Britney Spears em debate: após tutela, teremos uma volta triunfal da princesa do pop?


Doutor em fandom, drag queen e cover analisam rumos da carreira da cantora, perto do fim de batalha judicial. Playback, mudança de voz, álbum perdido, Madonna e k-pop estão no papo. Fãs de música pop vêm acompanhando a batalha judicial entre Britney Spears e o pai dela. Finalmente, Jamie Spears anunciou que não vai ser mais o tutor dela.
A cantora ainda não está livre, como clama a campanha #FreeBritney, mas ela pediu à justiça dos Estados Unidos para que o fim da tutela do pai seja antecipado. A audiência está marcada para janeiro de 2022, mas ela pede um adiantamento.
Agora que a Britney está perto da liberdade, o que será da carreira dela? Será que ela tem músicas e letras prontas que não foram lançadas por causa da tutela? Teremos uma volta triunfal da princesa do pop?
O G1 convidou especialistas em Britney Spears para responder essas e outras perguntas. Ouça a mesa redonda debatendo o futuro de Britney no podcast acima ou leia perguntas e respostas abaixo.
Britney Spears no começo da carreira, no fim dos anos 90, em 2008, e em foto recente
Divulgação e Instagram da cantora
As perguntas são:
Fim da tutela pode mudar a carreira?
Os shows vão ter menos playback?
Britney pode ‘mudar’ de voz?
CD ‘perdido’ e Madonna vão influenciar?
Como serão cenários e figurino?
K-pop e reggaeton vão influenciar?
Sobrou algo do álbum de 2016?
Fãs vão ser pacientes com ela?
Os comentaristas convidados são:
Alan Mangabeira é professor da Universidade Federal da Paraíba, e Doutor em Comunicação e estética pela Universidade Federal de Pernambuco. Ele pesquisa fandoms e cultura pop;
A drag queen Tiffany Bradshaw, nome artístico do Rafael Baptistella, é DJ e faz performances como cover da Britney;
Francinne começou como cover oficial de Britney e hoje tem uma carreira solo própria que já teve feats com Wanessa e MC Zaac.
Fãs de Britney Spears fazem manifestação
REUTERS/Mario Anzuoni
Fim da tutela pode mudar a carreira?
A vida pessoal era controlada pelo pai (que não permitia que ela sequer engravidasse), assim como a vida profissional. Ele dava a palavra final para assinatura de contratos de shows, produtos e tudo mais que levava o nome da Britney.
Ela disse que foi forçada a fazer uma turnê em 2018. Só entre 2013 e 2017, ela fez 248 apresentações durante a residência “Britney: Piece of me”, em um hotel em Las Vegas.
Quando Britney tiver autonomia para escolher equipe e os próximos passos profissionais, certamente fará mudanças na forma de gerir a carreira.
“Eu sempre falava: ‘Nossa, ela não está com vontade, ela está desleixada’. Eu julguei muito e acredito que muitos fãs também julgaram. Eu me senti muito culpada por ter julgado e depois descobrir tudo isso que está acontecendo”, desabafa Francinne.
Os shows vão ter menos playback?
Para Mangabeira, não se sabe como os shows passaram a ser quase 100% feitos com dublagem. “Ela começou cantando ao vivo e até antes da tutela tinha pelo menos uma ou duas músicas ao vivo”, relembra. Ela tocava piano e cantava “Everytime”. A outra balada era “Shadow”.
Britney já comentou que um dia gostaria de fazer um show em que tivesse apenas uma cadeira, um microfone e uma pequena banda. Seria uma forma de “recuperar a própria voz”, como ela disse no depoimento ao tribunal.
Britney Spears faz show no Rio em 2011
Alexandre Durão/G1
Britney pode ‘mudar’ de voz?
Baptistella lembra que existe uma teoria entre os fãs da cantora: Britney tem a voz um pouco mais grave e teria sido incentivada a fazer uma “baby voice”.
“Quando ela foi contratada, pediram para gravar a voz um pouco mais ‘baby voice’. Isso pode ser um dos fatores de ela não cantar ao vivo, além da dança. Ela tem que forçar um pouco a voz”, explica o DJ. Para ele, existe chance de que ela retorne com a voz menos aguda.
Outro fator que poderia ter alterado a forma de Britney cantar é a parceria constante com Max Martin, produtor sueco que tem no currículo Backstreet Boys, Katy Perry, Pink, Maroon 5 e Taylor Swift.
Ele é conhecido por gravar “picotando” a voz dos artistas: frase por frase ou até sílaba por sílaba. Kelly Clarkson chegou a dizer que se sentia como um instrumento tocado por Martin.
CD ‘perdido’ e Madonna vão influenciar?
Fãs já criaram várias capas fakes do álbum ‘perdido’ de Britney Spears, chamado ‘Original Doll’
Reprodução
Todo fã de Britney ama o “Original Doll”, um álbum “perdido” com gravações de 2004, nunca lançadas como um disco completo.
