Como racismo virou debate no BBB e inquérito policial após comentário de Rodolffo sobre cabelo de João


Cena do reality show gerou polêmica dentro e fora do jogo. Sociólogos falam sobre o assunto. João ficou magoado por Rodolffo ter comparado o seu cabelo com o da fantasia de homem das cavernas que o sertanajo usava
Reprodução
Horas após deixar o BBB, o cantor sertanejo Rodolffo afirmou, em conversa com a apresentadora Ana Maria Braga, que o reality foi uma oportunidade de evolução e que foi “ponte de ensino para muitas outras pessoas que ainda são desinformadas”.
Rodolffo estava comentando sobre não ter informações sobre racismo. Falava também, em especial, sobre a situação que envolvia João.
Em sua última semana, durante o Castigo do Monstro, o cantor e Caio tiveram que usar uma peruca de homem das cavernas. Ao colocar a peruca, Roldoffo disse: “A gente está com o cabelo quase igual ao do João”.
Rodolffo disse não ter percebido que seu comentário ofendeu o colega e também disse não ter notado que a fala de Ludmilla tenha sido uma indireta para ele. Em seu show no reality, a cantora gritou: “Respeita o nosso funk, respeita a nossa cor, respeita o nosso cabelo.”
Em sua saída, após ver toda a repercussão gerada, Rodolffo assumiu o erro, se desculpou e prometeu se aprofundar no assunto. Mas a Secretaria de Polícia Civil do Rio de Janeiro já havia aberto um procedimento para investigar se houve crime de preconceito racial cometido na ocasião.
Além disso, debates foram levantados sobre o tema. De um lado, as acusações de racismo contra o cantor. De outro, afirmações de que o comentário foi “uma brincadeira” ou “sem maldade”.
“As brincadeiras, as piadas são uma forma muito perversa de reprodução do racismo. Porque, além de você ter esse elemento de negação do conflito que existe no Brasil, deixa a vítima do racismo numa posição acuada porque ela está ali envolvida num ambiente de humor”, analisa Paulo César Ramos, doutor em Sociologia USP e Pesquisador do Afro – Núcleo de Pesquisa e Formação da Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP-AFRO).
“E é mais custoso você criar um conflito diante de um ambiente e de uma esfera em que as pessoas estão bem-humoradas, estão todas rindo, mesmo que seja de você.”
“Você não consegue reagir a essa forma de violação do seu autorrespeito, de sua autoestima, e de sua estima coletiva, de seu respeito coletivo. Então isso é muito grave. É a forma mais perversa pela qual as práticas racistas se reproduzem”, completa ele.
Leia também: Como colorismo virou debate no ‘BBB21’ e por que negritude de Gilberto é questionada?
“Racismo é racismo. Existem, obviamente, alguns que a lei vai poder pautar como crime e portanto vão poder ser judicializados. Mas de maneira geral, acho que a gente tem que encarar o racismo como algo bastante mais amplo do que a esfera criminalizável”, explica Luana Génot, Fundadora e Diretora-Executiva do Instituto Identidades do Brasil (ID_BR).
Idealizadora da Campanha “Sim à Igualdade Racial” e especialista em raça no Brasil, ela ainda completa:
“Quando Rodolffo fala do cabelo que parece um cabelo de monstrinho, isso reafirma toda uma esfera de inferiorização do cabelo crespo como aquele que não é o mais bonito, como aquele que é monstruoso, que é o feio. E isso, lá na ponta, faz com que uma outra pessoa decida não dar emprego para uma pessoa negra porque ela não tem o cabelo aceitável. Perceba que essas ações estão correlacionadas.”
Ludmilla canta no “BBB21” e dispara: “Respeita o nosso funk, respeita a nossa cor, respeita o nosso cabelo.”
TV Globo
O que é racismo?
Segundo Paulo e Luana, racismo vai “muito além das palavras, ações ou atitudes contra um indivíduo”. “Essa atitude de insultar ou praticar injúrias é apenas a ponta do iceberg”, compara Paulo César Ramos. “É apenas a fase comportamental de um outro sistema, que aí sim, a gente chama de racista. E claro, a atitude acaba sendo racista por reproduzir esse sistema.”
