, mas ainda não tem ‘aquela’. Essa música seria o motor do projeto”, diz Elvis.
“Conversei muito com o Henrique Casttro e ele falou: a decisão é sua. Falei com meu pai, minha mãe, minha namorada, meus amigos, e acabei decidindo por passar”, diz Elvis. Ele abriu mão da música para o seu DVD, que ainda não saiu, e assinou o contrato de exclusividade para os amigos famosos.
A duas semanas da gravação, ele deu o presente à dupla amiga: “Estou passando a música de coração aberto. A minha carreira depois eu me viro”, disse.
Hoje, Elvis ainda planeja o seu DVD, que terá uma pegada mais pop, ele diz. Já Henrique Casttro investe forte na carreira solo como cantor. Acaba de lançar a música “Tá sofrendo porque quer”, com a justa ajuda dos amigos Henrique e Juliano em uma parceria.
Amor dentro da lei
Jorge & Mateus, Lauana Prado, Gabriel Gava e Day & Lara estão entre os nomes que já cantaram o ‘sertanejo jurídico’
Divulgação
No tribunal do sertanejo jurídico, há diversas formas de interpretação das leis além de “Liberdade provisória” (ouça trechos de todas elas no podcast acima):
Há as agressivas e imperativas, que usam a força da lei e da ordem. Como “Contrato”, do Jorge e Mateus…
… e “Vidinha de Balada”, dos próprios Henrique e Juliano, que exigem contrato com comunhão de bens;
A questão dos bens aparece em “Divisão de bens”, de Gabriel Gava, narrada como se fosse uma audiência de divórcio, em que ele faz de tudo para negar a separação;
A insinuação de que uma mulher comete crime só por querer se separar, que aparece em “Divisão de bens”, é explícita em “Crime perfeito”, de João Neto e Frederico;
Em “Seu polícia”, do Zé Neto e Cristiano, o homem sabe que descumpriu lei do silêncio, mas ainda se coloca como vítima da mulher (o que lembra “Dormi na praça” do Bruno e Marrone, de três décadas atrás);
Há também depoimentos femininos. Simone e Simaria mostram uma mulher traída e desesperada que agride o marido como vingança e alega “Legítima defesa”;
As coleguinhas também admitem a culpa da traição e pedem para ficar presas junto com o cara que elas amam, que também tava traindo sua mulher, em “Regime fechado”;
O tema da vingança pela traição também aparece em “Serasa”, da Lauana Prado;
Marília Mendonça admite sua própria negligência no relacionamento, mas acusa o namorado que quer largá-la de “Abandono de incapaz”;
O clima de conflito judicial fica mais leve em “Enquadra”, da Day e Lara, em que a mulher é quem faz a própria lei e se beneficia dela.
“Enquadra” é exceção nessas músicas com um tom conservador. Muitas comparam os relacionamentos como um contrato ou uma prisão – e ainda por cima desejam estar presos.
O G1 já mostrou como o sertanejo passou por uma fase de pegação (de “Ai se eu te pego” e hits nessa levada) e hoje está numa onda arrependida e certinha.
Leia mais: Pegação ou amor eterno? Veja como o discurso sertanejo foi da balada ao namoro de pijama
Henrique e Juliano emocionam a Arena de Barretos 2017
Mateus Rigola/G1
Henrique e Juliano começaram cantando músicas de pegação tipo “Gordinho saliente” e depois passaram a pedir para a mulher largar a “Vidinha de balada” e se arrependendo do término em “Liberdade provisória”.
No final de 2018, Juliano falou ao G1: “A gente costuma pensar igual à galera da nossa idade”, diz o cantor de 28 anos. “A gente canta a realidade, coisas pelas quais as pessoas estão passando, ou a gente mesmo passa”.
“A gente está mais quieto já tem um tempo. Eu que sempre gostei de ir para a noite, de sair… Ultimamente a gente está bem quietinho, construindo casa na fazenda”, contou (a fazenda, aliás, ficou pronta e foi o lugar onde eles conheceram “Liberdade provisória” na voz de Elvis Elan).
Esses temas de casamento, de pedir ajuda pra polícia pra parar de sofrer e de se preocupar com união estável se encaixam muito bem no clima atual do sertanejo.
Ao G1, Zé Neto e o Cristiano falaram sobre o fato de as letras deles evitarem histórias de pegação e exaltarem a monogamia. Cristiano disse: “O homem nasceu para constituir família. Isso é a lei natural da vida. Crescei e multiplicai-vos”.
Até a lei de Deus está sendo invocada. Mais um sinal de que os sertanejos estão curtindo um amor mais a longo prazo, e com assinatura e firma reconhecida.