Como colorismo virou debate no ‘BBB21’ e por que negritude de Gilberto é questionada?


Participantes do ‘Big Brother Brasil’ sugeriram que Gilberto é ‘claro demais para ser negro’. Critério utilizado pelo IBGE para pesquisar cor e raça é a autodeclaração. Gilberto Nogueira, participante do ‘BBB21’
Reprodução/Globo
O “BBB21” é a edição com o maior número de negros na história do “Big Brother Brasil”: são oito. Foi também onde surgiu um debate sobre negritude, cor e autoafirmação.
O economista Gilberto Nogueira se declara negro. No entanto, outros participantes da casa consideram que ele tem a pele “clara demais” para se autoafirmar como tal. O tema foi assunto em rodinhas dentro do reality e em centenas de publicações fora dele.
Mosaico dos participantes do BBB 21
Arte/Gshow
Diante da repercussão, a família de Gilberto disse que o economista “se declara, se considera e se reconhece como negro”. A mãe dele contou que Gil foi agredido pelo pai na infância por ter o tom de pele mais claro. “O pai achava que ele não era filho dele. Com isso, ele também apanhava e sofria perseguição”, disse Jacira.
Ninguém pode questionar ou determinar se Gilberto – ou qualquer outra pessoa – é negro, apenas ele mesmo. A autodeclaração racial é um direito, e o IBGE pesquisa a cor da população brasileira com base nesse critério.
A autodeclaração é defendida pelo movimento negro, explica a socióloga e mestre pela Universidade de São Paulo, Thaís Silva dos Santos.
“Se não for assim, quem vai definir sua cor/raça? Tem gente que acha que as pessoas querem se assumir negras para ter vantagem, mas não existem vantagens em um país racista. A autodeclaração é política, passa por esse reconhecimento da própria identidade e de sua história.”
Como nasce essa dúvida?
O questionamento acontece, na opinião de pesquisadores, por desconhecimento, preconceito e herança das várias denominações raciais que existiam no Brasil até as décadas de 1980 e 1990.
“As pessoas diziam que eram morenas claras, marrom bombom e uma infinidade de termos porque elas tinham vergonha de assumir que eram negras. A pessoa pensa ‘eu não quero ser isso, eu prefiro ser morena”, explica Maria de Fátima Oliveira Batista, professora à disposição da Universidade Federal de Pernambuco.
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A classificação do negro, que engloba pretos e pardos, foi importante para reconhecer o tamanho e a diversidade dessa população no Brasil e também para guiar a criação de políticas públicas, como a adoção de cotas raciais.
Mas a autodeclaração é mais que um instrumento estatístico, diz Thaís. “O Brasil é um país muito miscigenado. É uma vitória colocar pretos e pardos como negros porque nos percebemos um país de maioria negra e passamos a falar e refletir sobre isso.”
Para Batista, é também é uma maneira de quebrar a imagem negativa que era associada a ser descendente de escravos.
“As mulheres negras eram aconselhadas a casar com homens brancos para limparem o útero e terem filhos mais claros. Batalhamos muito para conseguir valorizar essa herança africana.”
O que é colorismo?
O colorismo é o conceito de que a cor da pele determina como uma pessoa negra vai ser tratada. “Quer dizer que quanto mais preto você for, com pele mais escura e cabelo mais crespo, mais você vai sofrer em alguns aspectos”, explica Santos.
Para a socióloga, algumas pessoas, no entanto, distorcem esse conceito e acabam gerando exclusão e diferenciação no próprio grupo.
A negritude vai além da cor da pele, dizem as pesquisadoras. Ela se apresenta também nos traços e na herança cultural, mas também em dificuldades dentro de um país estruturalmente racista.
“Eu sou preta retinta, minha filha é preta de pele clara e meu neto é branco. Ele vai ter privilégio na sociedade pela cor da pele, mas ele tem a origem, o narizinho é chato, o lábio é grosso. A gente tem que formar a nossa juventude para mostrar que não só a cor da pele é definidora. Nós carregamos um histórico, uma identidade afro brasileira que não pode ser perdida”, diz Batista.
“Muitos negros, independentemente da cor da pele, continuam vindo de famílias pobres, sendo a primeira geração da família a ter acesso à educação, ocupando postos de trabalho menos qualificados e com menor remuneração. Se você olha no ponto de vista dessas desigualdades, a diferença entre negros e brancos é gritante.”
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