Cinco artistas que foram ‘cancelados’ antes de a expressão cancelamento existir


G1 explica como patrulhamento e necessidade de se exibir a partir dos erros de artistas são coisas que sempre existiram. Simonal, Wagner e Lennon estão na lista. Wilson Simonal
Divulgação
No mundo da música, há muitos casos de cancelamento, que aconteceram antes mesmo deste termo existir.
O G1 Ouviu, o podcast de música do G1, entra neste debate sobre a “era do cancelamento”, esses tempos em que há quem pare de ouvir um artista por ter ele ou ela ter falado ou feito algo.
Será que teríamos tantos artistas sendo cancelados quase todo dia, se não existissem Twitter, Instagram e Facebook? Quem pode ser considerado o primeiro artista cancelado no Brasil? E no mundo?
Ouça abaixo entrevistas sobre o tema e veja a lista:
Michael Jackson
Michael Jackson, que morreu em 2009, foi cancelado por muita gente. A decisão de parar de ouvir as canções do Rei do Pop foi tomada depois do documentário “Deixando Neverland”.
A produção dirigida por Dan Reed tem depoimentos de dois homens que dizem ter sofrido abusos sexuais do cantor, quando eram crianças. Wade Robson e James Safechuck afirmam os crimes foram há cerca de 20 anos.
Michael Jackson durante show da turnê “Dangerous”, em Bankok, em 1993
AP Photo/Jeff Widerner, Arquivo
Wilson Simonal
Quando se fala dos primórdios do cancelamento na música pop do Brasil, o nome mais óbvio é o de Wilson Simonal. Ele era o Rei da Pilantragem, o Rei do Swing. O cantor carioca fez muito sucesso nos anos 60 e anos 70 cantando músicas cheias de sambalanço como “Nem Vem Que Não Tem”.
Mas o Simonal, que morreu em junho de 2000 aos 62 anos, também foi condenado em 1974 por sequestro e extorsão. Um detetive do Departamento de Ordem Política e Social, o Dops, afirmou que Simonal era informante da polícia.
Ricardo Alexandre, autor da biografia “Nem vem que não tem: A vida e o veneno de Wilson Simonal” foi direto ao responder a pergunta: Simonal é o primeiro caso de artista brasileiro cancelado?
“Eu acho que sim né, embora o conceito de cancelamento não existisse em 1971. Havia o que se chamava de patrulha, né? Patrulha ideológica em cima de um artista”, avalia o jornalista.
“Ele certamente se julgou acima de qualquer discussão política, de qualquer polarização que houvesse no Brasil naquela época e resolveu flertar com a polícia política da época.”
Segundo Ricardo, existem várias versões para este caso. “Como alguém que pesquisou a história dele, eu sempre repito que o ponto crucial do caso do Simonal reside no campo das intenções, então é muito difícil chegar a um veredicto, mas o que dá pra afirmar com certeza é que ele flertou com alguma medida com policiais do Dops, porque se julgava acima disso.”
O escritor lembra que o caso cantor foi “escancarado”. “Ele emprestou o carro dele pra que policias fossem até a casa do contador dele. Ele não fez nenhuma questão de esconder o que ele tava fazendo. Na verdade, ele fez isso pra mandar um certo recado pros desafetos, empresários, pessoas que estivessem no caminho profissional dele”.
Para Ricardo Alexanre, Simonal ficou para sempre com a pecha de ser visto como um artista alinhado à ditadura, de ser “um dedo-duro do regime militar”.
“Dá pra dizer que essa cultura do cancelamento de dizer não eu me recuso independentemente do talento desse artista a consumir a ouvir, ou a considerar a produção dele por causa do que ele fez, falou, sem dúvida, é um caso bastante próximo do que aconteceu com o Simonal.”
John Lennon
Paul McCartney e John Lennon no show que os Beatles fizeram no Rockefeller Plaza, em Nova York, em 1964.
Mike Mitchell/Reprodução
Ricardo acrescenta que outro caso clássico de cancelamento antes de a palavra ser usada aconteceu com John Lennon e os Beatles.
“É aquela história nos Estados Unidos de que ele havia dito que os Beatles eram mais populares do que Jesus Cristo”, recorda ele. “Isso aconteceu em 1966, em uma entrevista na Inglaterra falando sobre a decadência da religião junto aos jovens.”
Nos Estados Unidos, a frase foi interpretada como se ele tivesse dito que seria melhor do que Jesus. Lennon até tentou explicar que era uma comparação mais abstrata, que não estava dizendo que era melhor do que Jesus, mas o estrego já estava feito:
“Foram criadas grandes fogueiras de Beatles, discos eram destruídos, queimados. Mas devido à precariedade das informações, foi uma coisa que ficou restrita aos cinturões religiosos dos Estados Unidos, ao Sul, e não extravasou.”