“O racismo é o sistema que divide a humanidade, cria classes de pessoas e hierarquiza a humanidade em classes de pessoas. Isso pode ser a partir de traços fenotípicos, de pertencimento étnico, de nacionalidade, de profissão de fé, entre outras coisas”, diz o sociólogo.
Segundo Luana, racismo “é algo que é tão presente na sociedade como o chão que a gente pisa”. “E que vai muito além do que as palavras que a gente possa dizer em termos ofensivos, como xingar alguém de macaco. Mas está muito também no desviar de alguém na calçada quando você vê um homem ou uma mulher negra, ou algum indígena e você atrelar ele a uma tribo, de deixar de dar emprego porque a pessoa é negra e não tem ‘cara de gerente’.”
“Então, o racismo está em ações conscientes e inconscientes que a gente aprendeu a reproduzir ao longo de muito tempo”, diz a pesquisadora.
Initial plugin text
‘Tenho pai negro’
Rodolffo citou que seu pai é negro para afirmar que não era racista. Segundo os sociólogos, a argumentação, chamada de tokenismo — uma prática de fazer um esforço simbólico para ser inclusivo com minorias — é bastante comum.
“A gente precisa entender que não adianta usar pessoas negras como escudos ou amuletos pra se dizer não racista, mas sim se assumir como racista e mapear, identificar os comportamentos que a gente reproduz e tentar convertê-los em pensamentos que façam com que a gente possa repensar nossas ações, nossas palavras empregadas, nossas ações desenvolvidas ao longo dos nossos dia-a-dias”, diz Luana.
“E a ainda assim, mesmo se policiando a gente continua numa estrutura. Então somos todos racistas em processo de aprendizado antirracista quando queremos fazê-lo intencionalmente. Não acontece de uma forma orgânica e natural. É uma forma intencional e forçada mesmo pra gente poder passar desse ‘não sou racista’ para um antirracista que está constantemente se educando”, explica ela.
Camilla de Lucas
Reprodução/Instagram
Não é ‘mimimi’
No “BBB21”, a influenciadora Camilla de Lucas mostrou didática e paciência para conversar sobre o tema sempre que necessário. E desabafou quando Tiago Leifert fez um discurso sobre racismo. “Se é cansativo para vocês ouvirem, eu estou cansada de viver. Eu estou cansada de ficar explicando isso pra todo mundo”, declarou ela, aos prantos.
Paulo destaca ainda que, muitas vezes, a reação de quem sofre racismo é mais julgada do que a ação do racista.
“É mais fácil uma pessoa que reage ao racismo ser classificado como chata ou como aquele que faz mimimi, ou até como alguém que quer criar conflitos. É mais grave a pessoa que reagiu do que o próprio racista.”
“Ou seja, o racista é um problema menor do que a pessoa que reagiu e foi vítima do racismo. É assim que isso acontece no Brasl. É um padrão das nossas relações raciais”, critica o sociólogo.
A importância de se falar sobre o assunto
“2021 e a gente ainda está falando sobre racismo.”
A frase acima é reproduzida com frequência quando novos atos racistas ganham repercussão nacional. Isso porque a expectativa é que, nos dias atuais, já não houvesse mais ofensas, crimes e divisão da humanidade.
“[Ainda falamos sobre racismo] porque a gente não tem uma educação antirracista constante nas escolas, algo mais intencional e absolutamente estrutural para educar a população, então os esforços ainda tem sido muito isolados. Acredito que a gente precisa massificar a educação antirracista tanto para as crianças, quanto para os adultos”, defende Luana.
Mas também há outro ponto para o crescente debate.
“A gente fala sobre racismo em 2021 porque existem muito mais intelectuais negros formados em universidades. Sobretudo devido às políticas de cotas nas universidades, que acolheram os jovens negros em suas cadeiras, que estudaram os jovens negros, que deram garantia que esses jovens negros saíssem de lá com diploma nas mãos e uma alta capacidade de elaboração de ideias e pensamento crítico”, diz Paulo.
Para ele, “quanto mais se falar sobre a questão racial com propriedade, com conhecimento de causa, com suporte científico, com pessoas que estudaram o assunto, fazem pesquisa a respeito do tema, melhor será a força da ação antirracista”.
Acadêmicos do BBB: por que ricos e famosos não vencem o reality?