Casas de forró reabrem em SP com ‘rala coxa’ após 600 dias fechadas pela pandemia; veja vídeos e fotos


Remelexo e Canto da Ema, maiores casas do gênero na capital, reabriram nesta segunda (1º) com bandas e público. Apesar de o governo e prefeitura exigirem comprovantes de vacinação e máscaras, houve registro de frequentadores sem a proteção para dançar. Casas de forró de SP reabrem após 600 dias fechadas por causa da pandemia
Depois de quase 600 dias fechadas por causa da quarentena contra a disseminação do coronavírus, as casas de forró de São Paulo reabriram na noite desta segunda-feira (1º) com direito a danças agarradinhas e muita paquera, mas com duas condições: o uso obrigatório de máscaras de proteção para chamar alguém para bailar e a apresentação do comprovante de vacinação contra a doença em dia para entrar no “rala-coxa”. Apesar disso, alguns frequentadores deixaram de seguir as regras exigidas pelo governo estadual e municipal nesses locais (saiba mais abaixo).
Shows em pé, baladas e 100% das torcidas nos estádios estão liberados em SP
Segundo dados do setor, 70% das casas noturnas da capital paulista fecharam, mudaram de ramo, ou viraram restaurantes ou bares durante a pandemia. Cerca de 30 mil trabalhadores foram demitidos ou eram autônomos que deixaram de trabalhar no setor.
Remelexo Brasil e Canto da Ema, duas das maiores casas do gênero na capital paulista, fizeram seus últimos shows em meados de março de 2020, logo no início dos primeiros casos de Covid. À época o governo estadual decretou medidas de restrições para evitar o risco de contagio pelo vírus. Entre elas foi determinado o fechamento de casas noturnas, justamente as primeiras a baixarem as portas e as últimas a reabrirem.
Maioria das pessoas que foi no Remelexo entrou de máscara, mas a tirou dentro do salão; governo estadual e municipal obriga o uso da proteção em locais fechados
Fábio Tito/g1
Segundo o governo e a prefeitura de São Paulo, casas de shows e entretenimentos podem voltar a funcionar a partir de novembro, sem restrições de horários e com possibilidade de lotação máxima de público. Apesar disso, máscaras e atestados de vacina serão exigidos pelas autoridades para diminuir a possibilidade de transmissão do coronavírus. Estádios de futebol também poderão ter a volta dos torcedores.
As vigilâncias sanitárias do estado e do município vão realizar fiscalizações com o apoio da polícia para saber se as medidas estarão sendo cumpridas. O descumprimento acarretará a aplicação de multas aos proprietários (entenda mais abaixo).
Remelexo Brasil
Multidão faz fila para entrar no Remelexo Brasil, na noite da reabertura da casa após 600 dias fechada por causa da quarentena
Fábio Tito/g1
O g1 acompanhou a reabertura do Remelexo Brasil, com a autorização dos proprietários (veja imagens nesta reportagem). Os ingressos começaram a ser vendidos antes, pelas redes sociais da casa que fica em Pinheiros, região boêmia da Zona Oeste conhecida pela noite agitada.
Apesar de os frequentadores apresentarem o comprovante de vacinação na porta e entrarem com máscaras, a maioria deixou de usar a proteção dentro do salão. Na página do Remelexo, no Instagram, internautas perguntavam por que as máscaras não estavam sendo usadas pelos frequentadores que apareciam em vídeos sem a proteção.
“Cadê as máscaras, gente?’, indagou um. “Máscara? Nunca nem vi!!!!”, postou outra pessoa.
Internautas perguntam porque frequentadores do Remelexo não estão usando máscaras dentro do salão
Reprodução/Instagram Remelexo Brasil
“Quando a gente exige a medida de segurança: ‘vem de máscara, usa o álcool gel, vamos ver a temperatura, carteirinha de vacinação…’ Agora, em relação à máscara, lá dentro não tem… infelizmente não tem como você controlar tudo isso. Porque é dança, né”, disse o dono e fundador do Remelexo Brasil, Edinei dos Santos, de 52 anos.
Antes da reabertura da casa, o empresário e professor de forró Claudio dos Santos Pereira, 43 anos, um dos sócios do Remelexo, havia dito que as únicas pessoas que poderiam ficar sem máscaras lá dentro seriam os músicos. E aquelas pessoas que estivessem comendo ou bebendo, mesmo assim só durante a alimentação.
“Mesmo assim é abaixar a máscara e colocar depois. Outras medidas de segurança que tomamos é a presença de álcool gel no espaço. Tudo pela segurança”, chegou a dizer Claudio.
