Comentário de Rick Bonadio sobre funk no ‘Grammy 2021’ soa incoerente com a obra do produtor musical


♪ ANÁLISE – Gênero musical marginalizado pela sociedade brasileira, por ter sido gerado nas favelas e consumido por público ignorado pelas elites e pelo poder oficial, o funk continua sendo alvo de forte preconceito, mesmo depois de ter extrapolado as fronteiras nacionais.
O comentário infeliz do produtor musical Rick Bonadio em rede social sobre a presença do funk no Grammy 2021 – representado pelo uso do remix do DJ carioca Pedro Sampaio na apresentação de Cardi B na cerimônia – é, além de preconceituoso, incoerente com a trajetória artística de Bonadio.
“Já exportamos bossa nova, já exportamos samba-rock, Jobim, Ben Jor. Mas o barulho que fazem por causa de 15 segundos de funk na apresentação de Cardi B me deixa com vergonha. Precisamos exportar música boa e não esse ‘fica de quatro’ ”, disparou Bonadio em rede social.
Embaixatriz do funk brasileiro no universo pop internacional, Anitta revidou o comentário de Bonadio com propriedade. Outros cantores associados ao funk reforçaram o coro dos descontentes com a fala do artista – e Bonadio, após réplicas e tréplicas, já deu o assunto por encerrado.
Mesmo que tivesse sido feito por artistas do porte de Francis Hime e Guinga, compositores que construíram obras pautadas por melodias e harmonias requintadas, o comentário teria soado igualmente preconceituoso por desqualificar o funk como legítima manifestação musical e cultural.
Tendo sido feito por Bonadio, produtor musical que sempre enquadrou artistas na moldura pop da indústria da música, o comentário soa inclusive incoerente. A música ouvida em muitos discos produzidos por Bonadio sempre passou longe da sofisticação da bossa nova, da soberania do cancioneiro de Antonio Carlos Jobim (1927 – 1994) e do poder aliciante do suingue do samba rock e da obra de Jorge Ben Jor.
É fato que, do ponto de vista das letras, o funk pode resultar “pobre” para ouvidos habituados aos versos da MPB e do rock, mas o funk reverbera a linguagem e o comportamento da população que o consome. E, sim, a batida é aliciante. É, como diz o refrão de hit do gênero, o “som de preto, de favelado que, quando toca, ninguém fica parado”.
Por ter vindo das camadas populares, Bonadio deveria entender e aceitar essa linguagem, embora tenha todo o direito de desgostar dela em caráter pessoal.
Além do mais, o conceito de “música boa” é sempre elástico, discutível, pessoal. A música boa para um produtor musical – ou para um crítico musical – pode soar insossa para o chamado grande público (e Bonadio deve saber disso, pois sempre perseguiu o gosto popular desse público no ofício de produtor de discos).
Enfim, todo mundo tem o direito de opinar sobre determinada música ou gênero, com o devido respeito ao trabalho alheio, mas desqualificar todo um gênero musical – e, por extensão, todo um universo cultural – somente pela presença do funk no Grammy 2021 é prova de que o preconceito contra o batidão ainda está vergonhosamente entranhado na sociedade brasileira.