Bob Dylan reflete sobre a humanidade e a morte em ‘Rough and rowdy ways’; G1 Ouviu


Aos 79 anos, Dylan lança o 39º disco da carreira, primeiro desde 2012. As dez canções longas são cheias de citações a figuras históricas e da cultura; ouça podcast e leia faixa a faixa. Em “Rough and rowdy ways”, Annie Frank e Indiana Jones cabem no mesmo verso. A vítima do Holocausto e o personagem aventureiro estão entre as inúmeras figuras da História e da Arte, em especial do século 20, que passam pelo 39º disco de Bob Dylan.
Aos 79 anos, Dylan reflete sobre a humanidade e sobre a morte através das várias citações em dez longas faixas. O disco saiu nesta sexta-feira (19). Ouça acima o podcast G1 Ouviu para saber mais sobre o disco.
Bob Dylan
Divulgação
Bob Dylan lançou de surpresa o disco, seu primeiro desde 2012. Ele sai três anos e meio depois de ele ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, que o reconheceu como “provavelmente o maior poeta vivo”.
Leia abaixo o faixa a faixa de “Rough and rowdy ways”
“I Contain Multitudes”
A faixa é inspirada no poema “Song of Myself”, de Walt Whitman, poeta americano do século 19. Dylan trabalha com a ideia de Whitman de ser um povo, uma multidão, transcender a função de narrador ou de poeta.
O poema do Whitman tem trechos como “Cada átomo do meu sangue também faz parte da terra e do ar”. Dylan pega essa ideia e vai além, com muitas citações e versos fortes.
Ele diz: “Eu sou Anne Frank, como Indiana Jones, e aqueles bad boys ingleses do Rolling Stones”, e também cita o poeta inglês William Blake, o escritor americano Edgar Allen Poe e vários outros.
“False Prophet”
Esse é um blues com letra e arranjo mais convencionais. Ele diz que não liga para o que come ou o que bebe. Dylan também cita imagens mais simples, como as estrelas do céu, e recorre a muitas citações religiosas.
É um testemunho delirante da vida de artista. Ele diz “eu só sei o que eu sei”, e que só canta “canções de amor e de traição”. Quando diz que “não é um falso profeta”, pode indicar que não quer ser profeta, mas também que é um exemplar verdadeiro. Não há um sentido só, como várias músicas dele.
“My Own Version of You”
Bob Dylan recria uma nova versão de alguém com várias partes de outras pessoas. Claro que a primeira referência que vem na cabeça de quem ouve é a do Frankenstein.
A música também é uma espécie de Frankestein. Dylan volta a empilhar referências para falar sobre esse cara que idealiza alguém. Ele cita Shakespeare, Homero, Freud, Marx, Scorsese…
Ele diz que vai misturar o Scarface de Al Pacino e o Poderoso Chefão do Marlon Brando para criar um soldado robô, e que vai fazer o Frankenstein dele tocar piano como se fosse uma mistura de Leon Russell com Liberace.
“I’ve Made Up My Mind to Give Myself to You”
Essa é meio pré-rock n’ roll, com um arranjo bem singelo. Até a voz do Dylan está menos grave, menos áspera do que nas outras.
Tem uma melancolia bonita, inocente. Ele fala das flores, sobre observar o céu, sobre não querer ficar sozinho. Ele também canta: “Estou sentado no meu terraço, perdido nas estrelas / ouvindo os sons dos violões tristes”.
Capa de ‘Rough and rowdy ways’
Divulgação
“Black Rider”
Todo o disco é triste, mas essa vai mais no fundo, com versos como “Minha alma está angustiada e minha mente está em guerra”. O cavaleiro negro com quem ele conversa na música é a morte ou algo parecido com isso.
É a letra mais pesada do disco, cheia de espíritos malignos. O cavaleiro pode também representar o apocalipse. Até porque, com a ideia do início do disco de “eu contenho multidões”, o fim do mundo ou o fim da vida se confundem.
“Goodbye Jimmy Reed”
Segundo no tema morte, “Goodbye Jimmy Reed” é uma homenagem póstuma em forma de blues mais clássico, com o jeito de cantar e a levada de guitarra e solo de gaita bem característicos do estilo.
Dylan não inventa tanto no arranjo quanto na letra dessa música que é uma homenagem ao cantor e guitarrista californiano Jimmy Reed, que morreu em 1976.
“Mother of Muses”
Essa música tem uma letra muito mais complexa. Dylan junta música, guerras, religião, política, a história dos direitos civis nos Estados Unidos…
O artista faz uma homenagem aos generais americanos da Guerra Civil até a Segunda Guerra Mundial. Ao vencer os confederados e os nazistas, eles abriram o caminho para Elvis Presley cantar e para Martin Luther King discursar, diz Dylan.
“Crossing the Rubicon”
O disco pula de um hino sobre a história americana para uma música mais universal.
É uma música com a estrutura mais bem definida, tem até uma parte que parece um refrão. Ele canta sobre atravessar para o além, ou seja, ir pro outro lado. Daí, claro, ele lança mão de muitas imagens pra dizer isso. Ele diz que está a três milhas ao norte do purgatório e a um passo do outro mundo.
“Key West (Philosopher Pirate)”
“Key West (Philosopher Pirate)” é um country mais calmo, mas muito nostálgico. É uma pessoa dirigindo para a Flórida e lembrando a vida inteira dela. E, claro, com muitas citações.
Ele cita os poetas beatniks Allen Ginsberg, Jack Kerouac e Gregory Corso quando fala sobre “nascer do lado errado da linha de trem”. É uma lembrança da contracultura, de onde vieram os beatniks e Bob Dylan.
“Murder Most Foul”
Nesse disco de músicas densas, em que parece caber o mundo inteiro, o final não decepciona. É um épico de 17 minutos.
O arranjo tem um clima de transe, com piano e violino acompanhando uma bateria bem suave. O ponto de partida é o fascinante caso do assassinato do John Kennedy.
Dentro desse mistério do século 20, Bob Dylan encaixa uma grande retrospectiva dos anos 60, da cultura pop e da vida em geral. O título é uma referência a Hamlet, de Shakesperare.
Vom essa música, Dylan conseguiu seu primeiro número 1 nas paradas da Billboard. Não foi no Hot 100, o ranking principal, mas na parada digital de singles de rock. Nada mal para uma faixa de quase vinte minutos.