Cecília Beraba celebra os 80 anos e a inquietude de Jorge Mautner em álbum com parcerias inéditas com o ‘eremita erê’


Capa do álbum ‘Eterno meio-dia – Parcerias com Jorge Mautner’, de Cecília Beraba
Custódio Coimbra
Resenha de álbum
Título: Eterno meio-dia – Parcerias com Jorge Mautner
Artista: Cecília Beraba
Edição: Edição independente da artista
Cotação: * * *
♪ “Eremita que vira erê / Melhor amigo do tempo / Trouxemos doce e dança / Encantos pra adular você”, saúda Cecília Beraba nos versos finais de Eremita erê, composição de autoria da artista carioca, feita em tributo ao conterrâneo Jorge Mautner.
Alocada como faixa-bônus por trazer somente a assinatura de Beraba, a música Eremita erê fecha o álbum Eterno meio-dia – Parcerias com Jorge Mautner, programado para ser lançado na sexta-feira, 19 de março, com capa criada a partir de imagem do fotógrafo Custódio Coimbra intitulada Carnaval em Madureira. Na capa do disco, os designers João Tolentino e Bruna Vieira incorporam à foto o símbolo do Kaos, movimento ideológico-cultural criado por Mautner a partir de 1956.
Como o subtítulo do álbum já explicita, Cecília Beraba canta somente parcerias com Jorge Mautner (a exceção é justamente Eremita erê). São precisamente 11 músicas inéditas em que a artista criou melodias a partir de escritos de Mautner, com fartas doses de estranhezas – como percebido nos contornos sinuosos de Esquadrão da morte, faixa em cuja introdução a bateria e a percussão de Marcelo Callado parecem simular o som de cavalaria em marcha fúnebre. Tais estranhezas se afinam com a poética e com a própria existência de Mautner.
Gravado de fevereiro a dezembro de 2020, em maior parte no estúdio carioca Maravilha 8, o álbum Eterno meio-dia – Parcerias com Jorge Mautner chega a tempo de festejar os 80 anos completados pelo artista carioca em 17 de janeiro deste ano de 2021.
Ao longo do disco, Beraba dá voz a versos de diversas fases do multimídia Mautner. Com a devida melancolia pontuada pelo arranjo, em especial pelo sopro do trombone de Wanderson Cunha, o samba Teresa e a tristeza foi composto a partir de versos extraídos do primeiro livro do escritor, Deus da vida e da morte, publicado em 1962, mas arquitetado desde 1956.
Já Verdadeira realeza, corona é canção com letra que relata impressões sombrias do autor sobre a erupção da pandemia. “Chegou o final da vida / Sem sequer deixar lugar para a saudade / Um instante apavorante da morte / De toda a humanidade / Tudo ao nosso redor desmorona / Ao som dos nossos últimos suspiros / Como sinistra homenagem / Ao coronavírus”, rima o poeta com ideologia fúnebre que ecoa, de forma mais esperançosa, nos versos de Coisas tão dela.
Nesta faixa, distorções da guitarra de Marcos Campello – também no comando dos sintetizadores – amplificam divagações de Mautner sobre a existência da vida além da morte (“Eu vi e percebi tão somente agora / Que a gente está aqui só para ir embora / Depois voltar de vez em quando / De quando em vez / Pro coração de alguém como recordação / Ou então como mistério / De uma doce assombração”).
Entre as alternâncias de climas de Religião é consideração (faixa em que a percussão entra sincronizada com o verso “Vou ouvindo batuques de batucadas”) e o réquiem do compositor para Nelson Jacobina (1953 – 2012), grande amor musical de Mautner, louvado com versos como “Choram todas as flores / Uivam todos os violões / Ao som do véu da coisa divina / O som de Nelson Jacobina” na música intitulada justamente Jacobina, Cecília Beraba enfileira no disco parcerias como Maneirismo e Ser da tempestade.
No mosaico montado pelo disco, a obra autoral da artista com Mautner destaca Ancião, samba gravado com a manemolência do choro.
Ainda que a escrita de Jorge Mautner sempre pulse mais forte e vibrante do que a música de Cecília Beraba, ou até mesmo por causa disso, o álbum Eterno meio-dia – Parcerias com Jorge Mautner soa sintonizado com o espírito inquieto do eremita erê, eterno profeta do Kaos.