Caetano Veloso aponta no single ‘Anjos tronchos’ a arte como escape do malefício do Vale do Silício


Primeira faixa do álbum ‘Meu coco’ usa acordes como mantras para evidenciar retumbante reflexão sobre a desordem de mundo cibernético em que ‘palhaços líderes brotam macabros, munidos de controles totais’. Capa do single ‘Anjos tronchos’, de Caetano Veloso
Fernando Young
Resenha de single
Título: Anjos tronchos
Artista: Caetano Veloso
Composição: Caetano Veloso
Edição: Uns Produções Artísticas / Sony Music
Cotação: * * * * *
♪ Em 2021, como em 1992, alguma coisa está fora da ordem mundial. Em mundo cibernético, parte da ruína se origina do Vale do Silício, reduto norte-americano de empresas universais de tecnologia que, com o uso de algoritmos, manipulam povos como gados em redes sociais.
É dessa desordem mundial que trata Anjos tronchos, primeiro retumbante single de Meu coco, álbum de músicas inéditas que Caetano Veloso lançará no último trimestre deste ano de 2021.
O poder do verbo do artista consegue sintetizar imagens que revitalizam reflexão sobre tema que, a rigor, já está na ordem do dia. Anjos tronchos versa sobre a desordem de mundo tecnológico em que “palhaços líderes brotam macabros, munidos de controles totais”.
Como em tantas outras composições do artista, caso de Fora da ordem (1992), a música foi posta em Anjos tronchos a serviço de letra que se impõe sobre os sons sombrios dos sintetizadores de Lucas Nunes – músico que assina a produção musical da faixa juntamente com Caetano Veloso, tendo mixado a gravação com Daniel Carvalho – e os toques econômicos, mas precisos, do baixo e da guitarra de Pedro Sá.
Pedro, cabe lembrar, é músico que integrava a BandaCê, trio indie carioca que deu o tom dos três últimos autorais álbuns de estúdio – Cê (2006), Zii e zie (2009) e Abraçaço (2012) – do cantor e compositor baiano.
Ao longo de quase quatro minutos, alguns poucos acordes se repetem, como mantras, na maioria das estrofes em que Caetano denuncia os horrores de mundo macabro que, a reboque da tecnologia, empodera os tais “palhaços líderes” e mata com “post vil”.
Anjos tronchos é canção que exprime desolamento, sufocada em nuvens tóxicas. “Que é que pode ser salvação? / Que nuvem, se nem espaço há? / Nem tempo, nem sim nem não. Sim: nem não”, reflete o artista desesperançado.
A desesperança remete à lembrança de “tempos em que havia tempos atrás” em verso que serve como deixa para Caetano rememorar luminoso ponto inicial da própria marcha artística com a apresentação, em festival de tempos analógicos, de Alegria alegria (Caetano Veloso, 1967), composição citada através do assertivo verso seguinte – “E eu vou, por que não? Eu vou, por que não? Eu vou” – em que Anjos tronchos se desloca por alguns segundos para a nação musical nordestina, evocada pela marcação da zabumba e do triângulo percutidos pelo carioquíssimo Pretinho da Serrinha.
Entre tanta desordem e desolação, a Arte se aninha na poética de Anjos tronchos, apontada como a salvação, o escape, o bote capaz de resgatar vidas do torpor das redes sociais.
“Mas há poemas como jamais / Ou como algum poeta sonhou”, pondera Caetano, após receitar Arnold Schönberg (1874 – 1951), Anton Webern (1883 – 1945), John Cage (1912 – 1992) – compositores vanguardistas que desafiaram a ordem mundial – e canções para os momentos em que não somos otários.
O verso final de Anjos tronchos – “Miss Eilish faz tudo do quarto com o irmão”, alusivo ao modus operandi do single que em 2016 catapultou a cantora e compositora norte-americana Billie Eilish ao estrelato – sopra a esperança de que, como um índio, a arte descerá de estrela colorida, mais avançada do que a mais avançada da tecnologias, para implodir os malefícios do Vale do Silício.
Caetano Veloso lança o single ‘Anjos tronchos’, primeira amostra do álbum ‘Meu coco’
Divulgação
♪ Eis a letra da música inédita gravada por Caetano Veloso no álbum Meu coco :
Anjos tronchos
(Caetano Veloso)
“Uns anjos tronchos do Vale do Silício
Desses que vivem no escuro em plena luz
Disseram: vai ser virtuoso no vício
Das telas dos azuis mais do que azuis
Agora a minha história é um denso algoritmo
Que vende venda a vendedores reais
Neurônios meus ganharam novo outro ritmo
E mais e mais e mais e mais e mais.
Primavera Árabe – e logo o horror
Querer que o mundo acabe-se: sombras do amor
Palhaços líderes brotaram macabros
No império e nos seus vastos quintais
Ao que revêm impérios já milenares
Munidos de controles totais.
Anjos já mi ou bi ou trilionários
Comandam só seus mi, bi, trilhões
E nós, quando não somos otários,
Ouvimos Schönberg, Webern, Cage, canções…
Ah, morena bela
Estás aqui
Sem pele, tela a tela
Estamos aí
Um post vil poderá matar
Que é que pode ser salvação?
Que nuvem, se nem espaço há?
Nem tempo, nem sim nem não. Sim: nem não
Mas há poemas como jamais
Ou como algum poeta sonhou
Nos tempos em que havia tempos atrás
E eu vou, por que não? Eu vou, por que não? Eu vou
Uns anjos tronchos do Vale do Silício
Tocaram fundo o minimíssimo grão
E enquanto nós nos perguntamos do início
Miss Eilish faz tudo do quarto com o irmão”