Dono e fundador do Remelexo Brasil, Edinei dos Santos, de 52 anos, disse que não há como obrigar o uso de máscaras dentro do salão: ‘Lá dentro infelizmente não tem como você controlar tudo isso. É dança, né’
Fábio Tito/g1
Segundo Ednei, apesar da capacidade máxima de 800 pessoas ser permitida pelas autoridades no local, ele comentou que esperava colocar 600 pessoas. “Por isso que eu esperei todo esse tempo pra voltar, em respeito à vida. Nós, da minha família também perdemos familiares e amigos”, contou o empresário sobre as vítimas que morreram em razão da Covid.
“Estamos voltando depois de ficarmos 1 ano e 8 meses parados. Muita gente do entretenimento e casas de shows quebrou. Amigos meus não aguentaram, mas resistimos a muito custo”, reforçou Claudio.
A psicóloga Fernanda Navarro, de 49 anos (ao centro), e outras frequentadoras aguardam entrar no Remelexo do lado de fora, mostrando o comprovante de vacinação, além de usarem máscaras: ‘Já fizemos toda essa amizade aqui na fila, ninguém se conhecia’
Fábio Tito/g1
Do lado de fora do Remelexo uma fila na calçada contornava a casa. Enquanto esperava entrar, a psicóloga Fernanda Navarro, 49, contou que, durante a pandemia, sentiu falta do forró, sertanejo e outros estilos para dançar.
“Eu fiquei praticamente depressiva, com crise de ansiedade… Me pegou bastante. Aqui no Remelexo é a primeira vez que venho. Estou muito feliz, já fizemos toda essa amizade aqui na fila, ninguém se conhecia. O forró faz isso, né”, afirmou Fernanda.
A psicóloga falou que se sentia segura para se divertir no lugar. “Já está todo mundo vacinado, aqui eles pedem até o comprovante, né. Mas de todos os lugares que já fui, só teve um que pediu o comprovante de vacina. Nenhum lugar está pedindo”, disse.
O casal Fernando dos Santos, 40 anos, empresário, e Juliana Garrido, 36 anos, contabilista, lembra que foi longo o período até poder voltar a dançar.
Fábio Tito/g1
Do lado de dentro, ainda no começo da festa, o casal Fernando dos Santos, 40 anos, empresário, e Juliana Garrido, 36 anos, contabilista, lembrou que foi longo o período até poder voltar a dançar.
“Antes da pandemia passamos um tempo morando fora, e uma das coisas que fazia falta era o forró. Quando voltamos estávamos doidos pra vir aqui dançar, mas na mesma época começou a pandemia. Então tivemos que esperar mais esse tempão pra matar essa saudade”, disse Fernando.
“Eu acho que, com os protocolos de segurança, mostrando o comprovante de vacinação, já está tudo bem pra voltar, sim”, afirmou Juliana.
Maíra Pontin, de 31 anos, programadora, dança no Remelexo após a reabertura: ‘Esse forró é muito legal porque é de segunda-feira, só vem forrozeiro raiz’
Fábio Tito/g1
“Eu vinha aqui dançar desde adolescente, ainda nem podia entrar mas dava um jeito. Esse forró é muito legal porque é de segunda-feira, só vem forrozeiro raiz. E essa volta casou certinho com a véspera de feriado, está muito bom”, contou entre uma dança e outra Maíra Pontin, de 31 anos, programadora.
O projeto que sobe no palco às segundas é o “Forró de Terno”, composto por músicos de quatro bandas diferentes. Eles não usaram máscaras para cantar e tocar os instrumentos porque a proteção os atrapalha durante o trabalho. Segundo os organizadores do show, os artistas também estavam vacinados e mantiveram o distanciamento de mais de um metro do público.
Músicas que tocaram no Remelexo Brasil comemoraram reabertura das casas de shows
Fábio Tito/g1
Ainda emocionados, eles comemoraram a reabertura das casas de shows e lembraram das dificuldades que estão passando durante pandemia.
“Todo o setor de entretenimento sofreu. A gente sobreviveu com algumas lives, que deram alguma sobrevida. Passei a dar mais aulas de cavaquinho também, presenciais e também online. E essa volta agora é uma celebração, mal dá pra acreditar”, contou Anderson Anjos, de 39 anos, tocador de cavaquinho da banda Balaio de Baião.
Foto mostra último show no Remelexo, em 13 de março de 2020
Divulgação/Remelexo/Ricardo Galvão
“A gente chegou a fazer show com mesas, todo mundo sentado sem poder dançar, mas era outra energia. Fiz show em drive-in também, foram várias experiências diferentes. Eram as formas de estar próximo do público. E isso agora é uma honra, tem vários músicos que gostariam de estar aqui nesse momento da volta”, disse Nando Nogueira, de 29 anos, que tem carreira solo e toca acordeon.
