Com cautela, peixes do litoral nordestino podem ser consumidos

Pesquisadores monitoram o impacto de desastre ambiental no pescado do NE

Pesquisadores monitoram o impacto de desastre ambiental no pescado do NE
EBC

A região Nordeste do país tem praias atingidas pelo petróleo vindo do alto mar desde o fim de agosto. As imagens de animais mortos ou debilitados pelo contato com o óleo assustam, mas pesquisadores que monitoram e avaliam o impacto do desastre ambiental afirmam que não há motivo para pânico.

“O processo de coleta e análise começou há pouco tempo e os resultados ainda não são conclusivos. Porém, é preciso ter cautela para não criar um falso alerta e prejudicar essa cadeia produtiva”, explica o professor e ecologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e coordenador-geral do Comitê UFPE SOS Mar, Gilberto Rodrigues.

Segundo o pós-doutor em ciências aquáticas e professor da Universidade Federal do Alagoas (UFAL) Emerson Soares, a contaminação pelo óleo não é apenas estar sujo ou não. Os peixes e crustáceos (camarões, lagostas e caranguejos) que entram em contato com o poluente podem incorporar hidrocarbonetos e metais pesados que se acumulam nos organismos e passam de animal para animal pela cadeia alimentar. Por isso o monitoramento deve ser de médio e longo prazo.

“Não temos informações ainda tão completas para dizer: não consuma pescado A ou pescado B. Muitas espécies transitam nessa linha costeira e não tiveram contato algum com o óleo”, afirma o professor da UFAL.

Comer peixes capturados na costa do Nordeste não seria um risco tomando algumas cautelas. Se o consumidor souber os hábitos alimentares da espécie que será consumida e se preocupar em não comprar peixes capturados em áreas contaminadas, os riscos diminuem.

“É seguro continuar consumindo pescado do litoral nordestino, mas é preciso tomar algumas precauções. Se a espécie se alimenta de sedimento do fundo do mar ou do rio o risco de contaminação é maior e por isso é melhor evitar. O mesmo vale para animais que são filtradores, como os mexilhões”, orienta o professor da UFAL.

Segundo os pesquisadores, é aconselhável evitar peixe agulhinha e bagres costeiros. Estão nessa lista também mexilhões, mariscos, ostras e sururus de regiões que já foram atingidas pela macha de óleo.

O receio de consumir alimentos contaminados afeta pescadores, fabricantes de redes, fornecedores de gelo e outras atividades ligadas à pesca.

“Além do impacto ambiental, é preciso ficar atento ao impacto social do óleo nas praias. O medo faz com que as pessoas parem de consumir e a produção deixe de ser escoada”, afirma o professor da UFPE.

Nas próximas semanas, os resultados de novos estudos conduzidos por pesquisadores de universidades do Nordeste sobre a qualidade do pescado na região serão divulgados. 

Em nota enviado ao R7, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento disse que os estabelecimentos processadores de pescado e derivados, registrados no Serviço de Inspeção Federal (SIF), possuem em seus controles de recebimento de matéria-prima procedimentos de inspeção para identificação de contaminação por óleos combustíveis (hidrocarbonetos). Desta forma, caso seja detectada alguma anormalidade no pescado recebido, a matéria-prima não será utilizada para processamento e nem distribuída para o consumo.

O Ministério afirma também que não recebeu qualquer relato dos estabelecimentos registrados no SIF ou das unidades de produção de animais aquáticos marinhos sobre anormalidades relacionadas ao evento ocorrido nas praias do Nordeste.

Serão realizadas coletas de amostras em pescado recebido nos estabelecimentos registrados no SIF e nas unidades de produção e extração de animais aquáticos marinhos da área afetada, cujas análises serão conduzidas por laboratórios especializados.