Companhia de alguém familiar inibe memória de medo, descobre grupo de pesquisadores de Porto Alegre


Resultados do trabalho foram publicados no início deste ano em revista científica. Estudo foi feito com ratos. Primeira autora do artigo, Clarissa Penha, e a professora Jociane Myskiw, integram o grupo que publicou o artigo com a descoberta
Flávia Polo/Instituto do Cérebro
Memórias de medo podem ser extintas com a presença de pessoas familiares, como concluiu uma pesquisa de um grupo do Centro de Memória, do Instituto do Cérebro do Rio Grande do Sul. Os resultados obtidos no trabalho, desenvolvido entre 2017 e 2018, foram publicados no início deste ano na revista Procedings of the National Academy of Sciences of the United States of America, e divulgados na última sexta-feira (22) pelo Instituto.
Então estudante do mestrado em Gerontologia Biomédica, Clarissa Penha Farias assina o artigo como primeira autora, com os professores Cristiane Regina Guerino Furini, Jociane de Carvalha Myskiw e Ivan Izquierdo e os estudantes Eduarda Godfried Nachtigall, Jonny Anderson Kielbovicz Behling, Eduardo Silva de Assis Brasil e Letícia Bühler.
O problema é quando os medos são disfuncionais, ou seja, provocam ansiedades, fobias, transtorno de stress pós-traumático. Por isso, a extinção da memória de medo é pesquisada, observa a pesquisadora.
O estudo comprovou que as cobaias que foram expostas a uma mesma situação que provocava o medo, acabaram apagando aquela memória quando estavam acompanhadas de outra cobaia familiar. Seria uma forma de desprogramar esse medo e, portanto, eliminar determinada disfuncionalidade.
Mas a pesquisadora reforça a importância do medo para existência humana quando ele ocorre naturalmente. “As memórias de medo são extremamente fundamentais para nossa sobrevivência. Uma pessoa que não tem medo corre grave perigo no cotidiano. Pense em uma pessoa que vai atravessar a rua e não tem medo”, comenta Clarissa.
Estudo foi publicado em revista científica internacional
Reprodução
Pesquisa com ratos
Os resultados foram obtidos através do estudo de ratos wistar, comumente usados em pesquisas básicas, ou seja, mediante utilização de animais. Em um primeiro momento, os ratos foram expostos a um ambiente neutro. Depois, receberam estímulos elétricos, dentro do mesmo local onde estavam.
“Com estimulo elétrico, o ambiente se torna aversivo”, explica. Os pesquisadores dividiram os animais em dois grupos: alguns passaram por todas as etapas sozinhos e outros retornaram ao local neutro, sem os estímulos elétricos, com um outro animal que era familiar.
“Aí deixamos ele, para que ele faça essa nova associação: ‘Levei choque, mas agora não levo mais’. Isso a gente chama de extinção. Nosso grupo investigou como a presença de um animal familiar impactaria nessa extinção”, comenta Clarissa.
Foi constatado então que o suporte social, ou seja, a companhia de alguém familiar, inibe a lembrança da situação de medo vivida.
Nos seres humanos, a descoberta teria um impacto importante. “Imagine que alguém vá todo dia ao banco. Em um dia, é assaltada. Só que, no outro dia, vai ao mesmo lugar, com uma pessoa conhecida. Aí não ficará com medo, não sentirá calafrio, frio na espinha”.
Para o tratamento de casos assim, é comum que a pessoa passe pela terapia de exposição, ou seja, quando é colocada em contato com a fonte do medo até que consiga ressignificá-lo em sua mente, lembra a pesquisadora.
“Para isso, a pessoa precisa ser exposta novamente [ao seu medo]. Com o suporte social, nos ratos, a gente viu que o animal não precisou sentir esse medo de novo”, diz a professora.
Regiões do cérebro
Os pesquisadores também constataram que a extinção do medo com suporte social ativa uma parte diferente do cérebro da que é utilizada quando o animal extingue o medo sozinho.
“Identificamos que essa memória de extinção depende de síntese de proteínas no córtex pré-frontal e não no hipocampo”, diz a pesquisadora.
“Esses achados contribuem na compreensão da memória de extinção com a presença de alguém familiar, e pode abrir portas para novos achados. Quem sabe daqui a pouco sendo pesquisado em humanos”, comenta.
“Até então, ninguém tinha descoberto essa questão. Se sabia que o suporte social amenizaria os sintomas de medo, mas até então nenhum experimento viu que suporte social podia inibir a memória de medo”, conclui a pesquisadora, que prosseguirá a pesquisar o tema no doutorado.