‘Carlos, Erasmo…’, álbum definidor do ‘Tremendão’, faz jus ao culto 50 anos após a edição original de 1971


♪ MEMÓRIA – Nascido em 5 de junho de 1941, o carioca Erasmo Esteves tinha 30 anos e já era Erasmo Carlos quando, entre julho e agosto de 1971, lançou o LP Carlos, Erasmo…, sétimo álbum de discografia iniciada em julho de 1960 com a edição de single de 78 rotações por minuto gravado pelo artista como integrante do conjunto The Snakes.
Decorridos 50 anos, Erasmo se prepara para festejar 80 anos de vida e o álbum de 1971 permanece como o disco mais cultuado da obra fonográfica desse cantor e compositor por vezes injustamente minimizado como parceiro colaborador de Roberto Carlos.
Primeiro álbum de Erasmo na Philips, gravadora de elenco estelar para o qual o cantor foi levado por iniciativa do executivo André Midani (1932 – 2019) após ter permanecido de 1964 a 1970 na nacional RGE, Carlos, Erasmo… apontou um caminho para o artista e consolidou virada esboçada a partir de 1969.
Ainda aturdido e perdido com o fim da Jovem Guarda, em junho de 1968, Erasmo refletiu sobre a vida na confessional balada Sentado à beira do caminho, parceria com Roberto Carlos apresentada na voz do Tremendão em single editado em maio de 1969.
Sentado à beira do caminho foi o marco inicial da discografia adulta do artista. Ficaram para trás a forjada fama de mau, as canções de amor pueril e os rocks adolescentes da Jovem Guarda, movimento pop encabeçado por Erasmo com Roberto Carlos e Wanderléa a partir de agosto de 1965.
Entraram em cena as experiências sensoriais com as drogas, as responsabilidades da vida adulta – simbolizadas pelo casamento com a namorada Sandra Sayonara Esteves (1946 – 1995), a Narinha – e a sintonia com a ideologia hippie, já perceptível na foto de João Castrioto exposta na capa do LP Carlos, Erasmo… e na atmosfera e poética de algumas músicas do álbum, sobretudo as da canção Gente aberta, uma das seis parcerias de Erasmo com Roberto Carlos incluídas entre as 13 faixas do disco.
Gente aberta, a rigor, havia sido apresentada em agosto de 1970 no single duplo que marcou a efetiva estreia de Erasmo na gravadora Philips.
Em março de 1971, outro single duplo com o samba-rock Maria Joana (outra parceria de Erasmo com Roberto) e 26 anos de vida normal – música dos irmãos Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle, também gravada por Marcos naquele mesmo ano para o álbum Garra (1971) – adiantaram duas músicas do LP orquestrado com produção musical dividida por Manoel Barembeim com o próprio Erasmo.
Na letra, Maria Joana aludia à maconha em gravação feita com o toque da Caribe Steel Band. Já 26 anos de vida normal fazia crítica à automação humana na capitalista civilização ocidental. Ambas as músicas foram orquestradas pelo arranjador Rogério Duprat (1932 – 2006), em elo tardio de Erasmo com a Tropicália, movimento organizado em 1967 por Caetano Veloso e Gilberto Gil.
A propósito, então em exílio forçado na Inglaterra, Caetano mandou de Londres a música mais conhecida do álbum, De noite na cama, gravada por Erasmo com arranjo que caiu no suingue do samba-rock-soul.
Por mais que tenha delineado a assinatura artística de Erasmo na vida adulta, dando rumo ao artista, o álbum Carlos, Erasmo… deve ser percebido como evolução natural do som feito pelo cantor no transitório álbum anterior, Erasmo Carlos e Os Tremendões (1970), LP no qual Erasmo apresentou o samba-rock Coqueiro verde, homenagem à musa Narinha feita em parceria com Roberto Carlos. Tanto que o maestro Chiquinho de Moraes é nome recorrente nos dois discos como arranjador.
