Condenação por tráfico sexual chega quase 30 anos após primeiras acusações contra R. Kelly; relembre


Primeira acusação contra foi de mulher que diz ter sido forçada a fazer sexo com 15 anos, em 1991, e foi descoberta após casamento ilegal dele com Aalllyah, que também tinha 15 anos. R. Kelly chega em audiência para responder sobre acusações de abuso sexual em Chicago, em maio de 2019
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Desde os anos 90 R. Kelly foi um dos principais nomes do R&B, apesar de uma longa lista de acusações de abuso sexual.
Mas agora, quase 30 anos depois do primeiro registro do abuso de um menor, o artista de 54 anos pode pegar a prisão perpétua depois que um júri de Nova York o condenou por chefiar uma rede criminosa que recrutou adolescentes e mulheres das quais abusou sexual, emocional e fisicamente.
Ganhador de três prêmios Grammy, o artista com nome de registro Robert Sylvester Kelly vendeu mais de 75 milhões de discos no mundo, tornando-se um dos músicos de R&B de maior sucesso comercial, com hits como “I Believe I Can Fly”.
Mas ele sempre foi assombrado por boatos de atividade sexual ilegal. O artista fez acordos para pôr fim a acusações de abuso fora dos tribunais.
Em suas alegações finais, a promotora Elizabeth Geddes disse que o “universo” que o cantor criou permitiu que seus funcionários e seu entorno apoiassem seu comportamento criminoso.
A defesa, por sua vez, disse no encerramento de sua apresentação que Kelly era um “símbolo sexual”, que levou uma “vida de playboy” à qual as celebridades estão acostumadas.
Mas o júri, formado por cinco mulheres e sete homens, o considerou culpado de todas as acusações.
Quem é R. Kelly e como funcionava o esquema de tráfico sexual
Absolvição por pornografia infantil
Nascido em 8 de janeiro de 1967, Kelly foi criado pela mãe com outros três irmãos.
Em suas memórias, em 2012, ele descreveu experiências sexuais desde os oito anos de idade, dizendo que às vezes observava casais maduros fazendo sexo e que lhe mandavam fotografá-los.
Ele também contou que uma mulher mais velha o violentou quanto tinha oito anos e que um homem mais velho da vizinhança abusou sexualmente dele quando era quase pré-adolescente.
Há boatos de que Kelly seja analfabeto, apesar de ter lançado 14 álbuns como solista.
Seu ex-advogado disse que ele escreve em notas fonéticas e não em inglês padrão.
A Jive Records o contratou em 1991, depois que um executivo do selo o teria ouvido cantar em um churrasco em Chicago.
Seu primeiro álbum solo, “12 Play”, foi lançado em 1993, com temas de conteúdo sexual, como “Bump N’ Grind”, que esteve no topo dos sucessos de R&B por nove semanas.
Apesar de sua turbulenta vida pessoal, incluindo seu casamento com a cantora Aaliyah, então com 15 anos, que despertou suspeitas, a fama do artista estourou.
Eles se casaram em 1994, mas o casamento foi anulado após a descoberta de que ela usou documentos falsos dizendo que tinha 18 anos – os documentos teriam sido falsificados por R. Kelly.
Em 1998, R. Kelly pagou US$ 250 mil em um acordo para encerrar uma ação de uma mulher que dizia ter sido forçada por ele a fazer sexo junto com outras menores quando ela tinha 15 anos, em 1991.
Mas no início do milênio, o repórter de Chicago Jim DeRogatis recebeu de forma anônima duas fitas que pareciam mostrar Kelly fazendo sexo com meninas menores de idade. Um destes vídeos impulsionou a acusação de pornografia infantil contra o artista.
Depois de anos de demora, durante os quais continuou gravando e fazendo shows, Kelly foi absolvido destas acusações.
Foto de 2015 mostra cantor R. Kelly na Semana de Moda de Nova York
Michael loccisano/Getty Images North America/AFP
“Silenciar R. Kelly”
As acusações tiveram pouco impacto em sua fama.
Entre 2005 e 2012, ele escreveu, produziu, dirigiu e atuou na notória ópera hip hop intitulada “Trapped in the Closet” (Preso no armário), uma história absurda de sexo e mentiras que desconcertou e impressionou a crítica.
“R. Kelly é uma piada ou um gênio?”, questionou um crítico de Pitchfork quando o melodrama estreou. “Realmente espera que esqueçamos de sua recente situação desagradável ou realmente não se importa com o que pensamos?”
Em julho de 2017, o BuzzFeed publicou uma longa reportagem investigativa de DeRogatis, na qual dizia que Kelly chefiava uma “seita sexual” e mantinha seis mulheres sequestradas entre Chicago e Atlanta.
Ao mesmo tempo, duas mulheres de Atlanta, Kenyette Barnes e Oronike Odeleye, fundaram o movimento “Silenciar R. Kelly”, que incentivava o boicote de suas músicas.
Em julgamento
Em janeiro de 2019, uma série documental do Lifetime voltou a pôr o foco nestes temas, entrevistando mulheres que tacharam Kelly de manipulador, violento e obcecado por meninas, às quais supostamente exigiria que o chamassem de “papai”.
Desta vez, o novo escrutínio pareceu provocar uma mudança radical: artistas como Lady Gaga se desculparam por suas colaborações passadas com Kelly e seu selo fonográfico o abandonou.
Os promotores de Chicago apresentaram 10 acusações de abuso sexual com agravantes contra ele e em seguida o cantor foi acusado por promotores federais tanto de Illinois quanto de Nova York.
Desprestigiado e supostamente na ruína, Kelly, que foi preso sem direito à fiança, foi condenado por um tribunal do Brooklyn e saberá qual será sua sentença em 4 de maio de 2022.
Mas este não será o fim: ele ainda deve ser julgado em outras três jurisdições.
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