‘Cinderela’ é atualização musical, despretensiosa e divertida do conto de fadas; G1 já viu


Primeiro filme de Camila Cabello moderniza clássico infantil com protagonista independente e versões boas o suficiente de canções para disfarçar suas limitações. Nem toda nova versão de um clássico precisa ser a adaptação definitiva da original. Esse é o espírito de “Cinderela”, musical que atualiza o conto de fadas de forma despretensiosa e até divertida.
Com a cantora Camila Cabello em seu primeiro trabalho como atriz, o filme consegue contornar suas próprias limitações – protagonista inexperiente, gravações durante a pandemia, James Corden – graças a boas canções e ao roteiro da diretora Kay Cannon (“Não vai dar”).
A produção estreia na plataforma de vídeos Prime Video nesta sexta-feira (3).
Assista ao trailer de ‘Cinderela’, com Camila Cabello
Princesa clássica, sonho atual
“Cinderela” mantém toda a base do conto de fadas. Estão lá a heroína maltratada, a madrasta malvada, a fada madrinha e o sapato de cristal.
A principal diferença está nas motivações da protagonista. Mesmo sofrendo com os abusos e ameaças da viúva (Idina Menzel) de seu pai, a jovem não quer saber de príncipe encantado.
No grande baile, mesmo coberta com um vestido mágico e os famosos calçados, seu objetivo é o conhecido networking.
Que marido que nada. A prioridade é encontrar membros da realeza interessados em comprar as roupas que ela desenha, em uma sociedade que descarta a possibilidade de uma mulher ser dona de seu próprio negócio.
A mensagem óbvia poderia soar forçada, mas Cannon mostra a mesma destreza que já havia exibido ao escrever os três musicais de comédia “A escolha perfeita”.
Com humor leve mas afiado, o filme tira sarro de si mesmo o suficiente para tirar qualquer impressão de sermão.
Nicholas Galitzine e Camila Cabello em cena de ‘Cinderela’
Divulgação
Elenco real
O roteiro da diretora é sustentado por um elenco certeiro. Até a inexperiência de Cabello como atriz ajuda.
Sem nem tentar interpretar uma princesa clássica da Disney, a cantora entrega uma atuação que pode não brilhar, mas ao menos é honesta o suficiente para a personagem: uma heroína que destoa completamente do contexto geral.
Se o príncipe de Nicholas Galitzine (“Jovens bruxas: Nova irmandade”) é no máximo competente, por mais que o jovem não faça feio ao cantar uma versão interessante de “Somebody to love”, ele tem o apoio de uma família real formada por um Pierce Brosnan – o antigo James Bond – sem medo do ridículo e pela sempre maravilhosa e subestimada Minnie Driver (“Gênio indomável”).
Com pais desse calibre, é impressionante que a jovem Tallulah Greive (“Confinamento”), roube todas as poucas cenas a que tem direito.
Mérito também, é claro, da esperteza do roteiro. Quando se perde entre situações pouco verossímeis, ou simplesmente sem sentido, a história lança mais uma boa versão de algum sucesso pop para distrair o público das pontas soltas.
A fórmula talvez não garanta prêmios, mas pelo menos segura a atenção de seus jovens espectadores. Até o apresentador de talk show – e comediante sofrível – James Corden (“Cats”), responsável pela produção, consegue arrancar algumas risadas.
Tallulah Greive, Minnie Driver, Pierce Brosnan e Nicholas Galitzine em cena de ‘Cinderela’
Divulgação
Magia com limite
Mas não é como se o filme fosse perfeito. Assim como a trilogia musical escrita pela diretora, ele é competente o suficiente para divertir, mas não é exatamente memorável.
Billy Porter (“Pose”), por exemplo, aparece e desaparece como apenas mais um item a ser preenchido na lista de objetivos da produção.
Sua celebrada participação como a Fabulosa Madrinha, uma versão arrojada e muito bem vestida da Fada Madrinha, é tão passageira que, mais do que um motivo para festa, se torna uma oportunidade perdida.
Além do ator premiado, o filme contorna os problemas das gravações pandêmicas com ângulos fechados e transições tão óbvias que escancaram suas limitações.
Talvez o público esteja distraído o suficiente com as canções para perceber, mas é esquisito que o palácio real tenha correntes para impedir que visitantes pisem na grama – e elas estão bem ali, na cara de todo mundo, enquanto o rei tenta reconquistar sua rainha.
Mesmo assim, “Cinderela” garante bons momentos e sabe aproveitar sua chance para atualizar uma história que, apesar de clássica, realmente soaria extremamente datada.
O musical pode não ser a versão moderna definitiva do conto de fadas, mas é com certeza a mais atual.
Camila Cabello em cena de ‘Cinderela’
Divulgação