Como estaria Elis Regina aos 75 anos?


Cantora parece cada vez maior e simboliza a imensa saudade (da trilha sonora) de um Brasil de tempos idos. ♪ ANÁLISE – Elis Regina Carvalho Costa (17 de março de 1945 – 19 de janeiro de 1982) nasceu no mesmo ano de Gal Costa. A cantora baiana fará 75 anos em setembro. Elis poderia estar festejando a mesma idade nesta terça-feira, 17 de março de 2020.
Não está, porque Elis Regina partiu precocemente “num rabo de foguete”, há já longos 48 anos, quando a artista gaúcha estava a dois meses de completar 37 anos de vida. Vida que passou como furacão pela MPB a partir de 1965, ano da explosão nacional de Elis nas plataformas dos festivais.
Gal envelheceu (bem) porque enfrentou o tempo que não para sem medo de habitar “a pele do futuro”. Atravessou fases irregulares na carreira, mas chegará aos 75 anos em plena atividade, com três grandes álbuns de estúdio e de músicas inéditas editados ao longo dos anos 2010.
Elis não teve tempo de envelhecer. É fato que hoje, data do 75º aniversário da artista, Elis parece cantora maior do que naquela trágica manhã de janeiro de 1982 em que já era imensa.
Tivesse chegado aos 75 anos, Elis teria o mesmo prestígio de outrora? Provavelmente sim. Mas provavelmente também teria cometido alguns deslizes aos ouvidos dos puristas da MPB. Talvez tivesse gravado uma balada adocicada de Michael Sullivan & Paulo Massadas para encabeçar as paradas das FMs dos implacáveis anos 1980 – até porque, na última gravação, a do bolero Me deixas louca (Armando Manzanero em versão em português de Paulo Coelho, 1981), Elis já sinalizou a vontade de abraçar repertório romântico de cepa mais popular.
Gal gravou Sullivan & Massadas. Maria Bethânia – cantora contemporânea das duas cantoras e estrela da mesma primeira grandeza das colegas – se recusou. Elis tinha temperamento forte como o de Bethânia. Mas queria fazer (mais) sucesso.
Enfim, são meras conjecturas. Ninguém pode arriscar a sentenciar ações de um passado que nunca foi presente. Como estaria a voz de Elis, aos 75 anos? Outra mera conjectura. Provavelmente teria perdido parte da potência e do alcance pelos efeitos irreversíveis do tempo. Mas provavelmente Elis estaria usando a (muita) voz que lhe restasse para dar vez a compositores jogados à margem de mercado dominado pelos refrões e melodias fáceis do universo pop funk sertanejo.
Talvez Elis, sempre antenada, estivesse dando voz às músicas rebuscadas do compositor Thiago Amud. Talvez estivesse gravando a excepcional turma paulistana capitaneada por Kiko Dinucci, Rodrigo Campos e Romulo Fróes. Certamente estaria revelando algum (ótimo) compositor de que ninguém teria ouvido falar até então. Porque Elis foi grande. Elis é grande. E hoje, aos inimagináveis 75 anos, parece ainda maior para quem tem imensa saudade (da trilha sonora) do Brasil de Elis Regina Carvalho Costa.