“É estranho, a gente nunca imaginou passar tanto tempo sem o forró desse jeito. É difícil entender que vai voltar a ser mais ou menos como antes”, disse Thiago Fred, de 39 anos, que tem carreira solo cantando e tocando zabumba.
Canto da Ema
Frequentadores usam máscara para dançar no Canto da Ema
Reprodução/Instagram Canto da Ema
O g1 também entrou em contato com o Canto da Ema para tentar falar com os donos e poder acompanhar a reabertura da casa, mas não teve retorno até a última atualização desta reportagem.
Na sua página oficial, o Canto mostrou fotos e vídeos com frequentadores, a maioria, dançando com máscaras. Num vídeo postado pelo músico Mestrinho em sua rede social aparece um homem com a máscara abaixada, sem tampar o nariz e a boca, presa ao pescoço, enquanto ele assiste ao show. Apesar disso, foram poucas as pessoas que usaram máscaras de maneira incorreta na casa.
Vídeo postado na página do músico Mestrinho mostra um frequentador (à esquerda da imagem) com a máscara abaixada presa ao pescoço. Apesar disso foi pequeno o número de pessoas que não usaram a proteção no Canto da Ema. A maioria do público usou máscaras na casa
Reprodução/Instagram Mestrinho
Em vídeos divulgados antes da reabertura, um dos donos reforçava ao público a necessidade de usar a proteção para dançar também, além de exigir o comprovante de vacinação.
Como no Remelexo, os músicos que estiveram no Canto da Ema também não usaram máscara para cantar, mas mantiveram o distanciamento do público.
O que diz o governo
Canto da Ema comemorou a reabertura da casa que ficou fechada durante a pandemia
Reprodução/Instagram Canto da Ema
Segundo Eduardo Aranibar, subsecretário de Competividade Industrial, Comércio e Serviços do Estado de São Paulo, a decisão do governo de determinar a reabertura das casas de espetáculos se baseia nos indicadores da Secretaria de Estado da Saúde contra a doença.
“Considerando as quedas em casos [de Covid], indicadores e mais de 86% da população adulta vacinada permitiu a volta gradativa. Dia 1º de novembro é o momento com 100% da capacidade de cada estabelecimento. Isso vai se aplicar a shows com público em pé”, disse o subsecretário ao g1.
Ele, no entanto alertou sobre as exigências em alguns locais. “Uma casa de forró tem mais contato físico, usando mascará e comprovante de vacinação será permitido a presença de público”, falou Eduardo. “Vai ter locais com concentração de pessoas, mas serão locais com pessoas vacinadas ou testes negativos para Covid. A expectativa é de que essa reabertura desses locais não cause impacto nos casos de contaminação [pela doença] nos hospitais.”
O que diz um especialista
Mestrinho e banda reabriram o Canto da Ema; somente os músicos não usaram máscaras porque a proteção os atrapalha para cantar.
Reprodução/Instagram Canto da Ema
Renato Kfouri, pediatra e infectologista, presidente do Departamento de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria e mestre pela Unifesp, afirmou à reportagem que o simples gesto de alguém que sai de sua casa já coloca essa pessoa em risco de se contrair a Covid. Mas que atualmente está menor.
“Tudo o que você for fazer, sair de casa, envolve algum grau de risco. E claro que todos esses pilares são manejados de acordo com a quantidade de vírus que circula na comunidade. É o que a gente chama de taxa de transmissão. Quando você tem registro de 10 mil casos e 400 mortes, como a gente está hoje, a chance de você topar com o vírus pela frente é muito menor”, disse Kfouri.
Mas esses riscos aumentam dependendo do ambiente e das medidas de segurança que as pessoas usem ou deixem de usar.
“Os riscos maiores são de acordo com as vias de transmissão do vírus. Se você está em ambiente fechado, com proximidade, sem máscara, sem vacinação, o seu risco é muito alto. Se você está em ambientes abertos, de máscara, com distanciamento, e com vacina, o risco é menor. Então são esses os pilares que modulam o risco maior ou risco menor”, falou o infectologista.
De acordo com Kfouri, toda retomada das atividades tem de ser feita com cautela até para evitar um retrocesso. “Então hoje dentro do cenário epidemiológico que a gente vive a gente sempre tem buscado a flexibilização com um olhar no número de casos. Isso pode ser retrocedido de alguma maneira ou não.”