Chloé Zhao: como diretora chinesa revelou América esquecida e virou favorita ao Oscar em ‘Nomadland’


Trabalho com não-atores e olhar sensível para personagens abandonados dos EUA são suas marcas. Além de ‘Nomadland’, nova queridinha de Hollywood tem mais dois ótimos filmes. Paisagens vastas e esquecidas dos EUA são cenários para personagens ignorados pelo capitalismo, inspirados por pessoas comuns, não-atores, que interpretam a si mesmos em uma mistura de documentário e ficção.
A descrição acima serve para os três longas da diretora chinesa Chloé Zhao: “Songs My Brothers Taught Me” (2015), “Domando o destino” (2017) e “Nomadland” (2020). Com o mais recente, ela é a primeira mulher indicada a quatro Oscars em um só ano (direção, filme, roteiro adaptado e edição).
Ela é a primeira mulher não branca a ser indicada pela Academia a melhor diretora – e apontada como favorita pela imprensa dos EUA. Chloé já ganhou o Globo de Ouro, o Leão de Ouro de Veneza e vários outros prêmios.
Quem é a atual queridinha de Hollywood?
Frances McDormand, esquerda, e a diretora Chloé Zhao no set de ‘Nomadland’
Searchlight Pictures via AP
A cineasta de 39 anos nasceu em Pequim e, ao contrário dos seus personagens, tem família rica. Ela é filha de um executivo de uma siderúrgica chinesa. Chloé foi estudar em um internato em Londres aos 15 anos. Depois, cursou Ciências Políticas em Los Angeles e Cinema em Nova York.
Na New York University, ela foi aluna de Spike Lee. O diretor de “Faça a coisa certa” foi uma de suas influências, mas ela diz que o filme que mais a marcou foi “Felizes juntos” (1997), do diretor de Hong Kong Wong Kar-wai
A estreia em 2015
‘Songs my brothers taught me’, primeiro longa de Chloé Zao, de 2015
Divulgação
Os irmãos Johnny e Jashaun poderiam ser personagens do filme mineiro “Arábia” ou criações do cineasta pernambucano Marcelo Gomes. A paisagem árida da Dakota do Sul e os diálogos secos em montagem solta também lembram outros ótimos filmes brasileiros recentes.
Mas, claro, eles não têm nada a ver com o Brasil. O filme se passa na reserva indígena de Pine Ridge, onde Zhao passou dois meses conhecendo a vida dos nativos. Muitos tentam se mudar para cidades maiores, mas não escondem os laços com a terra e a família.
Ela conta que se interessou pelo assunto ao ver fotos da terra dos Lakota Sioux enquanto estava na universidade. Parece um motivo superficial, mas o retrato sensível e próximo dos dois irmãos mostra como ela mergulha nos seus projetos.
Chloé roteirizou, produziu, dirigiu e editou o longa. Os atores são moradores de Pine Ridge e as cenas são baseadas em suas histórias. Dos três filmes, esse é o que mais parece ter sido filmado enquanto era criado, de forma livre. Poderia ser confuso, mas é um drama familiar tocante.
O filme foi lançado no festival de Sundance, fez algum barulho, rendeu uma indicação ao Independent Spirit Award e foi selecionado para a programação Director’s Fortnight de Cannes.
Veja abaixo o trailer de “Songs my brother taught me”:
‘Songs my brothers taught me’: veja o trailer do primeiro filme de Chloé Zao
A sequência em 2017
‘Domando o destino’, segundo filme de Chloé Zao, de 2017
Divulgação
Quando filmava seu primeiro longa, Chloé Zao ficou amiga de um peão de rodeio chamado Brady Jandreay. Ele tinha sofrido uma queda, machucado a cabeça e não sabia se ia poder continuar competindo. Essa virou a história de “Domando o destino”.
Brady Jandreay interpretou uma versão ficcionalizada do seu próprio drama – só mudou o nome para Brady Blackburn. O cenário da Dakota do Sul e alguns coadjuvantes “da vida real” são os mesmos de “Songs my brothers taught me”.
É impressionante como Chloé consegue guiar uma interpretação forte desses protagonistas não-atores. O jovem Brady tem atuação de ator grande. Essa é a grande diferença entre os dois filmes e o terceiro, já que em “Nomadland” ela colocou Frances McDormand no papel principal.
Foi “Domando o destino” que botou de vez a cineasta no mapa de Hollywood. Se o primeiro foi elogiado, mas causou algum estranhamento, este teve índice 92 em 100 no Metacritic (site que faz uma média das críticas dos principais veículos do mundo). É quase a mesma nota de “Nomadland”.
Veja abaixo o trailer de “Domando o destino”
‘Domando o destino’: veja o trailer do segundo filme de Chloé Zao
‘Nomadland’ aclamado
Frances McDormand em ‘Nomadland’
Divulgação
Os personagens de “Nomadland” vagam por estradas dos EUA sem serem enquadrados por condescendência ou julgamentos morais. Eles têm nuances como as de pessoas reais – ou exatamente isso, no caso dos coadjuvantes não-atores que interpretam a si mesmos.
Mas a base é ficcional, fruto de uma dobradinha que confirma a vocação da atriz Frances McDormand de encarnar a alma da América profunda (como em “Fargo” e “Três anúncios para um crime”, pelos quais ganhou seus dois Oscars).
O roteiro é baseado no livro-reportagem “Nomadland: Surviving America in the Twenty-First Century”, da jornalista americana Jessica Bruder. Ela acompanhou pessoas mais velhas afetadas pela crise de 2008 que passaram a viver em vans e mortorhomes, se virando em empregos temporários.
A personagem interpretada por Frances McDormand, Fern, vive um resultado extremo – e também real – da recessão: uma cidade-fantasma, Empire, Nevada, que deixou de existir após a falência da fábrica de material de construção que fornecia todos os seus empregos.
Frances consegue se misturar a esse grupo de nômades e interpretar o universo deles sem um tom de pena e muito menos de glamour. Está tudo lá em “Nomadland” – desigualdade, precarização, liberdade, solidariedade, finitude da vida – sem conclusão, como na realidade. Leia a crítica completa.
Veja abaixo o trailer de “Nomadland”:
Assista ao trailer de “Nomadland”
De heroína indie a diretora de super-heróis
Depois de três filmes independentes com um método tão peculiar e bem-sucedido, o atual projeto da chinesa é uma grande virada: o filme de super-herói da Marvel “Os Eternos”, com Angelina Jolie e Salma Hayek. A estreia nos EUA é em 5 de novembro de 2021.
Mas a superprodução que depende de uma grande bilheteria global pode esbarrar em uma história que tem tudo a ver com os dramas anteriores de Chloé Zao: uma relação conturbada com a terra natal. Entrevistas da cineasta fazendo críticas à censura chinesa pegaram mal no país.
A mídia estatal chinesa, que até então mostrava com orgulho seus prêmios, passou a restringir as menções a “Nomadland”, e chineses mais nacionalistas a retratam como “traidora”. Que pena. Quem sabe ela possa interpretar a si mesma em uma versão ficcionalizada desse drama no futuro.
Chloé também tem contratos com a Amazon para fazer uma cinebiografia de Bass Reeves, primeiro delegado federal negro dos EUA, e com a Universal para fazer uma versão de “Drácula” em estilo “western de ficção científica”.
Enquanto o resultado do Oscar não vem, Chloé Zhao espera com a família em Ojai, cidade rural da Califórnia, onde mora com namorado e dois cachorros.