Casos como o de Lennon e Simonal teriam sido bem diferentes nos tempos de cancelamento e redes sociais. “Elas foram criadas para serem veículos de exibicionismo. A realidade é que um caso como o do John Lennon acontecesse hoje, era um prato cheio pra eu mostrar pro mundo o quão devoto de Jesus eu sou.”
“Eu preciso do Simonal pra no meu Twitter eu sou uma pessoa esquerdizada e não admito delação. Eu preciso do Michael Jackson pra poder mostrar pra todo mundo que comigo, eu sou uma pessoa muito rigorosa e não admito, eu vou cortar na carne da minha coleção de discos um artista que pisa na bola nesse nível”, explica Ricardo.
“A cultura do cancelamento não tem a necessariamente a ver com o artista. Tem a ver com a minha necessidade de me exibir a partir do erro do artista”, diz o jornalista.
Richard Wagner
Wagner viveu entre 1813 e 1883
Reprodução
Outro caso que provoca uma discussão parecida com essas aconteceu no século 19. Richard Wagner é um pianista alemão que viveu entre 1813 e 1883. Ele também foi compositor, maestro e diretor de teatro, sempre muito influente.
Arthur Dapieve, jornalista e comentarista do programa “Estudio i”, da Globo News, explicou o caso de Wagner ao G1. “É um personagem que sempre foi muito complexo, porque é um gênio, mas ao mesmo tempo, sobre qualquer parâmetro que você olhe ele é uma pessoa bem complicada para não dizer repulsiva”, resume.
“Ele era antissemita, misógino, era um ególatra, manipulava as pessoas em torno dele. Ele fazia falcatruas financeiras. No entanto, a música dele, mesmo quando reflete de alguma forma um ponto de vista acerca dessas questões que eu mencionei… a música dele é magnífica.”
“Wagner sempre deixou essa questão: a gente precisa gostar da pessoa também, não dá para gostar só da música?”, explica Dapieve.
O jornalista conta que as óperas do Wagner não são montadas em Israel até hoje. “Eu estive uma vez em Tel Aviv e perguntei para uma diretora se ela gostaria de montar”.
Ele lembra que ela falou que adoraria montar, mas como depende de verba estatal, jamais iria conseguir montar por causa do estigma. “No tempo da rede social, ele seria cancelado, processado e sei lá mais o quê. Mas coloca muito bem essa questão: a música dele continua sendo ouvida.”
Simonal, tema do filme ‘Simonal – Ninguém sabe o duro que dei’
Divulgação
Dapieve falou também uma coisa muito interessante sobre como este mundo binário em que a gente vive ajuda a explicar a cultura do cancelamento:
“A base da cultura digital, a programação mesmo, é tudo zerinho ou um. As coisas são binárias. E as redes sociais são muito binárias: os próprios símbolos que nos são dados para curtir, descurtir, aprovar, não aprovar. Eles tendem a ser binários. Ou isto ou aquilo. E as vida às vezes é isto e aquilo ao mesmo tempo.”
Ele diz que existe um “espírito de manada”, uma ânsia em cancelar certo artista por ter falado algo diferente do esperado. “Alguém que você goste sempre vai falar algo com o qual você não concorde. A gente tende a confirmar aquilo que a gente já acha, e não apenas em relação aos artistas. Tem essa necessidade, essa carência nas redes sociais.”
Morrissey
O cantor britânico Morrissey durante show neste domingo (2) no Espaço das Américas, em São Paulo
Marcelo Brandt/G1
Para Dapieve, hoje é natural acabar cobrando que artistas sejam perfeitos. E isso priva o fã de música de poder ouvir as coisas boas que ele ou ela faz.
“Um personagem contemporâneo que é cancelado e descancelado e recancelado dependendo da declaração dele é o Morrissey, né?”, lembra o jornalista. Mas o inverso também acontece: “Você pode até simpatizar com a pessoa, gostar da vida dela, e não gostar da obra. Sempre foi assim.”
“Eu acho que se você gosta de um artista, realmente gosta, e alguma coisa dele sai da curva que você criou na sua própria cabeça, acho que vale o esforço de tentar relativizar, entender que as pessoas são complexas.”
Para fechar, Ricardo Alexandre fala deu uma tendência que não tem nada a ver com cancelamentos antigos, mas com o medo de ser cancelado:
“O artista que vai cerceando que vai produzindo uma arte de encomenda pras expectativas dessa sociedade das redes sociais… ele não é artista, ele é produtor de jingle.” O jornalista cita uma frase do artista britânico Banksy: “A arte só é arte se tiver potencial para ser um desastre”.
“Eu acho preocupante o raciocínio de ‘não, nesse festival não pisa um artista que falar isso ou nesse programa um cara que se comportar assim ou tiver uma música assado ou que faça menção ao Monteiro Lobato…’ Cara, isso é um jeito de transformar a arte em produção de encomenda. A arte precisa ser muito mais selvagem, mais instintiva do que isso.”