Claudya inventaria glórias e lamentos em depoimento para livro memorialista


Em evidência nos anos 1970 e 1980, cantora lembra confusão com Elis Regina e a consagração no musical ‘Evita’. Claudya em imagem da capa do livro ‘O que não me canso de lembrar’
Thais Mesquita
Resenha de livro da série A música de – História pública da música do Brasil
Título: Claudya – O que não me canso de lembrar
Autor: Claudya
Pesquisa e edição: Daniel Saraiva e Ricardo Santhiago
Editora: Edição independente dos autores
Cotação: * * *
♪ “Minha carreira foi assim: um corte aqui, um corte ali, um corte lá. Fui cortada de todas as formas e só sobrevivi por causa da minha teimosia. (…) Gosto de ser livre para cantar aquilo que tenho vontade. A música, para mim, é mais importante do que qualquer movimento”.
Exposta na página 72 do livro Claudya – O que não me canso de lembrar, título inaugural da série memorialista A música de – História pública da música do Brasil, essa visão de Claudya dá a pista e o tom da sucinta autobiografia dessa cantora e compositora nascida Maria das Graças Rallo em 10 de maio de 1948 no Rio de Janeiro (RJ), cidade onde viveu até os nove anos, antes de ir morar com a família em Juiz de Fora (MG).
Neste livro-depoimento, escrito na primeira pessoa e formatado com pesquisa e edição de Daniel Saraiva e Ricardo Santhiago, Claudya inventaria glórias e lamentos. Para quem não liga o nome ao som, Claudya – que assinava Cláudia nos discos até meados da década de 1980 – é grande cantora revelada nos anos 1960.
Dona de voz extremamente afinada e valorizada pela sagaz musicalidade da artista, a artista viveu um primeiro momento de auge artístico de 1971 a 1973, período em que lançou três bons álbuns pela gravadora Odeon, com destaque para o terceiro Deixa eu dizer (1973), disco do qual Marcelo D2 sampleou a faixa-título na gravação da música Desabafo (2008), ação que fez Claudya ser descoberta por público jovem.
Contudo, o instante de maior consagração de Claudya aconteceu no teatro, como protagonista do musical Evita (1983). A intérprete – que já substituíra Nara Leão (1942 – 1989) há 16 anos no elenco da peça Liberdade, liberdade (1967), dividindo o palco com o ator Paulo Autran – foi escolhida para dar voz e corpo à líder política argentina Eva Perón (1919 – 1952).
O musical se tornou um dos maiores sucessos do teatro brasileiro dos anos 1980 sem que esse êxito tenha alavancado a carreira fonográfica de Claudya, desde então desenvolvida em selos de menor porte e alcance. A ponto de álbum gravado pela cantora em 1989 sequer ter sido lançado comercialmente.
“Considero que isso é uma espécie de boicote a artistas da minha categoria – e a minha carreira foi pontuada por esse tipo de boicote”, acusa a artista na página 86 do livro, em outro exemplo de que como o depoimento de Claudya oscila entre o orgulho dos feitos e a queixa dos boicotes que a teriam prejudicado.
Capa do livro ‘Claudya – O que não me canso de lembrar’
Reprodução
De todo modo, Claudya de fato foi vítima em 1966 do veneno do jornalista, compositor e diretor de shows Ronaldo Bôscoli (1927 – 1994). Em dupla com Miele (1938 – 2015), Bôscoli assinou a direção do show Claudia – Não se aprende na escola (1966). Só que espalhou a fake news de que o show se chamaria Quem tem medo de Elis Regina? para alfinetar Elis Regina (1945 – 1982) e forjar rivalidade de Claudya – até então inexistente, de acordo com a artista– com a cantora gaúcha, então uma das maiores sensações da música brasileira.
Como Claudia lembra no livro, Elis teria se contaminado com o veneno de Bôscoli e a humilhado ao convidar a suposta rival para o programa de TV O fino da bossa, comandado por Elis. A rigor, o livro Claudya – O que não me canso de lembrar oferece a visão de apenas um lado da história.
Entremeado com depoimentos de vários nomes sobre a cantora e incrementado com a reprodução da discografia completa da artista, de 1965 (ano do primeiro single) até 2019, o livro tem como função básica justamente perpetuar a memória de Claudya a respeito da própria trajetória. Uma carreira de altos e baixos, com mais baixos do que altos, como a artista reconhece ao fim desse inventário que expõe os sentimentos de Claudya a respeito da música, do mundo e da vida.