Como os Barões da Pisadinha traçaram uma nova rota de sucesso pelo Brasil


‘Barômetro da pisadinha’ explica fórmula musical e geográfica do duo baiano: eles dobraram aposta no forró caseiro de teclado e desbravaram primeiro o Tocantins e o Norte para ganhar o país. O vocalista Rodrigo (esquerda) e o tecladista Felipe, do duo Barões da Pisadinha
Divulgação
O caminho musical e geográfico dos Barões da Pisadinha é diferente de tudo que se vê hoje nas paradas. O forró simples, com voz e teclado, saiu do sertão da Bahia e traçou uma rota de divulgação que passou pelo Tocantins e foi até o Acre. Agora, conquista o resto do Brasil.
O G1 já explicou em 2019 a fórmula musical da pisadinha, uma variação do forró sem banda, surgida no início da década passada, que tem nos Barões seu grande nome. O duo baiano seguiu crescendo e já está entre os quatro mais tocados no YouTube e os 15 mais populares no Spotify no Brasil.
Além da produção caseira – mesmo assinados com uma grande gravadora, a Sony Music – eles comeram pelas beiradas no mercado musical. O empresário deles é de Palmas (TO), e criou esse roteiro que,, foi rumo ao Norte e depois chegou com moral ao próprio Nordeste.
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“As produções são nos quartos de hotéis, nas viagens, nos horários de descanso. Nosso tempo é curto por causa da agenda (até 30 por mês antes da pandemia). Produzimos do mesmo jeito desde quando começou, quando tocava no barzinho, até hoje”, conta o tecladista Felipe.
Barômetro da Pisadinha
G1
As letras alternam “sofrência” romântica e a alegria dos “piseiros”, festas de interior com paredões de som. Elementos comuns são a bebida – às vezes para esquecer, outras para festejar – e a tecnologia – na conexão romântica via mensagens e redes sociais.
Rodrigo tem uma voz versátil para ir dos lamentos à farra, mas o fator sempre presente, que amarra tudo, são as frases de teclado simples e grudentas de Felipe.
“O teclado é o instrumento fundamental da pisadinha, onde foi criado o ritmo. Não escrevo os arranjos pois não leio partitura. Crio de acordo com a evolução, do que a melodia vai pedindo. Uso um teclado, um computador e um interface de áudio”, conta Felipe.
Eles tocam juntos desde 2015, mas restritos a pequenos shows de piseiro na Bahia, berço do gênero. Em 2018, conheceram o empresário Ordiley Katter Valcari, em Palmas. “No Nordeste já tinha muito artista de pisadinha. Já na nossa região, só tinha eles”, explica o empresário.
Índice de popularidade dos Barões da Pisadinha, baseado em buscas no Google entre janeiro de 2019 e agosto de 2020. O índice máximo, 100, indica o estado com maior busca por população no Estado, Tocantins
G1 / Google Trends
Seria normal se eles, saindo de Heliópolis (BA), mirassem o resto do Nordeste, para depois alcançar o litoral ou os centros maiores ao sul. Mas os Barões foram para o lado oposto.
Com isso, eles exploraram sem muita concorrência o mercado de shows de Tocantins. “Aí acabamos de estourar no sul do Pará, em Macapá, em Rio Branco, e continuamos”, conta Ordiley. “Quando a gente começou a receber ligação do Nordeste, já tínhamos um vulto maior”, diz.
Junior Vidal, publicitário e gerente de contas do Sua Musica, site de streaming popular entre fãs de forró, diz que isso os diferenciou no estilo. “Não sei se foi estratégia ou intuição, mas eles começaram a trabalhar regiões que artistas não exploram muito, estados em que o forró é mais tímido.”
O repertório não era exclusivo. “Eles chegarm cantando o que as pessoas ouviam no Nordeste, mas na batida deles”, conta Junior. Só depois de assinar com a Sony, em 2019, que a gravadora começou a regularizar o material que foi jogado nas redes de forma caótica e com sucesso absurdo.
‘Sistema artesanal’ e indústria
Barões da Pisadinha
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“Organizamos a vida fonográfica deles, compactamos as músicas que estavam soltas e colocamos tudo nos canais certos, com formato certo. A partir daí, começamos a trabalhar em todos os aspectos de promoção, divulgação, marketing e mídia”, diz Paulo Junqueiro, presidente da Sony Music no Brasil.
“Participamos da escolha de repertório. A produção é feita por eles, com uma sistema bem artesanal de produzir”, descreve o executivo veterano, que também já foi diretor na Warner e na EMI.
“Acho que aprendemos uns com os outros. Eles aprenderam conosco o que é estar na indústria fonográfica, em todas as suas frentes. E nós, Sony, aprendemos – e continuamos aprendendo – que esses nichos aparecem e acontecem sem ter nada a ver com a indústria”, afirma Paulo Junqueiro.
“Quem faz algo virar sucesso são os artistas, obviamente, pelo seu talento, e o público que se conecta com esses artistas. Nós da indústria, Sony, seja lá quem for, temos mais é que estar atentos, entender os fenômenos, apoiar e multiplicar o sucesso deles”, defende o presidente da gravadora.
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