Cientistas brasileiros defendem combate à ‘epidemia global de doenças dentárias’ em artigos internacionais


Dois estudos publicados na revista ‘The Lancet’ analisam status do tratamento odontológico no mundo e buscam saídas para resolver problemas dentários de 3,5 bilhões de pessoas. Tratamento dentário ainda não está de acordo com a demanda da maior parte dos países do mundo e está muito ligado à desigualdade social
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Um grupo de cientistas, incluindo dois pesquisadores brasileiros, publicou dois artigos na revista “The Lancet” que chamam a atenção para uma “epidemia global de doenças dentárias”. De acordo com os autores, o acesso à saúde bucal é privilégio de países menos desiguais e passa a ser um indicador de desenvolvimento social.
Os textos mostram alguns dos fatores que levaram a essa epidemia – e sugere um regime de urgência para lidar com as doenças dentárias. Para isso, usaram como referência mais de 300 publicações anteriores. A “The Lancet” lançou uma série sobre o assunto, com artigos, comentários e um editorial. A análise mostra:
Doenças dentárias são a maior epidemia de saúde pública do mundo, afetando 3,5 bilhões de pessoas, e ainda são vastamente ignoradas. Esses dados foram coletados a partir de outra pesquisa publicada em 2010;
O modelo preventivo da odontologia moderna não conseguiu combater as doenças, o que criou a necessidade de uma reforma radical;
O consumo de açúcar, tabaco e álcool é responsável pela ascensão das doenças e medidas governamentais restritivas são necessárias com relação à indústria.
Desigualdades sociais
As pesquisas cruzaram o coeficiente Gini – estatística para medir a desigualdade social dos países – com os dados de investimento financeiro em saúde bucal. O resultado é: quanto maior a distância entre ricos e pobres, menos os governos investem na prevenção e tratamento dos dentes.
“Cárie é a doença mais prevalente do mundo. Diabetes, câncer e doenças cardiovasculares atingem, em geral, a parcela mais idosa e são relativamente raras em comparação com a cárie. O consumo de açúcar e de tabaco está crescendo em um contexto global, mesmo com a queda em alguns países”, disse o pesquisador Roger Keller Celeste, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e autor dos estudos. Marco Peres, da Universidade Griffith, na Austrália, também assina os artigos.
A “The Lancet’ defende o acesso universal à saúde na área da odontologia – e, para isso, uma guinada urgente nas políticas públicas. Segundo os pesquisadores, os custos de tratamentos odontológicos estão em terceiro lugar no mundo, só mais baratos que os da diabetes e das doenças cardíacas.
No Brasil
O Brasil têm um ponto positivo: junto com a Tailândia, é o único a incluir o tratamento dentário como atenção primária no Sistema Único de Saúde (SUS). Nos outros países com assistência médica pública, os odontologistas são profissionais de referência, ou seja, os pacientes precisam de uma primeira consulta antes do encaminhamento.
Isso, de acordo com Keller, é um dos fatores que contribuem para a saúde bucal do Brasil ser melhor que a da Inglaterra, por exemplo, mas também explica que estamos longe de ter um programa de excelência. Ele defende que é importante investir na prevenção, já que os fatores de desenvolvimento da cárie estão fora do SUS.
“O Brasil precisa avançar muito. O que faz as pessoas perderem os dentes não é culpa de nenhum profissional do setor público ou privado. É a falta de acompanhamento, de campanhas da parte da educação, da regulação da indústria do açúcar”.
Fora dos artigos, Keller falou ao G1 de outra particularidade. Desde 1994, a criação de faculdades de odontologia no Brasil não acompanhou a expansão do setor público.
“Todos os profissionais possíveis estão sendo absorvidos pelo serviço público de saúde. E, apesar disso, o Brasil é o país que tem mais faculdades de odontologia do mundo. Isso reflete interesses comerciais, não só do ponto de vista educacional, mas também pelo fato de que a tecnologia é muito voltada para o mercado privado e não pras necessidades da população. As universidades ensinam a parte estética, que gera mais dinheiro no mercado particular”.
Há um ano, uma pesquisa ouviu latino-americanos. A amostra foi pequena entre brasileiros: 151 pessoas. Com base nesses dados, o estudo projetou que 16 milhões de brasileiros vivem sem nenhum dente.
Mesmo com a pequena quantidade de entrevistados, o número está modesto com relação aos dados oficiais. A pesquisa mais recente realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) foi divulgada em 2015 e aponta que 11% dos brasileiros já perderam todos os dentes – cerca de 22 milhões de pessoas.
Proposta de reforma
A “The Lancet”, com o compilado de textos publicados, passa a defender a necessidade de “uma drástica reforma na atenção à saúde dentária”.
São cinco áreas principais:
Dividir cuidados da saúde geral e dentária;
Educar e treinar um grupo de odontologistas focados na prevenção;
Enfrentar as desigualdades por meio da inclusão e dar mais acesso às populações mais pobres;
Adotar políticas mais fortes contras as causas das doenças orais – consumo de açúcar, álcool e tabaco;
Redefinir uma agenda de pesquisas para a saúde bucal.
“As atuais demandas de atendimento odontológico e saúde pública estão em grande parte inadequadas, injustas e muito caras, deixando bilhões de pessoas sem acesso a cuidados básicos. Embora essa falha nos cuidados de saúde não seja culpa dos médicos, é necessária uma abordagem diferente para enfrentar efetivamente o déficit global das doenças bucais”, disse Richard Watt, autor principal da série e pesquisador da University College London.