Uma das músicas mais conhecidas é “Mona Lisa”, não incluída na discografia oficial. “Original Doll” foi “engavetado” pela gravadora Jive por ser mais ousado musicalmente e ter letras mais pessoais. Várias músicas foram vazadas pela cantora. Outras foram retrabalhadas e incluídas em álbuns posteriores.
Mangabeira lembra que, nas sessões de gravação de “Original Doll”, Britney teria gravado covers de Madonna. “A intenção era fazer um relançamento do ‘In the zone’, em um EP com músicas extras”, explica o professor.
Dois dos singles desse álbum são “Toxic” e “Me against the music”, com Madonna. A nova versão do álbum de 2003 ainda não foi oficializada. A paixão de Britney por Madonna poderia estar na nova era, porque as últimas gravações antes da tutela foram influenciadas pela rainha do pop.
Como serão cenários e figurino?
Performance de Britney Spears no VMA de 2007
Reprodução/YouTube
Britney vai ter que se reinventar como performer. Visualmente falando, até que ponto ela terá que se atualizar ou irá reviver outras eras?
“Ela sempre se divertiu nos palcos. Mas durante a fase de tutela, ela às vezes era obrigada a fazer coisas que não queria. Eu acho que isso deve ter tirado um pouco a vontade”, opina Baptistella.
Para ele, depois do álbum “Blackout”, de 2007, não se sabe o que era imposto e o que ela quis. “A equipe da Britney parou no tempo, em questão de merchandising e de criação de show”, diz o DJ. A falta de looks e cenários “icônicos” teria a com isso. “Era como se a Britney vivesse só de passado”, completa Baptistella.
Para os fãs, ela passou a turnê “Piece of me” quase inteira só de calcinha e sutiã. A zoeira mais comum é a de que era a “lingerie tour”.
“Ela gosta desse estilo, mas podia ter uma inovação. Essa preguiça que a equipe dela tem faz muito mal”, reclama o DJ. Para ele, Britney mostrou nos stories do Instagram que está em forma e “dançando muito bem”, diferentemente da performance na Femme Fatale tour, que passou pelo Brasil em 2011. “Ela estava lenta, estava estranha.”
K-pop e reggaeton podem influenciar?
A cantora Britney Spears, em imagem de 2019
Jordan Strauss/Invision/AP, File
Quando o álbum mais recente de Britney foi lançado, grupos de k-pop como BTS e Blackpink ainda não tinham estourado de vez. O reggaeton também não tinha mudado de patamar: “Despacito” saiu um ano após “Glory”, em 2017. Será que este novo pop mais global terá influência na sonoridade de Britney?
“Se ela quiser, com certeza faria vários feats, assim como Madonna fez com Maluma e com Anitta. Ela entraria na onda e estaria fazendo hits assim como Lady Gaga com Blackpink, Dua Lipa com Blackpink”, avalia Francinne.
A cantora, hoje com carreira que une pop brasileiro e k-pop, diz que é natural “estar de olho no que está acontecendo no mundo”.
“Eu tenho certeza de que ela iria surfar na onda, iria fazer um reggaeton incrível, com Shakira ou com J-Lo”, arrisca ela.
Sobrou algo do álbum de 2016?
Britney Spears na capa do disco ‘Glory’
Divulgação
“Glory” é um álbum que tinha tudo a ver com 2016: Britney apresentava un pop de várias camadas de vocais, com ecos meio “Purpose”, do Justin Bieber. A exceção era “Private show”, com piano classudo e uma pegada meio soul.
Sobras das gravações de “Glory” podem estar entre as faixas inéditas que turbinarão os lançamentos pós-tutela. Há 12 músicas novas dessa fase que foram registradas. Não se sabe se ela usaria essa dúzia de canções para um novo álbum ou para serem faixas-bônus de relançamentos.
Fãs vão ser pacientes com ela?
Fãs protestam pelo fim da tutela de Britney Spears em frente ao tribunal nesta quarta-feira (14)
Emma McIntyre/Getty Images North America/Getty Images via AFP
É difícil saber qual será o papel dos fãs da Britney nesta provável retomada de carreira. Será que vão entender se ela tiver que tirar um tempo para ela mesma, para focar na vida pessoal? Ou será que vão ficar cobrando turnês, álbuns e clipes?
Mangabeira divide os fãs em dois grupos:
Fãs da marca Britney Spears querem novidades o mais rápido possível;
Outra parcela entende o momento atual da cantora e são como fãs-ativistas, que pensam primeiramente no bem-estar dela e depois na carreira.
Para ele, a volta deve acontecer por uma questão financeira. “Infelizmente muito dinheiro desapareceu aí no meio do caminho”, resume ele, citando a batalha judicial.
Britney tem uma fortuna declarada de 60 milhões de dólares, segundo a revista “Forbes”. O dado é questionado, porque é uma cifra abaixo do que se espera. Ainda não se sabe qual a fortuna real, mas ela vendeu mais de 150 milhões de álbuns e só a residência em Vegas teve bilheteria total de quase 140 milhões de dólares.