Contudo, houve salto na ideologia de repertório que versava de forma libertária sobre sexo, com alusões às drogas – especificamente à maconha – e com reflexões sobre a vida no Brasil ditatorial de 1971.
Com faixas gravadas entre estúdios das cidades de Rio de Janeiro (RJ) e São Paulo (SP), sob direção de Paulo de Tarso e com os toques de músicos como Lanny Gordin (guitarra), Sérgio Dias (guitarra), o então mutante Liminha (no baixo e na guitarra), Ronaldo Leme (bateria), Régis Moreira (piano), Oswaldo Barro (cuíca), Dirceu Medeiros (berimbau) e Sérgio Fayne (violão), o álbum Carlos, Erasmo… traz a voz de Marisa Fossa – cantora revelada como vocalista do psicodélico grupo gaúcho O Bando – em Masculino, feminino, sensual e melancólica balada de autoria de Homero Moutinho Filho, compositor revelado na era dos festivais.
A guitarra de Lanny Gordin sobressaiu no arranjo com cordas de É preciso dar um jeito, meu amigo, existencialista balada assinada com Roberto Carlos em que Erasmo evocou o clima sombrio do Brasil de 1971.
Com febril pegada roqueira, Dois animais na selva suja da rua se revelou uma das mais inspiradas músicas do politizado compositor Taiguara (1945 – 1996), tendo sido apresentada por Erasmo e nunca gravada pelo autor – Pery Ribeiro (1937 – 2012) a gravou em 1972 e, 40 anos depois, o rock Dois animais na selva suja da rua foi revivido por Nasi no álbum solo Perigoso (2012).
É na batida do rock, com direito a distorções de guitarra, que Erasmo reapresentou composição de Jorge Ben Jor, Agora ninguém chora mais (1965), lançada pelo autor seis anos antes.
Balada de inspiração bíblica assinada por Erasmo com Roberto, com certa culpa católica nada condizente com a ideologia do repertório, Sodoma e Gomorra abriu o lado 2 na edição original de Carlos, Erasmo… em LP – formato no qual o disco voltou ao catálogo em edição produzida pela Polysom em 2013 na série Clássicos em vinil.
Com metais em brasa que sopraram a fervura do soul e do funk, a gravação de Mundo deserto – música de Roberto e Erasmo também gravada por Elis Regina (1945 – 1982) naquele ano para o álbum Ela (1971) – se eleva em Carlos, Erasmo… e, justiça seja feita, dá à composição suingue mais aliciante e dimensão maior do que a sugerida pelo competente registro de Elis.
Na sequência do lado B, Erasmo apresenta outra balada – Não te quero santa, parceria de Sérgio Fayne (violonista do disco) com Saulo Nunes e com o debutante Vitor Martins, compositor paulista que seria projetado ao longo da década de 1970 como o parceiro letrista de Ivan Lins a partir de 1974 – e reverbera Ciça, Cecília, incursão de Erasmo (em parceria com Roberto) pelo universo do soul.
Apresentada no ano anterior, a faixa foi produzida por Nelson Motta, com arranjo magistral de Arthur Verocai, para a trilha sonora da novela A próxima atração, exibida pela TV Globo entre outubro de 1970 e abril de 1971. Na novela, a música era propagada como tema da chacrete Ciça, personagem da atriz Betty Faria.
Com vocais dos Titulares do Ritmo (grupo presente no disco e omitido na ficha técnica por questões jurídicas, por ser do elenco de outra gravadora), a faixa Em busca das canções perdidas nº 2 (Fábio e Paulo Imperial) tem versos que insinuam o clima psicodélico entranhado na atmosfera sensual e sensorial desse álbum definidor na discografia de Erasmo Carlos.
Por mais que capte o espírito de perplexidade de 1971, ano marcado pela consciência de que o sonho já acabara, o álbum Carlos, Erasmo… escapa da sina de ser datado – talvez por em essência propagar que sonhos nunca envelhecem – e, 50 anos após a edição original, ainda soa como um tremendo disco, um dos mais importantes da música brasileira na era da MPB.